Gabriela Biló/Estadão - 20/8/2020
Parlamento deve deixar de lado os debates da pauta econômica: matérias não devem avançar com crise. Gabriela Biló/Estadão - 20/8/2020

Com crise política, Congresso deve segurar reformas e priorizar Orçamento

Percepção é a de que atos de teor antidemocrático do 7 de Setembro devem escantear de vez a agenda econômica de Paulo Guedes; proposta orçamentária tem buraco de cerca de R$ 70 bilhões para abrigar um novo Bolsa Família e outras promessas

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - O agravamento da crise política e institucional, após as manifestações de teor antidemocrático no 7 de Setembro, deve escantear de vez a agenda econômica do ministro Paulo Guedes da pauta do Congresso Nacional. Os parlamentares vão centrar esforços na aprovação do Orçamento de 2022, que precisa ser votado para não comprometer a execução de despesas no ano que vem, mas a tarefa não será fácil. Economistas do mercado estimam que a proposta enviada pela equipe econômica tem um “buraco” de cerca de R$ 70 bilhões.

O valor descoberto inclui a ampliação do Bolsa Família, ainda sem espaço certo no Orçamento, a fatura adicional provocada pela repercussão da inflação maior sobre benefícios pagos pelo governo e negociações políticas, como a renovação da política de desoneração da folha para empresas e maior volume de emendas parlamentares. A dúvida agora é quanto o Congresso vai abrir de espaço para novos gastos em ano eleitoral, o que provoca volatilidade adicional no mercado financeiro.

Segundo parlamentares, o governo dificilmente terá condições de conseguir aprovar na Câmara e no Senado propostas antes consideradas prioritárias pela equipe econômica, como o projeto que muda o Imposto de Renda e as reformas administrativa e tributária.

Os ataques disparados pelo presidente Jair Bolsonaro, que defendeu inclusive o descumprimento de decisões do STF, empurraram partidos como MDB, Solidariedade, Cidadania, PSDB e PSD para uma postura mais refratária aos projetos do governo. Várias dessas legendas passaram a discutir o impeachment de Bolsonaro, e o PSDB anunciou que a partir de agora será oposição ao governo.

Sem essas siglas, será bem mais difícil o governo formar maioria para aprovar os projetos, e mais ainda para passar as Propostas de Emenda à Constituição, que precisam de quórum de 3/5 para aprovação em dois turnos de votação. São PECs a reforma administrativa e a proposta para mudar o pagamento de precatórios. Mesmo sem parcelamento, uma PEC para resolver o "meteoro" de R$ 89,1 bilhões em dívidas judiciais voltou como alternativa depois de Bolsonaro queimar a “ponte” para uma solução via Judiciário.

O vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL-AM), afirma que o presidente da Casa, Arthur Lira (Progressistas-AL), “perde cartuchos” para aprovar as pautas de interesse do governo. “Diante de tantas trapalhadas e tanto descumprimento de compromissos por parte do governo, o presidente Lira, que até aqui tem usado todo o seu prestígio, vai perdendo os seus cartuchos para garantir sozinho as votações, que até hoje são total e exclusivamente fruto da liderança dele”, diz. Para ele, o ano legislativo morreu para o governo após os atos do último feriado.

Com o novo cenário depois das manifestações, o vice-presidente da Câmara avalia se apresenta ou não uma PEC para retirar as despesas com precatórios do teto de gastos, a regra que limita o crescimento das despesas à inflação. O texto da proposta está praticamente pronto e daria uma folga de R$ 20 bilhões ao governo, o que viabilizaria a implementação do Auxílio Brasil com um benefício médio de R$ 300, como quer Bolsonaro. A animosidade das manifestações do presidente da República, porém, tem deixado lideranças do Congresso reticentes em adotar uma medida para ajudá-lo, embora a revisão da política social seja considerada meritória.

O tamanho do Bolsa Família é hoje o fator de maior incerteza para os agentes do mercado, que nesta quarta-feira, 8, reagiu negativamente à escalada da crise com o STF. A Bolsa brasileira (B3) fechou em forte queda de 3,78%, aos 113.412,84 pontos, no menor nível desde março. Já o dólar registrou ganho de 2,89%, encerrando na máxima do dia, a R$ 5,3261 - maior valor desde 23 de agosto.

Agenda econômica

O líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas-PR), minimiza o impacto do acirramento de tensões sobre a agenda econômica. Segundo ele, as pautas devem continuar sendo votadas normalmente. Mas Barros reconhece que o clima pode continuar ruim. Crítico do STF, ele diz ao Estadão/Broadcast que, com as manifestações, o “recado está dado” ao Supremo e, sem mudanças na postura da Corte, “vamos continuar com a corda esticando”. “Acho que vai continuar como está. O ambiente não é bom”, afirma.

Um termômetro do apoio ao governo poderá ser observado durante audiência na Câmara para debater a PEC dos precatórios, marcada para esta quinta-feira, 9, e que terá a presença de integrantes do Ministério da Economia.

No Senado, onde o governo já vem acumulando derrotas expressivas, lideranças aliadas do Palácio do Planalto fizeram um apelo ao presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), para que projetos da agenda econômica sejam pautados, como a reforma do Imposto de Renda e a privatização dos Correios. Não houve, porém, compromisso definitivo com avanços.

O presidente do MDB, deputado Baleia Rossi (SP), diz que “não há uma agenda certa” para o pós-manifestações. “Acho que há clima para aprovar o Refis (parcelamento de débitos tributários), e dificilmente passa o projeto do Imposto de Renda no Senado, pois o projeto é muito ruim”, diz. Segundo ele, uma solução para os precatórios que implique num calote é improvável.  “Já o Orçamento acho que o próprio Congresso tem interesse, senão não executa no início de 2022”, avalia.

Mercado

Há uma percepção no próprio mercado que é melhor focar no Orçamento do que seguir aprovando projetos considerados ruins, como a reforma do Imposto de Renda. Ainda assim, segundo apurou o Estadão, o nervosismo do mercado é maior porque, mesmo com uma solução para os precatórios, o Orçamento continuará muito apertado para tantas demandas eleitorais. Só a alta recente da inflação deve elevar o custo com benefícios sociais em R$ 17 bilhões, devido ao maior reajuste que terá de ser dado. Além disso, não foram previstos recursos para as chamadas emendas de relator, pelas quais os parlamentares enviam recursos adicionais às suas bases eleitorais e que têm crescido nos últimos anos. O mercado teme a repetição do filme de 2021, em que houve maquiagem de despesas obrigatórias para acomodar interesses políticos.

Depois do duro pronunciamento do presidente do STF, Luiz Fux, em resposta a Bolsonaro, o mercado também passou a ver risco de a Corte prejudicar o processo de privatização da Eletrobras. Partidos de oposição ao governo ingressaram com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) para tentar derrubar a lei que autoriza a operação.

A economista e colunista do Estadão, Ana Carla Abrão, alerta para o risco de o Congresso aprovar reformas com mais retrocessos e esvaziamento, como a administrativa, cujo parecer foi apresentado na semana passada. “Essa boiada está passando”, diz ela, que considera que o relator, deputado Arthur Maia (DEM-BA), cedeu às pressões das corporações de servidores e esvaziou o texto.

Conheça a agenda econômica do governo no Legislativo:

  • PEC dos precatórios:

O governo precisa de solução para "meteoro" de R$ 89,1 bilhões em dívidas judiciais previstas para serem quitadas em 2022, sob pena de não ter espaço para outras políticas em ano eleitoral. Solução via Conselho Nacional de Justiça (CNJ) ficou mais difícil diante de embates entre o presidente Jair Bolsonaro e o STF.

  • Auxílio Brasil: 

Versão turbinada do Bolsa Família, precisa sair do papel ainda neste ano para não esbarrar nas limitações da lei eleitoral. No entanto, reajustes previstos nos benefícios dependem da solução dos precatórios.

  • Orçamento de 2022: 

Única medida com maior chance de avançar, carrega, porém, dificuldades, como a própria fatura dos precatórios e a falta de espaço para o Auxílio Brasil. 

  • Reforma do IR: 

Aprovada na Câmara dos Deputados, deve enfrentar resistência no Senado e acumula críticas de especialistas por distorcer ainda mais a tributação sobre a renda no País.

  • Reforma tributária: 

Reúne mudanças para além do IR, também depende de maior consenso entre parlamentares, o que pode ser difícil em meio a ambiente político conturbado.

  • Reforma administrativa:

Muda as regras no serviço público, mas não foi aprovada nem na Câmara nem no Senado. Pode acabar perdendo força.

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Mercado teme que governo execute novas manobras fiscais no Orçamento de 2022

Especialistas veem com receio ‘escalada criativa’ e repetição do governo Dilma, que caiu por causa de ‘pedaladas’ financeiras; além disso, perda de popularidade de Bolsonaro também pode impulsionar o aumento dos gastos

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - As recentes investidas do governo para alterar regras fiscais e acomodar gastos às vésperas da eleição têm ampliado a desconfiança de economistas e integrantes do mercado financeiro em relação à condução da política fiscal do País. Dentro da própria área econômica há a percepção de que algumas das propostas apresentadas têm fragilidades. Fora do governo, técnicos que acompanham o Orçamento observam com preocupação a “escalada criativa” de manobras e veem a repetição do filme visto no governo Dilma Rousseff (PT), quando o excesso de artifícios fiscais colocou em descrédito a sustentabilidade das contas do País.

O acirramento da tensão após as manifestações de 7 de setembro também alimenta temores sobre o risco de uma guinada populista do presidente Jair Bolsonaro para se reeleger em 2022, diante da queda dos índices de aprovação do governo, e sobre o custo para manter uma base de sustentação no Congresso Nacional em um ambiente como o atual.

Nos últimos meses, a necessidade de fazer escolhas cada vez mais delicadas dentro do Orçamento, diante da falta de espaço para políticas públicas, tem encorajado iniciativas de arrecadar ou destinar recursos fora das regras fiscais, driblando o teto de gastos (a âncora fiscal que limita o avanço das despesas da inflação) ou até retirando despesas do Orçamento.

A mais recente delas foi a PEC dos precatórios, elaborada pela equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, e que propõe um parcelamento dessas dívidas judiciais, estimadas em R$ 89,1 bilhões para 2022 – um valor que, uma vez pago integralmente, inviabiliza o lançamento da ampliação do Bolsa Família, promessa de Bolsonaro. A PEC prevê a criação de um fundo para arrecadar recursos com privatizações e permitir pagamento antecipado de precatórios parcelados fora do teto de gastos. Outro dispositivo permite ao governo aportar imóveis em fundos privados sem que isso passe pelo Orçamento.

Mas a PEC não é a única medida nesse sentido. Em junho, o Congresso Nacional deu aval à lei de privatização da Eletrobras, que inclui previsão de que a empresa destine recursos para a revitalização de bacias hidrográficas de rios como São Francisco e Parnaíba. Técnicos de órgãos de controle afirmam que esse é um exemplo claro de despesa que, por ser política pública, precisaria estar no Orçamento – onde esbarraria no teto de gastos. A execução por fora do Orçamento “facilita” a implementação da política.

O próprio Tribunal de Contas da União (TCU) acabou dando sinal verde a um modelo semelhante no edital do leilão do 5G ao prever que os vencedores deverão destinar recursos à ampliação da conectividade em escolas.

Para técnicos dos órgãos de controle, essas são formas de viabilizar o financiamento de despesas do poder público por outras vias, mas acabam minando a unidade do Orçamento. Com isso, o movimento de buscar maior transparência e controle das despesas, deflagrado após as “pedaladas fiscais” que custaram o cargo de Dilma Rousseff, “vai sendo esvaziado”, segundo essas fontes. Elas veem semelhança com o processo de erosão da credibilidade fiscal a partir de 2012, quando manobras com receitas extraordinárias ou abatimentos de despesas adotadas para “cumprir” a meta de resultado de primário acabaram por minar a própria confiança na regra fiscal.

A diferença é que, se no governo Dilma as manobras eram feitas dentro do próprio governo, agora muitas medidas “criativas” recebem aval do Congresso Nacional e vão parar na lei ou até mesmo em emenda constitucional. Isso limita a ação de órgãos de controle, já que as ações são “legais”. Dentro da área econômica, segundo apurou o Estadão/Broadcast, há desconforto com iniciativas, como colocar numa PEC uma regra contábil para aporte de imóveis.

Entre técnicos de órgãos de controle, a avaliação é que “o ambiente está tumultuado”. “Toda vez que precisa de alguma coisa, leva isso pra norma. Legalmente é ok, mas isso vai ter impacto na gestão fiscal”, afirma uma fonte.

Por decreto

Um dos idealizadores da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), até hoje um marco para a gestão das contas públicas, o economista José Roberto Afonso, professor do IDP, afirma que a iniciativas recentes, como a PEC dos Precatórios e a própria lei sobre privatização da Eletrobras, ferem um princípio da responsabilidade fiscal: receitas atípicas não devem financiar despesas típicas. “Credibilidade é um processo e não se assegura por decreto. O próprio governo conspira contra si próprio numa sucessão absurda de erros e falsa soluções. Fake news pode ganhar eleição, mas jamais resolverá crise fiscal, nem pandemia”, diz Afonso.

O economista Marcos Mendes, pesquisador do Insper e um dos integrantes da equipe que elaborou a emenda do teto de gastos, avalia que a regra passou na prova da pandemia ao mostrar a flexibilidade necessária às despesas de combate à crise sanitária, mas está sob risco diante do cenário delicado do Orçamento para 2022. “Criou-se a ideia de que haveria muito espaço pelo descasamento de índices de inflação (correção do teto maior do que das despesas abaixo dele). E aí inflacionou a lista de desejos. Só que esse espaço foi diminuindo, e a lista de desejos não diminuiu”, afirma.

Nos cálculos de Mendes, o Congresso precisará acomodar mais R$ 17 bilhões em despesas com benefícios sociais devido à inflação maior – o Orçamento foi enviado pela equipe econômica com parâmetros defasados. Isso significará menos espaço para emendas, obras e políticas sociais. Embora reconheça o esforço da equipe de Guedes para manter o teto, ele não descarta a possibilidade de voltar à mesa a discussão de manter a ajuda a vulneráveis por meio de crédito extraordinário (fora do teto), como foi feito no auxílio emergencial. “A discussão do Orçamento de 2022 vai ser crucial para a gente ver o grau de estrago que vai ser feito na regra”, diz Mendes.

Como resultado mais imediato das manifestações, o pesquisador do Insper também vê maior dificuldade do governo em buscar uma solução para os precatórios via Judiciário. “O presidente também vai precisar de mais paz junto ao Congresso, visto que as baterias dele estão voltadas contra o STF. Isso significará menor poder de barrar emendas”, afirma, em referência às emendas usadas por parlamentares para destinar recursos às suas bases.

Teto de gastos

Crítico do teto de gastos, o economista Fábio Terra, professor da Universidade Federal do ABC, reconhece que a regra tem um papel importante para a credibilidade das contas públicas, mas vê “ambiguidade” na política fiscal. “O governo dribla o teto para preservar o teto. Então, a credibilidade da regra não está abalada, mas a condução da política sim”, afirma. “O lado bom da regra é de certa forma restringir qualquer uso mais populista das finanças públicas. Mas como a regra coloca restrição, ele tenta elidir o tempo todo, mantendo a ambiguidade.”

Para Terra, o governo perdeu a chance de aproveitar a conjuntura melhor de aumento de arrecadação e redução da dívida e acabou ele próprio alimentando questionamentos sobre a manutenção das regras fiscais no futuro. Na avaliação do professor da UFABC, é nesse ponto de “desarranjo de expectativas” que a situação atual se assemelha ao que foi visto no governo Dilma. “Uma coisa é você não conseguir liderar. Outra coisa é atrapalhar o funcionamento normal da economia. E eu acho que a gente anda nisso também nesse exato instante, porque o governo faz esse jogo ambíguo”, afirma.

A economista Vilma Pinto, diretora da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, também afirma que propostas que fragilizam as regras fiscais prejudicam a credibilidade do governo nessa área. “Em vez de tentar reduzir gastos, vemos medidas que vão na direção contrária. Isso se viu também em outros episódios, quando se aprovou leis para ‘cumprir’ regras”, avalia. Vilma lembra que um cenário desse tipo amplia o risco fiscal, afetando variáveis como câmbio e juros, jogando mais lenha na fogueira da inflação – que não só penaliza as famílias, mas também pressiona despesas públicas. “O primeiro passo é ter compromisso mais assíduo com regras fiscais”, recomenda a economista.

Procurado, o Ministério da Economia diz que “o respeito ao arcabouço de regras fiscais do Brasil sempre foi e continuará sendo o principal condutor das ações do governo”. “A despeito do que tem se realizado com a melhora dos indicadores, há questões fiscais que precisam ser resolvidas, afetando as expectativas acerca do resultado fiscal e, por conseguinte, os prêmio das curvas de juros”, afirma. A pasta também diz trabalhar numa solução para os precatórios.

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Tensão política acentuada por fala de Bolsonaro no 7 de Setembro ameaça PIB de 2022

Até projeção de crescimento de 1,5% para a economia no ano que vem é acompanhada de viés negativo; economistas afirmam que instabilidade deve deteriorar ainda mais as previsões para a inflação

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 05h00

A nova crise deflagrada pela elevação do tom do presidente Jair Bolsonaro contra o Supremo Tribunal Federal (STF) durante as manifestações do 7 de Setembro e sua repercussão no ambiente político não deve ficar restrita ao mercado financeiro - ontem, a Bolsa caiu 3,8% e o dólar subiu 2,89%. Com o aumento das incertezas, a atividade econômica e a inflação devem se deteriorar ainda mais, de acordo com economistas.

“Os eventos (de terça-feira) colocam na mesa o risco de que Bolsonaro não termine o mandato, seja via impeachment seja por meio de uma cassação. Quando isso entra no radar, as incertezas são maiores, e isso pesa na economia, nas decisões de consumo e de investimento”, diz a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria.

Esse cenário mais incerto está fazendo a economista rever sua estimativa de alta do PIB de 2022 de 2,2% para 1,8%. Alessandra afirma que há a possibilidade de esse crescimento ser ainda menor. “Há também o risco em relação ao resultado eleitoral, especialmente se Bolsonaro não for vencedor. Aí, podemos ter uma transição de poder que não seja pacífica. Isso traz mais incerteza e torna o ambiente mais difícil para a economia.”

Para o economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani, as manifestações de 7 de Setembro fizeram com que a disputa eleitoral de 2022 e as incertezas geradas por ela ganhassem importância na formação dos preços dos ativos brasileiros. Com isso, a instabilidade no mercado começa mais cedo do que o esperado para um período eleitoral e o prêmio de risco também sobe.

“Isso torna muito pouco provável que os preços convirjam para o patamar que faria sentido de acordo com os fundamentos (da economia). Um valor justo para a Bolsa hoje, por exemplo, seria de 130 mil pontos, e, para o dólar, R$ 4,70”, diz Padovani.

 

 

De acordo com ele, a deterioração financeira vai elevar o custo do crédito, o que afetará negativamente a economia. Para este ano, Padovani ainda projeta uma alta de 5,3% no PIB, dado que a reabertura da economia vai compensar as incertezas, mas, para 2022, a estimativa é de 1,8%, com viés negativo.

A economista Silvia Matos, do Instituto Brasileiro de Economia, da FGV (FGV Ibre), também afirma que sua projeção de 1,5% de PIB para 2022 tem viés negativo. “Poderíamos estar comemorando os resultados da abertura da economia. Mas o cenário agora é de muita incerteza. Isso prejudica investimentos, emprego formal, crédito. Muitas decisões de investimentos vão ficar para depois das eleições.”

Silvia diz que o único alento poderá vir do Congresso. Para ela, diante da crise, deputados e senadores podem tentar, nos próximos meses, avançar em alguma reforma econômica. "Se a economia for muito mal, talvez haja mais pressão para o Congresso ter protagonismo."

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Imagem Adriana Fernandes
Colunista
Adriana Fernandes
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Adriana Fernandes: Dilema que atormenta muitos parlamentares é se vale a pena ajudar Bolsonaro

Quanto maior a dificuldade de aprovar os projetos econômicos de seu interesse, maior será a tentação do governo de adotar medidas fora do Orçamento

Adriana Fernandes*, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 04h00

É inegável que o agravamento da tensão política após as manifestações antidemocráticas de 7 de Setembro piora o ambiente para a aprovação completa (Câmara e Senado) de projetos econômicos de interesse do governo. Mas essa é uma avaliação de curtíssimo prazo e o pragmatismo político (o do dinheiro) deve falar mais alto.

Não é do interesse de deputados e senadores, que disputarão as eleições em 2022, implodir por completo a pauta econômica a ponto de inviabilizar o Orçamento do governo no ano que vem.

Os parlamentares querem emendas, recursos para obras nos seus redutos e um fundo eleitoral rechonchudo para enfrentar com posição privilegiada a campanha de 2022.

Esse ponto vale para os parlamentares de todos os partidos: governistas e opositores do presidente Bolsonaro. O dilema que atormenta hoje muitos parlamentares é avaliar até que ponto vale a pena ajudar Bolsonaro com uma solução para o pagamento da dívida de precatórios e dar a ele o novo Bolsa Família. Ninguém acredita que haverá corte das emendas parlamentares para reforçar o programa social.

Se morreu a agenda legislativa do ministro da Economia, Paulo Guedes, a pauta do Orçamento será tocada pelo Congresso, com a equipe econômica e o governo num papel secundário.

Quanto maior a dificuldade de aprovar os projetos econômicos de seu interesse no Congresso, maior será a tentação do governo de adotar medidas criativas e fora do orçamento oficial.

Uma dessas tentativas já está quase na rua. Poucos se deram conta do que representa o programa de microcrédito da Caixa que se propõe a conceder empréstimos de R$ 200, R$ 300 à população de baixa renda. 

Como revelou a colunista do Estadão/Broadcast, Irany Tereza, é a tal “revolução do mercado financeiro” prometida pelo presidente do banco, Pedro Guimarães, conhecido em Brasília como PG2 de tão próximo que é do presidente Bolsonaro.

O programa, que visa a atingir 100 milhões de pessoas, na prática, funcionará com uma extensão do auxílio emergencial. Uma forma encontrada para viabilizar recursos fora do orçamento via banco público, dando mais tempo para o governo resolver o problema político para entrar com o seu novo programa social. Sem falar que o público do microcrédito será muito maior do que o do Auxílio Brasil, como foi batizado o substituto do programa Bolsa Família. 

O limite para os financiamentos foi avaliado em R$ 3 mil por CPF, e os recursos para a nova linha, estipulados inicialmente em R$ 10 bilhões, com margem para ir a R$ 20 bilhões, com funding no lucro da própria Caixa.

Em caso de inadimplência, porém, é muito pouco provável que o banco vá conseguir cobrar. Dificilmente valerá a pena ir atrás de devedores de valores tão baixos. Tudo isso pode significar necessidade de provisionamento, prejuízo lá na frente e capitalização da Caixa no futuro com recursos do Orçamento e fora do teto de gastos. É que os aportes do governo a empresas estatais ficam fora do teto constitucional para as despesas do governo. 

A ideia inicial do governo, antecipada pelo Estadão em novembro passado, era mais tímida; atingir em torno de 20 milhões de trabalhadores de baixa renda como alternativa na época para o fim do auxílio emergencial. Os valores dos empréstimos eram outros e não tão baixos. Mas o cenário político eleitoral mudou o curso da história.

O espírito desse novo microcrédito lembra muito o programa Minha Casa Melhor, linha de crédito para a compra de móveis, computadores e eletrodomésticos lançada em 2013, um ano antes das eleições de 2014.

Na época, a Caixa ignorou a análise técnica e jurídica do próprio banco, que mostrava o risco elevado de calote, e bancou o programa, considerado uma vitrine eleitoral da presidente Dilma Rousseff.

Documentos mostravam que o programa já nasceu deficitário e a possibilidade de calote da linha, direcionada para os mutuários do Minha Casa, Minha Vida, chegava a 50,73% na faixa das famílias mais pobres da população. Se não quiser aumentar a desconfiança com as contas do governo, a Caixa terá de provar a viabilidade do seu novo programa. Se for para nascer deficitário, o subsídio do governo terá de estar claro e no Orçamento. A ver.

*É REPÓRTER ESPECIAL DE ECONOMIA EM BRASÍLIA

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