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Com Bolsonaro, Copom parado

Em cenário otimista em relação a reformas, em 2019, aperto monetário pode ser menor

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2018 | 05h00

Após a onda conservadora do eleitorado brasileiro no primeiro turno das eleições, resultando na votação surpreendente de Jair Bolsonaro e nos políticos de seu partido ou que lhe declararam apoio publicamente, cresceu a aposta dos investidores de que, caso o candidato do PSL vença a eleição presidencial, o Banco Central não mais terá de elevar os juros em 2018.

Isso porque, com Bolsonaro presidente e uma composição do Congresso mais inclinada a lhe dar uma base sólida, aumentou a probabilidade de aprovação de reformas necessárias, como a da Previdência, já no seu primeiro ano de mandato.

Mais ainda: nesse cenário otimista em relação a reformas, cresce também a aposta de que, se a taxa Selic subir em 2019, talvez o ritmo e a magnitude do aperto monetário seja menor do que o esperado.

A alta de juros logo após o segundo turno da eleição presidencial, marcado para 28 de outubro, era dada como certa por uma parcela do mercado financeiro em razão de uma disparada do dólar na segunda metade de agosto, quando a candidatura de Fernando Haddad (PT) começou a crescer com força nas pesquisas de intenção de voto.

Essa possibilidade foi até sinalizada pelo BC na última reunião do Copom, quando utilizou a cotação do dólar a R$ 4,15 para suas projeções de inflação em 2018 e 2019, no chamado cenário de referência (com juros e câmbio constantes). Nesse cenário, a estimativa de inflação em 2018 subiu para 4,4%, quando a meta do BC é de 4,5%. A projeção para o IPCA (o índice oficial de inflação) em 2019 foi elevada para 4,5%, acima da meta de 4,25% para o ano que vem.

No cenário de mercado, que utiliza as projeções dos analistas consultados na pesquisa Focus, do BC, a estimativa de inflação em 2018 ficou em 4,1% levando em conta taxa Selic a 6,5% e dólar a R$ 3,83 no fim deste ano. Já para 2019, considerando como premissa juros básicos em 8,0% e um dólar a R$ 3,75, o cenário de mercado embute uma projeção de inflação de 4,0%, portanto ainda abaixo da meta oficial de 4,25% no ano que vem.

Ou seja, pelo cenário de referência (mantendo-se constantes juros a 6,50% e dólar a R$ 4,15), o BC teria de elevar a Selic para evitar uma inflação acima da meta em 2019.

Já os analistas projetavam um desfecho da eleição presidencial favorável ao mercado financeiro, que seria a vitória de um candidato reformista, daí o dólar voltaria a recuar bastante após o estresse verificado a partir da segunda quinzena de agosto quando Haddad começou a subir nas pesquisas eleitorais. Com a onda bolsonarista varrendo as urnas no primeiro turno, levando o PSL à segunda maior bancada na Câmara, o cenário de mercado na última ata do Copom começa a se assemelhar mais a realidade na fotografia de hoje.

E, com isso, o BC não mais precisaria elevar os juros, até porque, no patamar atual do dólar, a projeção do IPCA no cenário com juros e câmbio constantes cederia abaixo da meta de inflação em 2019. Em comparação com a cotação de R$ 4,15 desse cenário do BC, o dólar fechou na segunda-feira a R$ 3,7635, menor nível em dois meses.

Mas não é só o dólar a única variável que levaria o BC a não mais subir os juros com uma eventual vitória de Bolsonaro: as expectativas de inflação permaneceriam ancoradas e dentro da meta fixada pelo BC.

Havia o temor de que essas expectativas começariam a subir e pressionar o BC caso o vencedor da eleição presidencial fosse Haddad, considerado pelo mercado como menos propenso a levar adiante uma reforma da Previdência.

Mesmo com o estresse no dólar, essas projeções de inflação na pesquisa Focus para 2019 e 2020, por exemplo, seguiram bem comportadas. Já as estimativas de inflação de mercado – a chamada inflação implícita embutida nas taxas de títulos públicos – dispararam ao refletir de imediato o estresse do investidor.

Desde o resultado das urnas no primeiro turno, a inflação implícita vem cedendo com força e, por tabela, as apostas de que, com Bolsonaro no Palácio do Planalto, o Copom pode ficar parado por muito mais tempo do que se esperava.

* É COLUNISTA DO BROADCAST

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