Marcelo Camargo/ Agência Brasil
Gustavo Montezano recebeu como missão abrir a suposta caixa-preta do BNDES durante o governo de Jair Bolsonaro. Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Com câmbio diferente, presidente do BNDES contradiz banco e diz que auditoria custou R$ 42,6 milhões

O próprio banco havia informado que serviço para investigar suposta 'caixa-preta' havia custado R$ 48 milhões

Idiana Tomazelli e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 10h40

BRASÍLIA - O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, disse nesta quarta-feira, 29, que a auditoria externa contratada para avaliar oito operações com empresas do grupo J&F custou R$ 42,666 milhões.

O próprio BNDES havia informado ao Estado, via Lei de Acesso à Informação, que o custo total era de R$ 48 milhões. Montezano esclareceu, porém, que a diferença se deve ao fato de que os pagamentos em dólar passaram a ser convertidos ao câmbio do dia do repasse.

Segundo Montezano, o custo inicial total projetado em 2018, no momento da contratação da auditoria, era de R$ 23,4 milhões. “O Conselho de Administração e a diretoria concluíram (em novembro de 2017) que a investigação externa era primordial”, justificou o presidente do BNDES.

Segundo ele, em 2018 houve uma ampliação da quantidade de trabalho das investigações, com maior volume de dados, o que levou a uma primeira suplementação em novembro daquele ano, no valor de R$ 5,067 milhões.

Montezano disse ainda que, em 2 de julho de 2019, foi aprovado o aumento do escopo da auditoria para abarcar informações levantadas pela Operação Bullish e pelas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) instauradas no Congresso sobre o tema. Ele ressaltou a data dizendo que foi um dia antes de ele tomar posse oficialmente como presidente.

O aumento do escopo ampliou em R$ 11,9 milhões o valor do contrato. “Sem o aumento do escopo, relatório teria ressalva que praticamente o invalidaria”, disse.

Montezano disse que o único aditivo aprovado em sua gestão foi um adicional de R$ 2,3 milhões no contrato com a auditoria KPMG para que ela acompanhasse os trabalhos da investigação externa como uma espécie de revisor, no que é chamado no jargão do setor como “auditoria shadow”.

O presidente do BNDES ainda exibiu um vídeo de seu depoimento na CPI do BNDES em que ele, em agosto de 2019, informava que o valor da auditoria poderia se aproximar dos R$ 45 milhões.

Aditivo

O diretor jurídico do BNDES, Saulo Puttini, afirmou ainda que o aditivo de US$ 3,5 milhões aprovado em outubro de 2019 no contrato com o Cleary foi feito para ampliar o valor do contrato guarda-chuva para serviços jurídicos. “Os valores ficam em stand by para uso à medida que serviços jurídicos forem sendo demandados, para o banco não ficar descoberto na área internacional”, disse.

“O aditivo contratual em outubro de 2019 não diz respeito à investigação sobre a JBS, mas sim ao contrato guarda-chuva”, acrescentou o diretor.

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Auditoria de 'caixa-preta' mirou empréstimos de R$ 21,2 bi ao grupo J&F, diz presidente do BNDES

Gustavo Montezano se pronuncia pela primeira vez sobre o caso desde que o 'Estado' revelou que o banco pagou R$ 48 milhões em uma investigação para apurar eventuais irregularidades em operações de empréstimo

Idiana Tomazelli e Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 09h55

BRASÍLIA - O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, disse nesta quarta-feira, 29, que a auditoria externa contratada para investigar contratos do banco com as empresas do grupo J&F mirou oito operações que, em valores atualizados, somaram R$ 21,2 bilhões. “O valor é quase equivalente a todo o valor desembolsado pelo BNDES a grandes empresas em 2019”, afirmou Montezano.

Essa é a primeira vez que o presidente do BNDES se pronuncia desde a revelação em 20 de janeiro, pelo Estado, de que o banco pagou R$ 48 milhões em uma investigação externa para apurar eventuais irregularidades em operações com as empresas JBS, grupo Bertin e Eldorado Brasil Celulose, realizadas entre 2005 e 2018.

O valor foi pago a um escritório estrangeiro, o Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP, que subcontratou outro brasileiro, o Levy & Salomão.

Segundo Montezano, o objetivo da investigação era apurar evidências de violação de leis anticorrupção no Brasil ou nos Estados Unidos por integrantes do banco, como atos de corrupção ou suborno.

O presidente do BNDES informou que a contratação da apuração externa foi recomendada em setembro de 2017 pelo auditor independente do banco (KPMG), que aconselhou o BNDES a “se proteger” contratando a investigação. A própria KPMG acompanhou as apurações como uma espécie de “revisor”, para verificar o passo a passo do Cleary.

Montezano iniciou a entrevista dizendo que a transparência é “atributo fundamental” para qualquer instituição financeira. “A lei nos obriga, mas transparência também protege executivos e funcionários da instituição”, disse. “Credibilidade é atributo mais importante para uma empresa, daí nossa conversa”, acrescentou o presidente.

Ele explicou que, desde que o tema da auditoria surgiu, há nove dias, as equipes do banco se debruçaram sobre as informações em relação à investigação para prestar os devidos esclarecimentos. “Entendemos que todos os pontos questionados estarão endereçados hoje”, disse.

Montezano afirmou ainda que “compartilha da frustração e ansiedade” dos veículos de notícias sobre prazos para as respostas. Desde que o Estado revelou o valor da auditoria, o banco não havia se pronunciado.

Nesta terça-feira, 28, o presidente Jair Bolsonaro disse ver algum "coisa esquisita" no reajuste que levou o BNDES a pagar R$ 48 milhões a uma auditoria para abrir a "caixa-preta" do banco em operações com o grupo J&F, sem encontrar nenhuma irregularidade. Ao comentar o último aditivo, feito pelo atual presidente do banco, Gustavo Montezano, Bolsonaro disse parecer  "que alguém quis raspar o tacho", sem citar quem. "Expõe logo o negócio e resolve", ordenou o presidente ao chegar ao Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência, depois da volta dele da Índia.  

A abertura da "caixa-preta" foi uma das missões conferidas por  Bolsonaro a Montezano, que tomou posse em substituição a Joaquim Levy, primeiro nomeado pelo governo para comandar a instituição. Levy  se juntou a outros executivos que passaram pelo banco após o fim da gestão Dilma Rousseff e tiveram dificuldades para comprovar irregularidades na concessão dos financiamentos.

No governo Temer, Maria Silvia Bastos Marques evitou o assunto. Paulo Rabello de Castro e Dyogo Oliveira negaram sua existência. "Ou sou um completo idiota ou não existe 'caixa-preta' no BNDES", chegou a dizer Rabello.

Levy falou em "ter clareza sobre operações do passado", mas não chegou a avançar na busca por operações fraudulentas. A dificuldade foi apontada como um dos motivos para a insatisfação de Bolsonaro com sua gestão - o executivo pediu demissão após o presidente dizer em entrevista que estava "por aqui" com ele.

A "caixa-preta" foi um dos temas dominantes na campanha de Bolsonaro. Para muitos apoiadores do presidente, a sua abertura teria potencial para revelar malfeitos maiores do que os descobertos pela Operação Lava Jato na Petrobrás.

Logo após a vitória nas urnas, o presidente eleito se comprometeu a determinar, no início do mandato, "a abertura da 'caixa-preta' do BNDES e revelar ao povo brasileiro o que foi feito com seu dinheiro nos últimos anos".

“Em temas delicados, espinhosos, que passaram por várias gestões, temos de ter responsabilidade e acuracidade. Temos pontos a melhorar, queremos ser mais ágeis em prestar informações, mas sem abrir mão da acuracidade”, justificou.

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