Paul Faith|AFP
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'Com Brexit, Reino Unido terá que renegociar acordos de livre comércio', diz diretor da OMC

Roberto Azevêdo, diretor-geral da Organização Mundial de Comércio, explica que ao sair do bloco econômico o Reino Unido deixa automaticamente de pertencer à lista de compromissos firmada pela UE na OMC

Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2016 | 18h00

RIO - A possível saída do Reino Unido da União Europeia (EU), o Brexit, a ser definida em referendo no próximo dia 23, só traz uma certeza para o comércio global: a incerteza. A afirmação é do diretor-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, que explica que ao sair do bloco econômico o Reino Unido deixa automaticamente de pertencer à lista de compromissos firmada pela UE na OMC. O mesmo vale para os acordos de livre comércio, que terão que ser renegociados pelo país caso a caso.

"É um caso sem precedentes. Você terá pela primeira vez um membro da OMC que não tem uma lista de compromissos. Haverá a necessidade de negociar essa lista (com os países membros). Não tem saída. E o resultado de uma negociação você nunca sabe", alertou em palestra na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan).

Para Azevêdo, o Reino Unido estará em situação desvantajosa, por não ter uma equipe de negociadores e ter muito mais pressa em negociar que seus pares. "Mas o que vai acontecer... aí minha bola de cristal não é tão boa", disse. As listas de compromissos envolvem questões como tarifas e cotas. Questionado se a ausência de compromissos significará a paralisia do comércio do país, Azevêdo afirmou que "ninguém sabe como vai ficar".

Os acordos de livre comércio, que eliminam cobranças sobre operações de importação e exportação, também terão que ser renegociados caso a caso. "A relação do Reino Unido com esses países entra de novo no vácuo. Tem que negociar novos acordos", afirmou.

Azevêdo destacou que ainda há dois pilares a serem trabalhados na Rodada de Doha: os subsídios domésticos e os cortes tarifários. Ele admitiu, entretanto, que há poucos avanços.

"Vamos continuar negociando, mas estamos empacados. Uma grande maioria dos membros decidiu que não dá para ficar de braços cruzados esperando Doha para tratar de temas da vida real", disse.

Nesse sentido, Azevêdo mencionou outros temas que estão sendo (ou poderão ser) discutidos na OMC, em áreas como comércio eletrônico, melhoria de acesso ao comércio internacional para pequenas e médias empresas, barreiras não tarifárias e financiamento.

A representantes do setor privado, ele afirmou que a OMC nos últimos dois anos conseguiu vitórias, como o acordo de facilitação do comércio e "antes habituada ao fracasso, está começando a se habituar ao sucesso", brincou, lembrando que um dos objetivos da criação da organização a ser retomado é justamente acabar com as rodadas de negociação internacional.

Em rápida conversa com os jornalistas, o diretor-geral da OMC disse que a transição de governo no Brasil - e em qualquer outro país - não interfere em negociações em curso na organização. Também voltou a dizer que é preciso avançar em negociações bilaterais e multilaterais. "É preciso buscar oportunidades onde quer que elas apareçam. Negociar em várias frentes é o mais comum", disse. Azevêdo vem reforçando o discurso para por fim aos rumores de divergência entre sua visão e a do ministro das Relações Exteriores, José Serra.

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