Com crise nos EUA, parar e almoçar é luxo no mercado brasileiro

A elogiada melhora dos fundamentosbrasileiros parece ter pouca importância no momento em quetodos os olhos estão voltados aos tropeços da economianorte-americana. Agentes do mercado financeiro, tensos pornatureza, têm agora mais motivos para permanecer grudados nosindicadores externos. "O mercado está operando com um ambiente de risco elevado",resumiu Roberto Padovani, economista-chefe do Banco WestLB doBrasil, sobre o fantasma de uma recessão nos Estados Unidos. Um exemplo da sensibilidade dos negócios ao ambienteexterno foi dado nesta quarta-feira pelo mercado de câmbio, emque as operações só começaram a engrenar meia hora além donormal. Segundo operadores, os clientes esperavam algum sinalsobre o mercado norte-americano que pudesse dar rumo àsoperações. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) tem vivido diasmais voláteis mas, graças a pesos pesados como as ações daPetrobras, consegue se descolar de Wall Street em algunspregões. Está mais difícil fazer negócios? "Muito mais! Como vocêvai operar num mercado que pode estourar a qualquer minuto?",afirmou Júlio César Vogeler, operador de câmbio da corretoraDidier Levy. Os perigos para a maior economia do mundo vêm de várioslados. A crise imobiliária --acentuada em meados de 2007--freia o consumo e afeta os lucros das empresas; a desconfiançaentre os bancos aperta o crédito e seca a fonte deinvestimentos; a alta global do petróleo e dos alimentospressiona a inflação e diminui o espaço para um alíviomonetário mais contundente. DE OLHO NOS DETALHES Nesse ambiente, cada indicador, discurso ou balançocorporativo pode levar o mercado da euforia ao profundopessimismo. "Num momento de crise, os operadores dos bancos ficam mais'duros' na linha, e a chance de um erro operacional aumenta",afirmou o operador de uma corretora de grande porte e compresença internacional que pediu para não ser identificado. Mas a volatilidade, apesar de incomodar alguns, também podeser uma ótima oportunidade. "É mais gostoso, porque você fica no fio da navalha. Quem éoperador sabe que, sem o risco, fica até meio sem graça",brincou Vanderlei Arruda, gerente de câmbio da Corretora SouzaBarros. "Você pode ganhar muito ou perder muito." Para isso nem é preciso mudar bruscamente a rotina. Osegredo, segundo o gerente, é acompanhar Wall Street de perto. "Estão todos (câmbio, bolsa e juros futuros) mais afinadoscom as informações externas para que a gente não sofra umainversão repentina e possa ter condições de ganhar muito numasituação", disse. "Em cada uma das mesas tem um operador que ficaespecificamente com os dados daquele mercado. E a gente tem onoticiário econômico direto na TV, em inglês", acrescentou. Apesar da chance de ganhos, Arruda concorda que obombardeio de informações e o nervosismo tornam o trabalho maispuxado. "Eu voltei de férias na segunda-feira e estou tentandoalmoçar até agora."

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