André Dusek/Estadão
No cenário base do Banco Central, a projeção para o IPCA deste ano é de alta de 5,0%. André Dusek/Estadão

Com avanço da pandemia, BC reduz projeção de crescimento do PIB deste ano para 3,6%

Estimativa anterior para a atividade econômica era de alta 3,8%; projeção para a inflação de 2021 é de alta de 5%, mas a autoridade monetária trabalha com cenários alternativos, considerando uma eventual piora fiscal e agravamento da pandemia

Eduardo Rodrigues e Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 08h56
Atualizado 25 de março de 2021 | 09h58

BRASÍLIA - Em meio às incertezas sobre os impactos da segunda onda da pandemia de covid-19 sobre a economia brasileira, o Banco Central diminuiu sua projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2021. A expectativa para a atividade econômica este ano passou de alta de 3,8% para avanço de 3,6%. A nova estimativa consta no Relatório Trimestral de Inflação (RTI), divulgado nesta quinta-feira, 25. 

Entre os componentes do PIB para 2021, o BC alterou de 2,1% para 2,0% a projeção para o crescimento da agropecuária. No caso da indústria, a estimativa de recuperação passou de 5,1% para 6,4% e, para o setor de serviços, de 3,8% para 2,8%.

Do lado da demanda, o BC alterou a estimativa do consumo das famílias de alta de 3,2% para 3,5%. No caso do consumo do governo, o porcentual projetado foi de 3,1% para 1,2%.

O documento indica ainda que a projeção de 2021 para a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) - indicador que mede o volume de investimento produtivo na economia - foi de 3,5% para 5,1%. Todas as estimativas anteriores constavam do RTI divulgado em dezembro do ano passado.

Mesmo diante do recrudescimento da pandemia no Brasil, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia manteve na semana passada sua projeção para o crescimento da economia em 2021, com uma alta de 3,20%.

Cenários alternativos para inflação

O Banco Central apresentou três cenários alternativos para a evolução da inflação em 2021 e em 2022, considerando uma eventual deterioração do risco fiscal e um possível agravamento da pandemia no Brasil.

No cenário base da autoridade monetária, a projeção para o IPCA, a inflação oficial do País, está em 5,0% em 2021, enquanto a estimativa para 2022 está em 3,5%. Esses valores mudam significativamente nos cenários alternativos.

Para o cenário de risco fiscal, o BC utilizou como referência a deterioração das contas públicas e a inflexão na trajetória da dívida na última crise, mais precisamente entre julho de 2014 e janeiro de 2016. Nesse caso, as projeções para a inflação são de 5,7% ao fim de 2021 e de 5,9% ao fim de 2022.

O cenário alternativo de agravamento da pandemia de covid-19 considera uma retração maior do PIB no primeiro semestre deste ano, com recuperação no semestre seguinte. Nesse caso, o comportamento do IPCA é no sentido contrário, para uma inflação de 4,5% em 2021 e de 3,2% em 2022.

A autoridade monetária construiu ainda um terceiro cenário alternativo, combinando os dois cenários anteriores, com o risco fiscal em intensidade de 15% e o de agravamento da pandemia com intensidade de 50%. “Cabe ressaltar que essa combinação foi efetuada com o propósito de exemplificar a possibilidade de combinar cenários e as intensidades escolhidas não refletem julgamento do Copom”, ressaltou o documento.

No cenário alternativo que combina os riscos fiscal e de piora na pandemia, a projeção para o IPCA é de 4,9% para 2021 e de 3,7% para 2022.

Para 2021, a meta de inflação perseguida pelo BC é de 3,75%, com margem de 1,5 ponto (taxa de 2,25% a 5,25%). Para 2022, a meta é de 3,50%, com margem de 1,5 (taxa de 2,00% a 5,00%)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Pandemia faz investimento estrangeiro cair em emergentes a pior nível desde crise de 2008, diz BC

Entrada desses recursos no País caiu de US$ 69 bilhões em 2019 para US$ 34 bilhões no ano passado; esses investimentos englobam os feitos na instalação de fábricas ou na ampliação da produção em unidades já existentes aqui

Eduardo Rodrigues e Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 09h56

BRASÍLIA - O Banco Central divulgou nesta quinta-feira, 25, no Relatório Trimestral de Inflação (RTI), um box sobre o comportamento dos fluxos de Investimento Direto no País (IDP) durante a pandemia de covid-19. O documento aponta que a retração nesses ingressos no Brasil em 2020 foi similar ao registrado em outras economias emergentes, o que indicaria que essa deterioração decorre de fatores sistêmicos.

O IDP engloba investimentos mais duradouros no País, como em uma nova fábrica ou ampliação da capacidade de uma instalação já existente no país.

Os ingressos no Brasil caíram de US$ 69 bilhões em 2019 para US$ 34 bilhões no ano passado. “Como tais fluxos são considerados de fundamental importância para a transferência de tecnologia, é possível que quedas duradouras dessa variável possam comprometer o processo de integração nas cadeias globais de valor e a competitividade dos países afetados, com consequências para seu desenvolvimento econômico de longo prazo”, alertou o BC.

O documento destaca que o fluxo de IDP para países emergentes (excluindo a China) chegou a cair em média 37% entre o segundo e o terceiro trimestres de 2020, na comparação com o mesmo período de 2019. “Essa queda é comparável ao pior momento da crise financeira global de 2008 e 2009”, avaliou o BC.

Em setembro do ano passado, em discurso na Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente Jair Bolsonaro disse que os investimentos diretos no País haviam aumentado no primeiro semestre do ano na comparação com o mesmo período de 2019. "Isso comprova a confiança do mundo em nosso governo", afirmou a outros líderes mundiais.

Os números do próprio BC, no entanto, o desmentem. O Brasil registrou no primeiro semestre de 2020 um total de US$ 25,3 bilhões de IDP, valor inferior aos US$ 32,2 bilhões do mesmo período de 2019.

De acordo com o BC, os fluxos de IDP para os países asiáticos já se recuperaram, enquanto para os demais emergentes (incluindo o Brasil), ainda há retração nos ingressos líquidos desses investimentos.

“A análise da evolução trimestral dos componentes do IDP brasileiro corrobora que, além do interesse estrangeiro por investimentos no País, fatores como a estratégia de financiamento das empresas multinacionais podem ser determinantes para explicar movimentos de curto prazo dessa variável”, concluiu a autoridade monetária.

O BC manteve em US$ 60 bilhões sua estimativa para o ingresso de investimentos estrangeiros diretos na economia brasileira neste ano. "As surpresas positivas nas entradas de empréstimos intercompanhia no início do ano compensam a perspectiva de recuperação mais lenta da conta de participação de capital. Pesam sobre esse último componente a persistência dos efeitos econômicos da pandemia e o câmbio menos valorizado, que reduz o valor em dólar dos lucros reinvestidos", informou o BC.

Com o bom desempenho da balança comercial esperado para este ano, a previsão do Banco Central é de que as contas externas terão um superávit de US$ 2 bilhões em 2021.

No ano passado, foi registrado um déficit de US$ 12,457 bilhões nas contas externas. Se confirmada a previsão para 2021, será o primeiro saldo positivo desde 2007 (US$ 408 milhões).

O resultado de transações correntes, um dos principais componentes do setor externo do País, é formado pela balança comercial (comércio de produtos entre o Brasil e outros países), pelos serviços (adquiridos por brasileiros no exterior) e pelas rendas (remessas de juros, lucros e dividendos do Brasil para o exterior).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.