Tiago Queiroz/ ESTADÃO
Tiago Queiroz/ ESTADÃO

Com coronavírus, confiança do consumidor volta ao nível de janeiro de 2017

Para especialista da FGV, crise sem precedentes dificulta estimar extensão dos danos

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2020 | 17h48

RIO – A pandemia de coronavírus já abalou significativamente a confiança do consumidor brasileiro apenas nos primeiros dias de agravamento da disseminação da covid-19 no País. Por se tratar de um episódio sem precedentes, ainda não é possível estimar a profundidade das consequências que essa nova crise terá sobre o indicador de confiança nos próximos meses, disse Viviane Seda Bittencourt, coordenadora das Sondagens do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

“A gente não tem nenhuma comparação com o que está acontecendo agora, desde a criação do indicador, em 2005. Não sabemos o quanto ele pode cair ainda, nem qual patamar ele pode atingir”, disse Viviane.

A confiança do consumidor recuou 7,6 pontos em março ante fevereiro, na série com ajuste sazonal, para 80,2 pontos, o menor patamar desde janeiro de 2017. Apenas nos três primeiros meses de 2020, a confiança do consumidor já acumulou uma perda de 11,4 pontos. Na leitura de março, o recuo foi mais profundo, embora dois terços da coleta de dados para a pesquisa terem ocorrido antes das medidas de restrição à circulação de pessoas. Apenas um terço da coleta foi realizado depois que a disseminação do vírus eclodiu no País.

“O impacto sobre o mês de abril vai ser mais forte”, previu Viviane.

Em março, houve deterioração tanto nas avaliações sobre o presente quanto nas expectativas para os próximos meses. O Índice de Situação Atual (ISA) diminuiu 4,8 pontos, para 76,1 pontos. Já o Índice de Expectativas (IE) caiu 9,3 pontos, para 83,9 pontos, o menor patamar desde dezembro de 2016.

Entre as capitais do País, o Rio de Janeiro registrou a maior queda na confiança. Em São Paulo, os consumidores também já perceberam a piora da situação atual, possivelmente em função do maior número de casos e pela magnitude do parque fabril. Para a coordenadora do Ibre/FGV, o cenário para os próximos meses é preocupante, devido ao forte impacto econômico e social, com queda no Produto Interno Bruto e aumento do desemprego.

Entre os componentes do ICC, o item que mede as expectativas sobre a economia para os próximos meses foi o que mais contribuiu para a queda da confiança, com um tombo de 12,0 pontos, para 104,9 pontos. Com o cenário econômico mais difícil nos próximos meses, os consumidores também preveem redução da oferta de empregos e uma piora da situação financeira das famílias. O componente que mede as perspectivas sobre as finanças familiares piorou pelo terceiro mês consecutivo, com queda de 7,0 pontos, para 92,2 pontos. O ímpeto para consumo de bens duráveis diminuiu em 7,6 pontos em março, acumulando perda de 25,0 pontos em 2020.

Houve piora na confiança entre os consumidores de todas as classes de renda, puxada pelo aumento do pessimismo em relação à situação econômica nos próximos meses, exceto para as famílias de menor poder aquisitivo, que recebem até R$ 2.100 mensais e cuja queda de confiança foi influenciada pela redução na intenção de compras (-9,9 pontos).

“A queda na confiança ainda não foi tão forte na faixa de renda 1 (famílias com renda até R$ 2.100 mensais), porque essas pessoas se mantinham trabalhando, mesmo os que estavam na informalidade, porque eles precisavam continuar trabalhando para gerar renda. Então o isolamento ainda vai impactar a avaliação deles”, previu a coordenadora do Ibre/FGV.

A Sondagem do Consumidor coletou informações de 1.713 domicílios em sete capitais, com entrevistas entre os dias 2 e 19 de março.

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