EFE
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Com 'cochilo' da base, governo sofre derrota na votação da meta fiscal

Sessão para votar a nova meta fiscal se estendeu pela madrugada de ontem, e lideranças tiveram de ligar para quem já tinha ido embora

Idiana Tomazelli e Igor Gadelha, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2017 | 23h53

BRASÍLIA - Já passava da meia-noite de quinta-feira, 31, quando os primeiros parlamentares começaram a entregar os sinais de fadiga pelas mais de sete horas de sessão do Congresso para tentar votar o projeto que revê a meta fiscal de 2017 e 2018.

O pesar de olhos e os cochilos intermitentes acendiam um alerta de que era preciso apressar o passo, ou a equipe econômica estaria fadada a enviar um projeto “fictício” para a Lei Orçamentária Anual do ano que vem, ainda sob a meta inalcançável de déficit de R$ 129 bilhões.

Entre os “dorminhocos” estavam o deputado Esperidião Amim (PP-SC) e os senadores Pedro Chaves (PMDB-GO) e Garibaldi Alves (PMDB-RN), que se deixaram levar pelo sono e cochilaram sentados no plenário. Servidores do Congresso também aproveitaram os sofás do Salão Verde para dormir.

O dia havia começado cedo, ainda pela manhã, com a sessão da Câmara que votou a criação da nova taxa de juros de empréstimos do BNDES. Tão cedo que o restaurante do plenário começou a ter limitações no cardápio por falta de comida.

Já a oposição ficou atenta e se mostrou habilidosa para obstruir os trabalhos e conseguiu impor ao governo votações nominais em momentos já de dificuldade para garantir o quórum necessário de pelo menos metade dos parlamentares. O desfecho é conhecido: após quase 11 horas, a votação não foi concluída, sentenciando a área econômica ao “vexame” de enviar um Orçamento que é inexecutável.

A falta de quórum pôs em risco até mesmo a votação do texto-base. À 1h15, quando ficou claro que haveria verificação dos votos no Senado, lideranças do governo começaram a ligar para senadores que já haviam retornado para suas casas. Como resumiu um parlamentar da base, os “velhinhos” foram tomar sopa, chá e se recolheram.

Passados 30 minutos, conseguiram tirar da cama João Alberto (PMDB-MA) e Rose de Freitas (PMDB-ES). O resultado ficou no limite, reunindo o mínimo de 41 senadores presentes.

Com a aprovação do texto-base, o governo se sentiu seguro pela hora seguinte, período em que a oposição não poderia requerer nova votação nominal. As possíveis mudanças no texto por meio de cinco emendas seriam votadas uma a uma, mas de forma simbólica – mesmo que o plenário reunisse cada vez menos parlamentares.

Mas a base aliada acabou sendo traída pela própria autoconfiança. Enquanto alguns governistas literalmente cochilavam, a oposição recrudesceu e extrapolou o tempo de cada fala a que tinha direito. Uma hora passou a ser insuficiente para votar os cinco destaques. O “rolo compressor” havia enguiçado, nas palavras de um integrante da base.

Os líderes governistas fizeram os próprios cálculos e aplicaram uma manobra ousada. Anteciparam o pedido de verificação de quórum, às 2h45, na esperança de que “quanto mais cedo, mais fácil” para a convocação, desta vez dos deputados. Eram necessários 257.

Houve mais uma maratona de ligações, sem muito sucesso. Conseguiram arregimentar 219 deputados. Além desse número, quem ainda estava acordado se encontrava a quilômetros do plenário, mais exatamente na China, com o presidente Michel Temer em viagem oficial.

A base ainda insistiu em esperar. Foram quase 50 minutos, mas o quórum empacou nos 219. Sem saída, o presidente do Congresso Nacional, Eunício Oliveira (PMDB-CE), decidiu às 3h38 encerrar a sessão com dois destaques pendentes. Era a sentença para o envio pela equipe econômica de um Orçamento em bases irreais.

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