Daniel Teixeira/Estadão
No 2.º trimestre, segundo dados do Produto Interno Bruto (PIB) anunciados na semana passada pelo IBGE, os investimentos caíram 3,6% em relação ao 1.º trimestre Daniel Teixeira/Estadão

Com crises política e hídrica, taxa de investimento deve manter ritmo fraco

No 2.º trimestre, segundo dados do Produto Interno Bruto (PIB) anunciados na semana passada pelo IBGE, os investimentos caíram 3,6% em relação ao 1.º trimestre

Vinicius Neder  e Bruno Villas Bôas, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2021 | 05h00

Os investimentos, há muito tempo em nível insuficiente para garantir um crescimento sustentado da economia, devem manter um quadro de estagnação, ou de alta muito lenta, até pelo menos o próximo ano, segundo especialistas. O quadro, que já não é dos mais positivos, deve ser agravado pela crise político-institucional e também pela crise hídrica.

No 2.º trimestre, segundo dados do Produto Interno Bruto (PIB) anunciados na semana passada pelo IBGE, os investimentos caíram 3,6% em relação ao 1.º trimestre. Com isso, a taxa de investimentos (o total de aportes como proporção do PIB) ficou em 18,2%, bem inferior aos 32,9% médios registrados nos países emergentes e também abaixo da média de 22% das economias desenvolvidas, conforme o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Para o Ministério da Economia e o ministro Paulo Guedes, após ser duramente atingida pela covid-19, a economia brasileira está “voltando em V” – e com “qualidade” –, puxada pelo setor privado, com mais investimentos, mas não é o que dizem os analistas. “Podemos até ter uma retomada puxada por investimentos, sim, mas o ritmo não parece ser tão intenso. Até a própria recuperação da economia, no ano que vem, não parece ter o crescimento mais forte. Estamos voltando para o cenário de crescimento baixo”, diz Rodolpho Tobler, responsável pelas sondagens de confiança empresarial da FGV.

Os indicadores de confiança da FGV exemplificam esse cenário. O Indicador de Intenção de Investimentos, que mede a disposição de se investir nos próximos 12 meses, até subiu neste 3.º trimestre, mas nos ramos de serviços (110,9 pontos) e de construção (103,6 pontos) ainda segue abaixo do nível de antes da pandemia. Na indústria, o número é maior (129,2 pontos), mas recuou em relação ao 1.º trimestre (132,8 pontos). Quando esse indicador fica acima de 100 pontos, mostra que o número de empresas relatando alta nos aportes é maior do que a quantidade relatando queda. 

Vários fatores justificam a moderação no otimismo com os investimentos. Em primeiro lugar, o desemprego elevado e a aceleração da inflação, na esteira da crise hídrica, seguram o consumo das famílias, freando o ritmo de crescimento econômico – como já mostrado na retração de 0,1% no PIB do 2.º trimestre. E o cenário de fragilidade no consumo doméstico – que se arrasta desde a recessão de 2014 a 2016 – se reflete nos aportes das empresas. 

“O que move o investimento? Crescimento da demanda e expectativa de lucro”, diz Antonio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP e presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon). “Quem está tomando decisão de investimento já percebeu que o padrão de crescimento econômico do Brasil é muito baixo. Não adianta investir porque não tem demanda para isso.”

Após a divulgação da retração do PIB do 2.º trimestre, economistas revisaram para baixo suas previsões de crescimento econômico. Neste ano, a economia deverá avançar pouco mais de 5%, se recuperando do tombo do ano passado, mas, para 2022, as estimativas estão entre 1% e 2%. O ritmo dos investimentos vai arrefecer junto. Nas projeções da consultoria Tendências, os investimentos poderão crescer 9,5% este ano – inflados artificialmente por mudanças nas regras do Repetro, regime tributário do setor de petróleo –, mas o ritmo deverá arrefecer para 3,1% em 2022.

A crise hídrica pode ser um grande obstáculo. Além de elevar a inflação, a estiagem leva a quebras de safras, ameaçando aportes na agropecuária, por exemplo. E tudo pode piorar se a estiagem baixar os reservatórios das hidrelétricas a tal ponto que provoque racionamentos de energia. 

A crise político-institucional também tem um papel importante nesse cenário difícil. Segundo Cláudio Frischtak, presidente da Inter.B, projeta crescimento nos aportes em infraestrutura neste ano, por causa dos planos de empresas que já estão no Brasil, enquanto novos investidores estrangeiros esperam as eleições. Projetos de infraestrutura são uma “aposta no futuro” e, por isso, têm na incerteza uma variável “fundamental”, afirma o consultor. 

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Na infraestrutura, aportes seguem abaixo do ideal

Investimentos devem crescer este ano e chegar a 1,6% do PIB, mas nível necessário para melhorar a infraestrutura seria de 4,1%

Vinicius Neder e Bruno Villas Bôas, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2021 | 05h00

RIO - Apesar das turbulências políticas e da perspectiva de baixo crescimento econômico a partir de 2022, os investimentos em infraestrutura no País deverão crescer este ano, nas projeções da Inter.B Consultoria. No total, os aportes em estradas, ferrovias, usinas de geração de eletricidade, linhas de transmissão e em saneamento básico, entre outros segmentos, deverão somar R$ 136 bilhões, ante os R$ 118 bilhões investidos em 2020.

Se confirmada a estimativa, atualizada em julho, os investimentos subirão de 1,58% do PIB em 2020 para 1,62% em 2021, na primeira alta como proporção da atividade econômica desde 2014. Mesmo assim, o nível ainda é muito abaixo do necessário para melhorar a combalida infraestrutura nacional. Nas contas da Inter.B, o Brasil precisaria investir 4,12% do PIB em infraestrutura a cada ano.

Segundo Cláudio Frischtak, presidente da Inter.B, a melhora dos projetos das concessões de infraestrutura e o aumento do fluxo de recursos para o financiamento no mercado financeiro favorecem os investimentos das empresas que atuam no setor, apesar da crise política.

Semana passada, Felipe Pinto, sócio da Pátria Investimentos, gestora que se tornou importante ator do setor ao amealhar bilhões em fundos para investir em concessões, disse, em evento público, que “os ruídos não ajudam a infraestrutura”, mas frisou que o investidor do setor olha para o longo prazo. No mesmo tom, o presidente da operadora de concessões CCR, Mauro Caduro, afirmou, em outro evento online, que o ambiente é favorável a investimentos em infraestrutura, mesmo com a crise política.

Frequentemente, especialistas em infraestrutura destacam que segurança jurídica, boa regulação por parte do Estado e bons projetos de concessão são essenciais para atrair investimentos privados no setor. Segundo Frischtak, isso é verdade, mas, quase sempre, esses elementos são condições “necessárias”, e não “suficientes”.

Uma das consequências disso é que os leilões de concessões têm atraído investidores que já atuam no Brasil, acostumados com suas particularidades e incertezas. Os bilionários projetos de saneamento licitados recentemente, em Alagoas e no Rio, foram arrematados pelas principais operadoras do País, como BRK Ambiental, Aegea e Iguá Saneamento. O projeto do Amapá foi leiloado na semana passada e escolheu a Equatorial Energia, estreante nos serviços de água e esgoto, mas tradicional na infraestrutura.

Conforme Frischtak, isso é positivo e pode elevar investimentos num ano, mas não a ponto de atingir o nível de 4% do PIB considerado necessário ou de ter força para puxar a retomada da economia. Além disso, Matheus Ferreira, economista da Tendências Consultoria, lembra que importantes leilões previstos para os próximos meses só deverão começar a tirar obras do papel, a ponto de impactar a atividade econômica, no fim de 2022 e no início de 2023.

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