Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Com aumento de 30% na venda de sorvetes no Rio, faltam frutas nas fábricas

Número de fabricantes também cresceu, assim como o de franquias; para especialista, abertura de novas sorveterias pode estar relacionada não só ao forte calor, mas a um empreendedorismo motivado pela piora no mercado de trabalho

Renata Batista e Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2019 | 11h43

RIO - O forte calor do verão de 2019 aumentou em mais de 30% as vendas de sorvete no Rio nas duas primeiras semanas do ano em relação a 2018 e fez sumir sabores mais refrescantes, como tangerina, relatam empresários do setor. 

Com sensação térmica que chega a 50°C em algumas regiões, comerciantes e fabricantes têm dificuldade para manter os estoques do setor, que cresceu em número de estabelecimentos durante a crise. O resultado são fábricas funcionando de segunda a segunda, aumento de quase 100% na demanda por algumas frutas, reprogramação de compras do varejo e investimentos em veículos para entrega. 

Fábio Barchet, diretor de franquias da Sorvete Itália, a maior rede da cidade, conta que as vendas estão maiores do que em dezembro e o mesmo período do ano passado. Segundo ele, mesmo o planejamento mais otimista feito após a eleição, não previu o aumento da demanda a que estão assistindo. Há crescimento de 30% nas zonas norte e sul da cidade; 20% na zona oeste; 22% no centro; e 10% na região dos Lagos.

Segundo Barchet, a rede está recebendo três caminhões de frutas por semana, quando o normal seria receber um ou dois carregamentos.

"Produzimos hoje para entregar amanhã. Os caminhões chegam da Ceasa (Central de Abastecimento), as frutas entram em produção e, no dia seguinte, já estão na rua em forma de sorvete de creme e picolé. Estamos entregando entre 10 e 12 caminhões de sorvete por dia", conta. 

A gerente comercial da marca, Luana Freires, conta que os sabores de frutas são os mais procurados e chegou a faltar sorvete de tangerina. Na  Sorvete Itália, coco, limão, manga, abacaxi e uva, no formato de picolé, e tangerina, torta de limão, coco e manga, em massa.

"O calor chegou pesado e alguns setores não se prepararam para isso", diz, citando a oferta de abacaxi que não foi suficiente para atender a demanda maior. "Recebemos um produto inferior com valor mais alto."

Aumento nos preços

O aumento na demanda fez o preço do sorvete consumido fora de casa subir 0,94% no mês de dezembro, quase dois terços de todo o reajuste (1,58%) que o produto acumulou no ano de 2018, de acordo com os dados do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), apurado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV)

Matéria-prima de alguns sabores populares, as frutas também ficaram mais caras no último mês do ano, coincidindo com a maior procura e problemas na safra, provocados pelas condições climáticas.

"Fica claro o efeito sazonal da estação mais quente do ano, com muito sol, o que diminui a oferta de muitas frutas. E tem também efeito de alta no preço por causa do aumento na demanda", apontou André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor no Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV).

Entre as frutas com elevação de preços em dezembro estão o abacaxi (8,68%), tangerina (7,41%) e uva (6,63%).

Wanderson Lamoia,  proprietário da fábrica Sorvete Paletitas, localizada em Piúma, no Espírito Santo (ES), conta que não chegou a ter problemas no fornecimento de frutas, já que a região é uma forte produtora, mas o preço subiu.

Também aumentou o custo de outro insumo importante, o leite, essencial à produção dos picolés de coco, campeões de venda nos três Estados em que distribui seus produtos: Espírito Santos, Rio e Minas. 

A sorveteria Açaí Mais Sabor da Praça da Bandeira, na região central do Rio, que trabalha com os produtos da Paletitas, sentiu a alta no consumo. A unidade passou a primeira semana do ano praticamente sem picolé de coco. A primeira entrega do ano aconteceu no dia 4, mas na terça-feira seguinte o estoque do sabor já estava esgotado novamente. 

Segundo Lamoia, os pedidos dos lojistas nas duas primeiras semanas aumentaram mais de 20%. No Espírito Santo, a alta chegou a 30%. Mesmo assim, ele acha que faltou planejamento de alguns comerciantes, muitos novatos no setor, que não se prepararam para o verão. Das 160 lojas parceiras da marca, 40 abriram as portas no ano passado (2018). 

"Tivemos um aumento muito grande no número de lojistas parceiros. São pessoas que deixaram seus empregos durante a crise e apostaram no ramo de sorvetes, que tem investimento inicial baixo", conta o empresário, que não trabalha no ramo de franquias, mas apoia na escolha do ponto, na formatação da loja e parcela em até seis vezes o investimento inicial, a partir de R$ 70 mil. 

Crescimento do setor

De acordo com a Associação Brasileira de Franchising (ABF), o número de franquias do ramo de docerias e sorveterias aumentou quase 5% de janeiro a setembro de 2018 em relação ao mesmo período de 2017. No mesmo período, o faturamento cresceu 28%. 

Para o economista Fabio Bentes, chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a abertura de novas sorveterias pode estar relacionada a um empreendedorismo impulsionado pela piora do mercado de trabalho. 

Levantamento da CNC, feito a pedido do Estadão/Broadcast, mostra que o número de fabricantes de sorvete aumentou em 2018 após dois anos seguidos de queda. De janeiro a novembro, foram abertas mais 207 unidades produtoras de sorvete e outros gelados comestíveis em todo o País, totalizando 4.875 empresas do gênero.

O comércio atacadista de sorvetes também cresceu. Surgiram 48 novos atacadistas de sorvete de janeiro a novembro do ano passado, para um total de 909 empresas. O levantamento considera os dados de empresas empregadoras inscritas no cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

"Tem aquele empreendedor por necessidade, que perdeu o emprego e tenta empreender, que não conseguiu voltar ao mercado de trabalho e passou a comercializar sorvete. É aquele tipo de negócio que exige uma estrutura relativamente pequena", justificou Bentes. "Pode ser gente que aproveitou o dinheiro da rescisão para abrir esse tipo de negócio. Demanda pouca mão de obra, pouca infraestrutura."

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