Com cortes de verbas, relíquias correm perigo

Governo grego fecha museus e aposenta precocemente arqueólogos, abandonando locais de pesquisa histórica

RANDY KENNEDY, THE NEW YORK TIMES, KYTHIRA, GRÉCIA, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h08

Um chocante vídeo institucional destinado a sensibilizar o público, veiculado recentemente durante o telejornal pela emissora estatal grega, mostra uma garotinha numa visita com a mãe no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, uma das joias da coroa da cultura do país. A certa altura, a menina foge da mãe e, mais tarde, ao se deter sozinha em frente a uma estátua de mármore de 2.500 anos, de repente surge de trás dela uma mão que tapa a sua boca e leva a criança embora.

Instantes mais tarde, ela reaparece, o que tudo indica ilesa, mas olhando com uma expressão de tristeza o pedestal vazio: Os sequestradores não queriam a garota - queriam a estátua.

O vídeo, produzido pela Associação de Arqueólogos Gregos, quer chamar a atenção para o roubo de dezenas de artefatos de um museu em Olímpia, ocorrido em fevereiro, numa das persistentes falhas da segurança dos museus do país.

Mas a mensagem fundamental da campanha - "Monumentos não têm voz. Eles precisam da sua" - é um ataque muito maior aos cortes da verba destinada à cultura em razão das medidas de austeridade impostas ao país establishment econômico europeu, medidas que levaram a uma crise eleitoral, à instalação de um governo interino e ao fantasma da saída da Grécia da zona do euro.

O público já sente os efeitos dos cortes dos recursos destinados à cultura, porque algumas galerias em museus, e às vezes até mesmo museus inteiros são fechados esporadicamente. Mas os arqueólogos e curadores gregos e internacionais alertam que as consequências reais dos cortes só se tornarão plenamente evidentes dentro de alguns anos e serão muito mais trágicas para os artefatos antigos e para os estudos históricos.

Nos últimos seis meses, dezenas de arqueólogos, entre os mais experientes ligados ao Estado - com um maior número de anos de serviço e salários mais altos: 1,5 mil mensais, ou pouco menos de US$ 2 mil - foram obrigados a aceitar a aposentadoria compulsória no programa de redução de 10% da equipe do Ministério da Cultura e Turismo do país. Nos últimos dois anos, com as aposentadorias normais e compulsórias, a equipe de arqueólogos encolheu ainda mais, de 1.100 para 900, segundo a associação que representa os especialistas.

Desaparecimento. Neste momento em que os impostos aumentam, as aposentadorias sofrem cortes e o desemprego ultrapassa os 21%, esse êxodo deixou de chamar a atenção. Mas, segundo os estudiosos, os cortes começam a provocar o que o vídeo apresentado na televisão dramatiza: o desaparecimento de antiguidades. Os culpados imediatos não são os ladrões dos museus e os saqueadores de sítios arqueológicos, mas duas forças ainda mais traiçoeiras que agora podem agir com maior liberdade: as intempéries e os tratores das incorporadoras.

Certa manhã, no fim de abril, no leito seco de um rio na ilha de Kythira, o arqueólogo Aris Tsaravopoulos, que foi demitido pelo governo em novembro, mostrou um sítio onde uma parte da margem do rio desmoronara durante uma tempestade, meses antes. Espalhados por todo o leito que vai desembocar no Mar Mediterrâneo, estavam centenas de artefatos de cerâmica minoica, a maioria deles provavelmente do segundo milênio a.C., alguns decorados com desenhos florais de um vermelho ainda vivo.

Tsaravopoulos, que era encarregado da direção de projetos arqueológicos e da supervisão de escavações feitas por estrangeiros na ilha, há mais de 15 anos, disse acreditar que o sítio faça parte de uma tumba ou de um antigo depósito de lixo. (Amplas escavações realizadas em meados da década de 60 por arqueólogos britânicos, contribuíram para determinar que a ilha foi uma antiga colônia de Creta no período minoico).

O desmoronamento da margem do rio já fez com que parte dos artefatos fosse carregada para o mar. Enquanto enchia os bolsos do seu colete caqui com peças maiores de cerâmica para datar e colocar em um depósito, Tsaravopoulos observou: "A próxima chuva levará muitas outras mais, e logo tudo desaparecerá".

Em outros anos, Tsaravopoulos teria providenciado a construção de uma barragem de emergência neste local. Agora, lamentou, não pode fazer nada, senão alertar os colegas já sobrecarregados de trabalho que continuam no serviço arqueológico do Estado, com pouca esperança de que seja tomada a tempo uma providência: Desde que ele foi obrigado a se aposentar, no fim do ano passado, Kythira, uma ilha escassamente povoada pouco maior do que Malta, a seis horas de distância a sudoeste de Atenas de balsa, não foi visitada por arqueólogos do governo.

Sítios inexplorados. Evidentemente, muito antes da crise econômica, os sítios arqueológicos já tinham sido destruídos ou sua manutenção deixava muito a desejar, em parte em consequência da imensidão da tarefa de preservação do passado do país. Somente em Kythira, calcula-se que existam dezenas de sítios inexplorados como este. (A Grécia tem 19 mil sítios e monumentos arqueológicos declarados e 210 museus.)

"Acredito que o ministério poderia dobrar ou mesmo triplicar o número de arqueólogos - e o número de guardas - e mesmo assim não disporia de pessoal suficiente", disse Pavlos Geroulanos, ministro da Cultura e Turismo grego até que, depois das eleições de 6 de maio, foi formado um governo interino. Geroulanos supervisiona as demissões e as aposentadorias compulsórias enquanto sua verba anual encolhia 30% nos últimos três anos. "Há tanto material aí fora, e tanto trabalho a fazer!", afirmou.

Mas, agora, a burocracia míope e ineficiente da Grécia, há muito a maior da Europa, sofre um aperto dos recursos tão grande que começa a abrir mão da responsabilidade para com o patrimônio cultural, que detém há mais de 150 anos.

Em Messênia, na península do Peloponeso, foram suspensas as escavações de um templo do quinto ou sexto séculos a.C., no topo de uma montanha, descoberto em 2010, não muito distante do famoso Templo de Apolo Epicuro, sítio declarado Patrimônio Mundial pela Unesco. Xeni Arapogianni, a arqueóloga que supervisionava a região e dirigiu o início da escavação do templo que acabara de ser descoberto, foi obrigada a se aposentar prematuramente no fim do ano passado, antes de completar a pesquisa que pretende publicar sobre os achados. "Aqui há ainda muito trabalho a fazer, mas ninguém para fazê-lo", disse Xeni numa entrevista. "Um departamento não pode funcionar sem um diretor."

E acrescentou que o templo não é importante apenas por ser mais um sítio que algum dia poderá constar de um mapa turístico, mas porque a história dos cultos nos templos do século 5 nesta região é um campo de pesquisa que se inicia agora, e poderia fornecer dados cruciais. "Não é só mais um templo", afirmou.

Para muitos arqueólogos gregos e seus colegas de universidades em outros países que escavam com a permissão do governo grego, uma consequência ainda mais preocupante da austeridade é o fato de que as licenças para as pesquisas dos arqueólogos a serviço do governo estão sendo canceladas, e já não estão sendo concedidas as verbas das escavações as pesquisas, a não ser que eles encontrem outras fontes para dividir os custos.

Além disso, os arqueólogos gregos estão sendo obrigados a concentrar-se quase exclusivamente no aspecto mais burocrático do seu trabalho: a inspeção dos locais construídos porque embaixo da terra ainda existem antiguidades. É um trabalho crucial, mas, mesmo com a desaceleração do desenvolvimento durante a crise, consome quase todo o seu tempo. Isso significa que a ajuda financeira foi suspensa por um prazo indefinido, e em alguns casos é provável que a suspensão seja permanente.

Apesar de ser relativamente mal remunerada, a profissão do arqueólogo sempre foi bastante respeitada na Grécia; é aspiração dos jovens, assim como a medicina, por exemplo. E em um país em que o setor público é vítima há décadas da corrupção, os arqueólogos mantiveram sua reputação de profissionais em geral honrados e de trabalhadores incansáveis.

"O pessoal costumava dizer que somos uma raça especial", observou Alexandra Christopoulou, vice-diretora do Museu Arqueológico Nacional. "Fazíamos horas extras sem receber por isto - uma raridade na Grécia - porque realmente amávamos o nosso trabalho."

O serviço arqueológico praticamente parou de contratar, e as centenas de jovens arqueólogos que trabalham com contratos a tempo parcial constatam que a renovação dos contratos é cada vez mais difícil.

Gely Fragou, arqueóloga grega de 31 anos formada na Universidade de Southampton, na Inglaterra, trabalhou vários anos para o governo com contratos por tempo limitado: o último expirou em 2010. Ela continua esperando um emprego, mas disse que vários amigos estão aceitando trabalhos como diaristas para pagar as contas.

Um deles trabalha numa padaria, outro numa linha de montagem e um terceiro coleta lixo em Atenas. "Não fosse pela minha família", ela observou, "teria ido embora do país". /TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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