Com corte de gastos, pressão vai para o BC

Ministro Mantega diz que meta fiscal permite política de juros 'menos severa'

João Villaverde e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2014 | 03h23

BRASÍLIA - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não pestanejou. Quando perguntado se a recém-anunciada meta fiscal "exequível", segundo suas palavras, poderia induzir o Banco Central (BC) a diminuir o ritmo de elevação da taxa básica de juros, Mantega foi direto: "A política fiscal que estamos fazendo permite, sim, que a política monetária seja menos severa".

A resposta do ministro tem endereço certo. Desde o ano passado, o mercado tem elevado as apostas de que o BC vai apertar mais os juros para compensar o aumento dos gastos públicos, que pressionam a inflação. Desde abril, o BC elevou a Selic da mínima histórica de 7,25% ao ano para o atual patamar de 10,5% ao ano. Nos últimos dias, o mercado vinha apostando que, se o "sinal fiscal" fosse forte, o BC poderia reduzir o ritmo de aumento de 0,5 ponto porcentual para 0,25 ponto porcentual a cada reunião.

A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) será na semana que vem. O BC pode começar a preparar o terreno para o fim do ciclo de aperto monetário, iniciado em abril do ano passado. A análise dos diretores do BC também deve levar em conta a queda na geração de vagas formais de trabalho em janeiro e a prévia da inflação oficial, que o IBGE divulga hoje.

De acordo com Mantega, a política fiscal mais dura vai "ajudar a ter uma inflação mais baixa". O ministro da Fazenda reforçou que "a inflação já está mais moderada, e por isso estamos trabalhando com uma inflação mais moderada em 2014 do que foi em 2013". Ontem, no decreto de programação orçamentária, o governo inseriu uma estimativa de 5,3% para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Se confirmada, será a menor taxa do governo Dilma.

Humor. No ano passado, o IPCA subiu 5,91%, frustrando o objetivo perseguido pelo BC ao longo de 2013 - que a inflação terminasse o ano com uma taxa inferior aos 5,84% de 2012. Diante da falta de credibilidade da política fiscal perante o mercado financeiro e os investidores internacionais, a decepção com o IPCA de 2013 poderia desencadear também uma sensação de mau humor com a política monetária.

Poucos dias depois da divulgação do IPCA, o BC surpreendeu a maior parte do mercado, ao manter o ritmo forte de aumento da Selic - em janeiro, o Copom elevou a taxa de juros a 10,5% ao ano. Técnicos do governo avaliam que a decisão do BC foi uma movimento importante, ao manter a sensação de "vigilância". A ação, no entanto, jogou mais pressão sobre a Junta Orçamentária para anunciar uma meta fiscal "crível".

Dívida. Mantega também destacou que, mesmo com um resultado primário mais baixo que nos últimos anos, a dívida vem caindo em proporção do PIB. "Com o que fizemos nos últimos anos, temos reduzido a dívida líquida e bruta", disse. "Mesmo tendo feito um primário um pouco menor do que estávamos habituados a fazer." Ele lembrou que a presidente Dilma assumiu, no Fórum Econômico Mundial de Davos, um compromisso pela redução da dívida.  (Colaboraram Ricardo Della Coletta e Laís Alegretti)

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