Com custo baixo, Bangladesh tira fábricas da China

Alta dos custos na China leva fabricantes de roupas, brinquedos e eletrônicos simples a se mudar para Bangladesh, Vietnã e Camboja

Vikas Bajaj, The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2010 | 00h00

A estrada de oito pistas na direção de Dhaka estreita nos últimos 50 quilômetros próximos da capital, com os carros entrando numa via lamacenta, ladeada por mangues e pequenas lojas.

Mas a região não é um fim de mundo rural. Trata-se de uma localidade onde as manufaturas estrangeiras poderão se instalar no caso de a demanda por salários cada vez mais altos na China levá-las a buscar mão de obra barata em outros lugares.

Nessa área de Bangladesh já existem fábricas, onde, por trás dos portões de aço e altos muros de concreto, milhares de operários passam o dia costurando camisetas, calças e suéteres para Walmart, H&M, Zara e outras varejistas ocidentais.

Uma das empresas é a DBL Group, que emprega nove mil pessoas na produção de camisetas e outros tipos de malhas.

Os negócios têm sido tão bons que a companhia está terminando a construção de um novo prédio de 10 andares, com salões do tamanho de um campo de futebol, repletos de máquinas de costura. "Nossa família precisava de dinheiro, assim viemos para cá", disse Maasuda Akthar, 21 anos.

Precários. Como os custos subiram na China, que por muito tempo foi a grande oficina têxtil do mundo, os chineses estão lentamente perdendo trabalho para países como Bangladesh, Vietnã e Camboja - pelo menos nos setores de roupas, brinquedos e produtos eletrônicos simples, que exigem muita mão de obra, não necessitam de operários alfabetizados e que conseguem tolerar sistemas de transporte e redes elétricas precários.

Li & Fung, empresa de Hong Kong que opera com distribuição e fabricação de roupas para empresas como Walmart e Liz Claiborne, viu sua produção em Bangladesh saltar 20% no ano passado, enquanto a China, sua maior fornecedora, registrou uma queda de 5%. "Bangladesh está se tornando bastante competitiva", disse a analistas o diretor do grupo, William Fung.

O fluxo de empregos para países mais pobres como Bangladesh começou mesmo antes dos recentes protestos trabalhistas verificados na China, que resultaram em grandes aumentos de salários para muitos operários de fábricas no país - e antes das mudanças na política monetária chinesa, que também vão elevar os custos das exportações do país. Para os economistas, a migração dos trabalhadores mal pagos da China deve acelerar.

Apesar de os operários em Bangladesh e outros países em desenvolvimento também estarem reivindicando melhores salários - o que provocou choques entre a polícia e manifestantes no início da semana num centro de produção de roupas fora de Dhaka -, eles ainda ganham muito menos do que os trabalhadores das fábricas chinesas.

Menor salário do mundo. Bangladesh paga os menores salários do mundo, afirmam defensores dos direitos trabalhistas. Maasuda Akthar, um operário relativamente bem pago pelos padrões locais, ganha US$ 64 por mês. Na China, a remuneração paga nas regiões industriais situa-se entre US$ 117 e US$ 147 mensais.

"As empresas chinesas que começam a ter dificuldades são as da área têxtil, fabricantes de calçados de borracha e coisas desse tipo", diz Barry Eichengreen, professor de Economia na Universidade da Califórnia. "Muitos países no Sul e Leste da Ásia ou na América Central gostariam de preencher esse espaço."

Mas Bangladesh tem seus próprios desafios para enfrentar. Na China, a combinação de uma enorme população de trabalhadores - muitos quase analfabetos- com rodovias, ferrovias e uma rede elétrica modernas nas províncias industrializadas oferece condições que países como Bangladesh não podem proporcionar. Pequim também fornece empréstimos a baixo custo e incentivos, que outros países não têm condições de oferecer. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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