Com corte do IPI, indústria repete 2008

Fabricantes de eletrodomésticos e veículos já trabalham num ritmo igual ou até maior que o registrado antes da crise

Raquel Landim, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

A produção de eletrodomésticos da linha branca e de veículos em junho está acima do nível anterior à crise, impulsionada pela redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O alívio tributário antecipou o ajuste de estoques e a retomada da produção. Com o benefício garantido por mais três meses, essas empresas podem compensar as dificuldades do início do ano e já apostam que devem repetir em 2009 o desempenho de 2008, apesar da turbulência global.Na Whirlpool, que fabrica os refrigeradores Brastemp e Cônsul, a produção de maio superou em 20% a do mesmo mês de 2008. Em junho, a alta deve ficar entre 15% e 18%. "É um número extraordinário. O IPI evitou um desastre no setor", disse Armando Ennes do Valle, diretor de Relações Institucionais da empresa. Para atender à demanda adicional, a Whirlpool contratou 400 trabalhadores temporários em maio.O resultado é uma reversão significativa em relação às vendas fracas dos primeiros meses do ano, que elevaram os estoques da empresa em 10% e provocaram corte de 15% na produção. Valle acredita que as vendas devem se manter aquecidas nos próximos meses, um pouco abaixo do nível atual, que atendeu à demanda reprimida da população, mas acima do ano passado. A meta da Whirlpool é aumentar em 4% as vendas de 2009 em relação a 2008.De acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Eletroeletrônicos (Eletros), a multinacional está longe de ser um caso isolado. As vendas do setor cresceram 20% em maio, em relação a maio de 2008, e os primeiros sinais de junho são positivos, informa Lourival Kiçula, presidente da entidade. Segundo o executivo, o setor terminou 2008 com estoques 30% acima do nível ideal, mas o ajuste ocorreu rapidamente, por conta do incentivo fiscal.Na Latina, fabricante de tanquinhos semiautomáticos , purificadores de água e ventiladores de teto instalada em São Carlos (SP), os estoques estão abaixo do desejado e a fábrica opera a plena carga, conta o vice-presidente, José Paulo Aleixo Conti. No auge da crise, a empresa chegou a estocar 70% da produção de um mês e teve que alugar armazéns. A saída foi cortar a produção e o quadro de funcionários em 30%.Para os fabricantes de eletrodomésticos que não foram beneficiados pelo IPI, o cenário não é tão positivo. Domingos Dragone, diretor comercial da Black & Decker, fabricante de ferros elétricos, afirma que o nível de estoques só deve se regularizar este mês, "se tudo se mantiver dentro dos planos". Os estoques da empresa estavam 30% acima do normal no começo do ano.Dragone explica que, quando a crise chegou, as compras de matérias-primas demoraram para ser interrompidas, sobretudo as importadas. Cerca de 30% das peças utilizadas pela empresa vêm da Ásia. "Esse estoque também ficou mais caro de carregar porque o dólar estourou e foi a R$ 2,30", lembra.No setor automotivo, a isenção de IPI e a oferta de crédito dos bancos públicos garantiram vendas fortes e estoques baixos. As vendas de automóveis em junho devem superar o recorde da história do setor. Mas a produção ainda não retomou os níveis de antes da crise, por causa da expressiva queda das exportações e das fracas vendas de caminhões.A produção de veículos em maio subiu 6,7% ante abril, mas caiu 14,2% no acumulado do ano, em relação ao período de janeiro a maio de 2008. As exportações recuaram 46,2% nos primeiros cinco meses de 2009. A produção de caminhões cedeu 32,4%.Segundo Jackson Schneider, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a produção do setor deve fechar o primeiro semestre 14% abaixo da do mesmo período de 2008. "O crédito está retornando e o consumidor ficou mais confiante, mas o desempenho do segundo semestre também vai depender das exportações."Na fabricante de autopeças Delphi, a produção já atingiu o mesmo nível de 2008, informou o diretor comercial da Divisão de Eletrônicos, Valdir de Souza. A participação das exportações e das peças para caminhões é pequena no faturamento da empresa. Por causa da crise, a Delphi chegou a cortar a produção em 30% no fim do ano passado e acumulou estoques 70% acima do normal. "Se não ocorrer mais nenhum imprevisto, o Brasil vai manter o mesmo nível de 2008 no setor automotivo, o que é ótimo em meio a uma crise", disse Souza.Em novembro de 2008, os estoques das montadoras chegaram a 56 dias de vendas. Em dezembro, estavam nos pátios cerca de 300 mil veículos, três vezes mais que os usuais 100 mil. A Fiat chegou a alugar um aeroporto para colocar seus carros. Mas o excesso foi eliminado rapidamente após a redução do IPI na segunda metade de dezembro. Em maio, os estoques eram suficientes para apenas 26 dias de vendas e estavam abaixo da média de 30 a 35 dias.Schneider garante que os estoques atuais estão adequados à demanda. A sondagem industrial da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que os níveis de estoques considerados excessivos pelas empresas no setor de material de transporte (o maior peso é da indústria automotiva) estava em apenas 3,3% em maio, ante 11,1% em abril. Em dezembro de 2008, esse indicador chegou a 39,3%.O diretor de Relações Institucionais da Ford, Rogelio Golfarb, acredita que o ritmo de produção deve se manter ou até aumentar com a ajuda da prorrogação do IPI. O governo antecipou na sexta-feira a decisão de manter o benefício por mais três meses. Ele disse que ainda é difícil estimar o tamanho do mercado sem o alívio tributário. "A crise não passou totalmente porque as empresas não voltaram a investir".

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