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Com coronavírus, Banco Central passa a prever PIB zero em 2020

Nova estimativa, que consta do relatório trimestral de inflação, divulgado nesta quinta-feira, 26, decorre dos impactos da pandemia do novo coronavírus, que tem interrompido a atividade econômica ao redor do mundo

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2020 | 08h36

BRASÍLIA - O Banco Central (BC) derrubou sua projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano de expansão de 2,2% para zero. Ou seja, a autoridade monetária passou a prever estabilidade para a economia brasileira em 2020, sem alta nem queda - um PIB zero. 

A nova estimativa, que consta do relatório trimestral de inflação, divulgado nesta quinta-feira, 26, decorre dos impactos da pandemia do novo coronavírus, que tem interrompido a atividade econômica ao redor do mundo.

Com a nova previsão, o BC ainda ficou acima de algumas instituições financeiras que já esperam retração econômica neste ano.  "A disseminação da covid-19 em âmbito global tem levado vários governos a restringir a circulação de pessoas e, mais recentemente, a impor lockdowns (bloqueios), como forma de retardar a disseminação do vírus e, dessa forma, reduzir a sobrecarga sobre os sistemas de saúde locais", registrou o BC em um boxe do RTI.

"Essas medidas, adotadas com o objetivo de conter a velocidade de propagação do vírus, trazem impactos no curto prazo sobre linhas de produção e oferta de produtos e serviços, além de implicarem recuos significativos na demanda por bens e serviços em determinados segmentos, elevando o desemprego e reduzindo a renda do trabalho", acrescentou a instituição.

As ações de isolamento para todos sem distinção são recomendações de autoridades sanitárias, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), como a única forma de evitar a disseminação da doença em estado de transmissão sustentada, ou seja, quando não se sabe a origem da contaminação.

Na semana passada, o Ministério da Economia estimou uma expansão de apenas 0,02% do PIB em 2020, ou seja, um cenário ainda de estabilidade, mas também informou que está sendo previsto cenário de recessão técnica em 2020 - que se caracteriza por dois trimestres seguidos de queda do PIB.

Em 2019, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB cresceu 1,1%. Foi o desempenho mais fraco em três anos, com o resultado afetado principalmente pela perda de ritmo do consumo das famílias e dos investimentos privados. Em 2017 e 2018 o crescimento foi de 1,3% em ambos os anos.

 

Juros básicos

O BC voltou a pregar cautela sobre as próximas decisões do nível da Selic, a taxa básica de juros. Quando a inflação está alta ou indica que ficará acima da meta, o Copom eleva a Selic. Dessa forma, os juros cobrados pelos bancos tendem a subir, encarecendo o crédito e freando o consumo, assim, reduzindo o dinheiro em circulação na economia. Com isso, a inflação tende a cair.

Na semana passada, o colegiado cortou a Selic em 0,50 ponto porcentual, de 4,25% para 3,75% ao ano. Foi a sexta redução consecutiva. No RTI, publicado nesta quinta-feira, a autarquia repetiu que, neste momento, vê como adequada a manutenção da taxa Selic em seu novo patamar.

“No entanto, o Comitê reconhece que se elevou a variância do seu balanço de riscos e novas informações sobre a conjuntura econômica serão essenciais para definir seus próximos passos”, reafirmou o Copom.

Além disso, o BC enfatizou novamente que continuará fazendo uso de todo o seu arsenal de medidas de políticas monetária, cambial e de estabilidade financeira no enfrentamento da crise atual. 

Crédito

A pandemia do novo coronavírus levou o Banco Central a promover fortes ajustes em suas projeções para o mercado de crédito em 2020. A instituição alterou, no Relatório Trimestral de Inflação (RTI), sua projeção para o saldo total de crédito este ano de alta de 8,1% para alta de 4,8%.  

Dentro do crédito total, a projeção do saldo de operações com pessoas físicas passou de alta de 12,2% para elevação de 7,8%. No caso das empresas, a expectativa foi de alta de 2,5% para alta de 0,6%.

Já a projeção para o saldo de crédito livre – aquele que não utiliza recursos da poupança ou do BNDES – passou de alta de 12,9% para elevação de 8,2%. Dentro do crédito livre, a projeção para o crédito às pessoas físicas foi de alta de 15,4% para alta de 10,0%. No caso das pessoas jurídicas, passou de elevação de 9,7% para avanço de 6,0%.  

A projeção do BC para o saldo de crédito direcionado, que utiliza recursos da poupança e do BNDES, passou de alta de 1,6% para zero. Dentro do crédito direcionado, a projeção do saldo para as pessoas físicas foi de alta de 8,1% para avanço de 5,0%. No caso das pessoas jurídicas, a projeção passou de retração de 8,6% para queda de 8,0%.   

Contas externas 

O BC baixou de US$ 57,7 bilhões para US$ 41 bilhões sua estimativa de déficit nas contas externas em 2020. "Os principais fatores que influenciaram as revisões repercutem os efeitos econômicos da pandemia de coronavírus (COVID-19), que deverão afetar significativamente o crescimento global, bem como a redução na projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2020, e as recentes mudanças no mercado internacional de petróleo", informou a instituição.

A conta de transações correntes é formada pela balança comercial (comércio de produtos entre o Brasil e outros países), pelos serviços (adquiridos por brasileiros no exterior) e pelas rendas (remessas de juros, lucros e dividendos do Brasil para o exterior). Trata-se de um dos principais indicadores do setor externo brasileiro.

De acordo com o Banco Central, o ingresso de investimentos estrangeiros diretos na economia brasileira também serão afetados. A nova estimativa é de que a entrada desses recursos some US$ 60 bilhões em 2020, contra a previsão anterior de um ingresso de US$ 80 bilhões.

O BC também revisou, para baixo, sua previsão para o saldo positivo (exportações menos importações) da balança comercial em 2020. Em dezembro, no relatório de inflação anterior, a previsão da instituição era de que o saldo comercial positivo somaria US$ 41 bilhões em 2020. No documento divulgado nesta quinta-feira, o valor estimado para o superávit da balança comercial recuou para US$ 33,5 bilhões neste ano (US$ 191 bilhões em exportações e US$ 157,5 bilhões em compras do exterior).

Em relação às vendas externas, explicou o BC, a forte queda nos preços das "commodities" (produtos básicos com cotação internacional, como petróleo e minério de ferro, entre outros) é o principal fator da revisão do saldo comercial em 2020, "acompanhada da redução nas exportações de produtos manufaturados (industrializados) devido ao ambiente externo mais desafiador".

O BC também previu redução no valor das importações, e explicou que as principais razões são a desvalorização do real frente ao dólar americano (alta da moeda norte-americana, que torna as compras do exterior mais caras) e o "menor crescimento da atividade doméstica". A lógica é que, ao crescer menos, a economia brasileira também demanda menos bens do exterior.

 

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