Andre Dusek/Estadão
Sede do Banco Central, em Brasília (DF). Andre Dusek/Estadão

Com crise econômica e política, mercado financeiro projeta rombo fiscal recorde este ano

A estimativa para o déficit primário do setor público passou de 5% para 6,2% do PIB; no pior resultado já registrado, em 2016, rombo foi de 2,48%

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2020 | 10h33

BRASÍLIA - O aumento dos gastos do governo durante a pandemia do novo coronavírus, somado à crise política, levou o mercado financeiro a projetar um rombo primário recorde para o Brasil em 2020. Dados divulgados nesta segunda-feira, 27, pelo Banco Central (BC) mostram que a expectativa de déficit primário do setor público para o ano saltou de 5% para 6,20% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse é o maior porcentual da série histórica do BC, iniciada em dezembro de 2001.

No pior resultado registrado até hoje, em 2016, o setor público consolidado registrou déficit primário equivalente a 2,48% do PIB. Na época, o rombo ainda era consequência do descontrole fiscal verificado nos anos do governo da presidente Dilma Rousseff.

A expectativa de déficit primário recorde para 2020 é consequência direta da crise provocada pela pandemia de covid-19. Desde março, o governo tem anunciado uma série de medidas econômicas para evitar o fechamento de empresas e o aumento descontrolado do desemprego. As ações representam um aumento de despesas para o governo, com impacto direto sobre o resultado primário.

Outro fator que contribui para o rombo maior é a crise política, que se intensificou na semana passada, após a saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça. Nas últimas semanas, os economistas do mercado financeiro vêm revisando sistematicamente suas projeções para o PIB brasileiro, em meio às dúvidas sobre a sustentabilidade do governo de Jair Bolsonaro.

Atualmente, a projeção mediana do mercado para o PIB em 2020 é de retração de 3,34%, mas já há pelo menos uma instituição financeira que espera por um recuo de 6%.  

O resultado primário reflete o saldo entre receitas e despesas do setor público, antes mesmo do pagamento dos juros da dívida pública. Os avanços nas projeções refletem a expectativa de que, com o aumento das despesas do governo durante a pandemia do novo coronavírus e o recuo do PIB, o País terá um cenário fiscal muito difícil em 2020.

Os dados do Relatório de Mercado Focus, divulgados nesta segunda pelo BC, mostram ainda que o resultado nominal do setor público apresentará um rombo de 11,10% do PIB em 2020. Se confirmado, será o pior desempenho da série histórica do BC, iniciada em 2002. O resultado nominal reflete o saldo entre receitas e despesas já após o pagamento dos juros da dívida pública.

Risco de insolvência

O avanço do déficit primário do setor público é uma preocupação para o governo e para os economistas do setor privado. Isso porque, para cobrir o rombo, o governo é obrigado a se endividar ainda mais, emitindo títulos públicos. O resultado é de alta na relação entre a dívida e o PIB.

Os números do BC mostram que, no fim de fevereiro, a Dívida Bruta do Governo Geral estava em 76,5% do PIB. Com a crise provocada pelo novo coronavírus - que eleva o rombo fiscal e reduz o PIB - a expectativa entre os economistas do mercado financeiro é de que este porcentual supere os 80% nos próximos meses.

O cálculo sobre até onde vai a dívida, no entanto, é incerto. Isso porque o próprio governo não tem, neste momento, segurança sobre até quando as medidas de isolamento social vão continuar, com impactos negativos sobre a economia.

A Dívida Bruta do Governo Geral - que abrange o governo federal, os governos estaduais e municipais, excluindo o Banco Central e as empresas estatais - é uma das principais referências para avaliação, por parte das agências globais de classificação de risco, da capacidade de solvência do País. Na prática, quanto maior a dívida, maior o risco de calote por parte do Brasil.

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Mercado financeiro prevê queda de 3,34% no PIB em 2020

Projeção ainda está abaixo da divulgada pelo Banco Mundial, que estima tombo de 5%, e pelo Fundo Monetário Internacional, que prevê recuo de 5,3%

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2020 | 09h13

BRASÍLIA - Os economistas do mercado financeiro baixaram novamente a previsão para o Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e, também, sua estimativa para a inflação.

As projeções fazem parte do boletim de mercado, conhecido como relatório Focus, divulgado nesta segunda-feira, 27, pelo Banco Central (BC). Os dados foram levantados na semana passada em pesquisa com mais de 100 instituições financeiras.

Para o PIB de 2020, a expectativa de redução passou de 2,96% para 3,34%. Essa foi a décima primeira semana seguida de revisão para baixo do indicador.

Apesar da nova queda, a previsão do mercado para a contração do PIB brasileiro em 2020 ainda está abaixo da divulgada pelo Banco Mundial, que estima um tombo de 5%, e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que prevê queda de 5,3%.

A nova redução da expectativa para o nível de atividade foi feita em meio à pandemia do novo coronavírus, que tem derrubado a economia mundial e colocado o mundo no caminho de uma recessão.

Nos últimos meses, tanto o Ministério da Economia quanto o Banco Central revisaram suas estimativas e passaram a prever estabilidade (sem alta, mas também sem contração) do PIB neste ano.

Para o próximo ano, a previsão do mercado financeiro para o crescimento do PIB recuou de 3,10% para 3%.

Inflação

Segundo o relatório divulgado pelo BC, os analistas do mercado financeiro reduziram a estimativa de inflação para 2020 de 2,23% para 2,20%. Foi a sétima redução seguida do indicador. A expectativa segue abaixo da meta central, de 4% e, também, do piso do sistema de metas - que é de 2,5% neste ano.

Pela regra vigente, o IPCA pode oscilar entre 2,5% e 5,5% sem que a meta seja formalmente descumprida. Quando a meta não é cumprida, o BC tem de escrever uma carta pública explicando as razões.

A meta de inflação é fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Para alcançá-la, o Banco Central eleva ou reduz a taxa básica de juros da economia (Selic).

Para 2021, o mercado financeiro manteve em 3,40% sua previsão de inflação. No ano que vem, a meta central de inflação é de 3,75% e será oficialmente cumprida se o índice oscilar de 2,25% a 5,25%.

Selic

O mercado continuou prevendo redução da taxa Selic nos próximos meses, que atualmente está em 3,75% ao ano. Os analistas permaneceram estimando um recuo para 3,25% ao ano no começo de maio, e um novo corte em meados de junho - para 3% ao ano (novo piso histórico, se confirmado) - patamar no qual fecharia 2020. 

Para o fim de 2021, a expectativa do mercado caiu de 4,50% para 4,25% ao ano. Isso quer dizer que os analistas seguem estimando alta dos juros no ano que vem, embora em menor intensidade.

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