André Dusek/Estadão
Decisão do Banco Central vem na esteira da alta da inflação no País. André Dusek/Estadão

Com disparada da inflação, BC eleva juros ao nível de antes da pandemia; Selic fica em 4,25%

Com 3ª elevação seguida, de 0,75 ponto porcentual, taxa básica de juros retorna ao patamar de fevereiro de 2020; Copom indica que deve repetir o aumento em agosto, mas mercado já vê margem para alta de até 1 ponto

Fabrício de Castro e Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 18h41
Atualizado 16 de junho de 2021 | 23h03

BRASÍLIA - A escalada mais recente da inflação fez o Banco Central elevar, pela terceira vez consecutiva, a taxa básica de juros. A decisão anunciada nesta quarta-feira, 16, pelo Comitê de Política Monetária (Copom) foi de uma alta de 0,75 ponto porcentual, levando a Selic de 3,50% para 4,25% ao ano. Com isso, os juros no País retornaram ao patamar de fevereiro de 2020 – antes da pandemia de covid-19.

Além de elevar a Selic, o BC sinalizou que pretende fazer um novo aumento de 0,75 ponto porcentual no próximo encontro do Copom, marcado para 3 e 4 de agosto. Alguns economistas do mercado financeiro, porém, veem a possibilidade de uma alta de até 1 ponto porcentual em agosto, caso a inflação não dê trégua até lá. O BC também passou indicações de que o atual ciclo de alta tende a colocar a Selic em patamar mais elevado do que o previsto inicialmente. 

“O comunicado (divulgado pelo Copom) foi um pouco além do que a gente esperava”, disse o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, ao avaliar a decisão do BC. “Se a expectativa de inflação seguir aumentando, o próximo reajuste pode ser superior a 0,75 ponto porcentual”, acrescentou. 

Já o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, classificou o comunicado como “hawkish” (“duro”, no jargão do mercado financeiro). “Podemos classificar o comunicado como hawkish, uma vez que a autoridade abriu caminho para uma elevação de 1 ponto na próxima reunião.”

O aumento do juro básico deve se refletir em taxas bancárias mais elevadas, embora haja uma defasagem entre a decisão do BC e o encarecimento do crédito (geralmente, entre seis e nove meses). A elevação da taxa também pode afetar o consumo da população e os investimentos produtivos.

Por trás do movimento, está a preocupação do BC com o avanço da inflação no País nos últimos meses. Só em maio, a taxa bateu em 0,83% – o maior porcentual para o mês desde 1996. No acumulado dos últimos 12 meses, a variação chega a 8,06%, puxada em grande medida pelos preços administrados pelo governo, como energia e combustíveis.

Nas próprias projeções do BC, atualizadas nesta quarta, a expectativa para a inflação este ano é de 5,8%. Este porcentual já está acima da meta perseguida pela instituição em 2021, inclusive se for considerada a “margem de tolerância”. O centro da meta é de 3,75%, com margem de 1,5 ponto (ou seja, uma inflação de até 5,25%).

A decisão era largamente aguardada pelo mercado financeiro. De um total de 54 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, 53 esperavam pelo aumento da Selic em 0,75 ponto, para 4,25% ao ano.

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‘Maior do que o esperado’

Ao justificar a decisão, o BC afirmou que a persistência da pressão inflacionária está “maior que o esperado”. Desde o ano passado, a instituição vem citando os efeitos da alta de preços de alimentos e combustíveis como fatores para a escalada da inflação.

Desta vez, o BC acrescentou um ingrediente ao cenário: a seca que atinge as hidrelétricas e tende a elevar os preços da energia, como forma de compensar os gastos extras que o País terá com a produção das termoelétricas.

Na terça-feira, durante audiência pública na Comissão de Minas e Energia da Câmara, o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), André Pepitone, disse que até o fim deste mês vai definir os novos valores das bandeiras tarifárias. O reajuste do patamar mais alto, a bandeira vermelha 2, deve ultrapassar os 20% previstos inicialmente pela agência.

Ao mesmo tempo, o BC teme que o avanço da vacinação faça os brasileiros consumirem mais serviços nos próximos meses – o que também pode impulsionar os preços neste setor da economia. Na outra ponta, a recente queda do dólar ante o real é um fator de alívio para a inflação. /COLABOROU EDUARDO LAGUNA

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Choques de custo desafiam política de juros do BC, diz ex-diretor de política monetária

Para Luiz Fernando Figueiredo, sócio da gestora Mauá Capital, decisão do Banco Central busca controlar as expectativas da inflação para 2022

Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 19h15

Para Luiz Fernando Figueiredo, sócio da gestora Mauá Capital e ex-diretor de política monetária do Banco Central, o aumento da taxa básica de juros de 0,75 ponto porcentual está em linha com o processo de normalização dos juros iniciado pela entidade monetária no começo do ano. Segundo ele, esse nível de aumento indica uma posição de firmeza da autarquia, que busca elevar a taxa de juros para conter o aumento da inflação nos últimos meses. 

Em entrevista ao Estadão, Figueiredo afirma que o aumento da inflação tem relação com um choque temporário de custos, puxado principalmente pela elevação dos preços das commodities, que vêm afetando as empresas e consumidores em todo o mundo. É uma situação que deve levar um tempo para se normalizar, à medida que a economia dos países se recupera dos efeitos da pandemia, mas que tende a ser passageira. 

Nesse cenário, segundo ele, os bancos centrais e os governos precisam ficar atentos para reduzir os estímulos monetários e fiscais, para evitar um aumento maior da inflação. “As expectativas sobre a inflação ainda estão dentro do esperado, mas é preciso tomar cuidado para não descolarem da meta do ano que vem”, afirma. Abaixo, trechos da entrevista.

Qual a avaliação do senhor sobre o desafio do Banco Central em responder à pressão inflacionária?

Na minha visão, o aumento da inflação é um fenômeno que o mundo todo está vivendo. E esse fenômeno ainda não se encerrou. À medida que (a economia) vai normalizando, a demanda por alguns produtos e serviços cresce, e a procura por outros itens cai. Mas o mundo ainda vive um nível de desemprego muito elevado. Alguns lugares mais, outros menos. Uma vez que a economia se normalize completamente, é difícil acreditar que o processo inflacionário se mantenha forte.

Por quê?

Porque o desemprego é tão alto que impede um aumento de preços muito elevado. A dúvida que existe hoje é se o desemprego vai sumir rapidamente, devido ao excesso de estímulos. Se isso acontecer, realmente pode ter uma situação de superaquecimento da economia e um processo inflacionário mais vigoroso. O cenário de hoje não é este. É o primeiro cenário: o desemprego ainda alto e choques de preços intensos. 

Como o Banco Central pode responder a esses choques?

O Banco Central consegue ajustar a demanda, mas, sobre os choques de aumento de custo, não há muito o que fazer. Não existe instrumento para agir contra isso. Nenhum banco central no mundo tem. Só que esses choques tendem a ser temporários - desde que não haja uma barbeiragem dos governos. 

E como fica a situação do Brasil?

No caso brasileiro, diria que o desafio é maior porque os choques de preços foram mais acentuados do que no mundo em média, até por causa da nossa fragilidade fiscal. Mas, por outro lado, o nosso desemprego não tende a se reduzir fortemente. 

Por que não?

Porque o Brasil já tinha um desemprego alto antes da pandemia. Além disso, durante a pandemia, muitas empresas aprenderam a trabalhar com menos pessoas. E no Brasil o custo de empregar e desempregar é alto. O mercado de trabalho é rígido. A tendência é (a empresa) trabalhar o máximo que puder sem empregar mais, o que acaba postergando a recuperação do emprego. E também existe um risco fiscal que sempre está à espreita e acaba reduzindo a confiança das pessoas, dos empresários e por aí vai.

Nesse sentido, o risco de uma inflação mais acelerada é menor no Brasil?

O risco de superaquecimento da economia é menor. O risco é haver tantos choques de custos que isso acabe gerando um processo de bola de neve (nos preços dos produtos e serviços). As expectativas sobre a inflação ainda estão dentro do esperado, mas é preciso tomar cuidado para não descolarem da meta do ano que vem. Um desafio importante para o Banco Central é controlar as expectativas. Para que isso aconteça, a gente precisa ter choques menos frequentes e menos intensos. Nesse sentido, houve uma apreciação do câmbio. Os preços das commodities agrícolas interromperam a alta. Estão mais comedidos. Isso tudo pode ajudar. Mas a verdade é que, semana a semana, a gente vê as expectativas sobre a inflação se distanciando da meta do Banco Central. O desafio é controlar minimamente isso. 

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Como controlar essa expectativa?

Ficar dando choques (de aumento de juros acima do esperado) um atrás do outro é contraproducente. O Banco Central já surpreendeu o mercado várias vezes ao longo desse processo. Ele tem que se mostrar que está firme. Tem que se mostrar bem disposto a fazer o que for necessário. À medida que se mostra dessa maneira fica mais fácil controlar as expectativas. Lembrando que o que está acontecendo não é um fenômeno só brasileiro. Está acontecendo no mundo inteiro. 

Como avalia a resposta da política monetária ao aumento da inflação?

Tivemos tantos choques, e agora temos essa crise hídrica que trouxe mais inflação. E  parece que levará mais tempo para normalizar. Pode ser mais duradouro. É muito difícil um Banco Central controlar as expectativas quando você tem tanto choque um atrás do outro. O lado positivo é que o risco fiscal pelo menos no curto prazo baixou. O teto de gastos foi respeitado. Temos um orçamento que está mais para o responsável do que para o irresponsável. A arrecadação aumentou e o governo segurou gastos. Esse era um choque muito relevante que atrapalhava o Banco Central. 

O aumento da taxa Selic está em nível adequado?

O Banco Central tem que se mostrar muito firme. Como é a forma de mostrar? Não é aumentando o passo. Porque já está com o passo largo. Não é super extraordinário, mas está acima do normal. Vejo que o Banco Central pensava em normalizar a política monetária parcialmente. A meu ver ele vai ter que abandonar isso. Dado esse processo inflacionário, vai ter que normalizar completamente. O que quer dizer não dar nenhuma paradinha (no aumento de juros). Ir para 6,50%, 7% com uma certa velocidade. 

É onde ele deveria chegar?

Sim. Ele não estará surpreendendo o mercado. O mercado entende que é importante que ele faça. Já colocou isso no preço. Mas não precisa ficar surpreendendo o mercado toda vez. 

O Banco Central subestimou o cenário da inflação quando manteve o juros em 2%?

Agora é fácil dizer isso. Mas desde 2002 a gente não tem essa quantidade de choques (de custos). Era difícil supor que haveria esses choques quando a taxa Selic foi para 2%. A expectativa de inflação no ano passado era bem abaixo da meta. Ele se antecipou e começou um ritmo bem forte de alta. O Banco Central não brincou em serviço. Muita gente foi crítica, dizendo que o câmbio depreciou demais por causa disso. Minha opinião é de que o juro tem pouco impacto na taxa de câmbio quando a gente tem um risco fiscal do tamanho que a gente tem. Algum tem, mas é pequeno. 

O que mais é preciso ficar de olho nos próximos meses na inflação e que pode afetar a política monetária?

A primeira delas é a dinâmica da pandemia: o quanto a economia no mundo está indo ou não para a normalidade. Está cada vez indo mais para a normalidade. À medida que isso ocorre, fica cada vez menos correto continuar com o volume de estímulos fiscais e monetários que o mundo está dando. Tem que haver uma mudança nessas políticas. Quanto mais demorar para fazer essa mudança de política, maior risco a gente tem.

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Celso Ming
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Celso Ming: Copom aumenta os juros, mas continua atrasado no controle da inflação

O Banco Central continua deixando de lado o impacto secundário da inflação de custos no País

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 19h55

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central voltou a aumentar os juros básicos (Selic) em 0,75 ponto porcentual, para 4,25% ao ano, mas continua atrasado no processo de controle da inflação, porque manteve a dose prometida, mesmo surpreendido pela inflação mais alta. 

Na reunião de 6 de maio, o Banco Central reconheceu que estava deixando o trabalho incompleto. O termo usado no documento foi o de que o ajuste procurava a “normalização parcial”. Ao mesmo tempo, deixou como favas contadas nova alta dos juros de 0,75 ponto porcentual na reunião desta quarta-feira. A inflação de maio surpreendeu para cima, ficou no 0,83% e, no período de 12 meses completados em maio, em 8,06%, acima do esperado pelo mercado e pelo Banco Central.

Ficou entendido que o aumento dos juros (o 0,75 ponto porcentual decidido desta vez) calibrados para uma inflação mais baixa continuaria a ser normalização parcial se a inflação viesse mais alta, como veio e promete mais.

Por isso, número expressivo de analistas econômicos entendeu que, para enfrentar essa elevação mais braba de preços, o Banco Central teria de puxar os juros em 1 ponto porcentual. Mas não foi o que aconteceu. O Banco Central limitou-se a retirar a expressão “normalização parcial” do seu comunicado e a adiantar mais uma alta de 0,75 ponto porcentual na próxima reunião, agendada para 4 de agosto.

Ainda prevalece o diagnóstico do Banco Central de que o esticão da inflação não acontece por aumento da demanda interna, mas por choque de oferta. Inflação de demanda é a que acontece com aumento da procura por bens e serviços descasada de oferta equivalente. A atual inflação não se explica pelo aumento da demanda porque o desemprego continua alto (14,7%) e o consumidor brasileiro perdeu renda durante a pandemia. Ela é mais de custos do que de demanda porque vem empurrada pela alta das commodities decidida no exterior. Por isso, não caberia reforçar o aumento dos juros, que é reduzir o volume de moeda na economia, para conter a demanda.

Embora fundamentalmente correto, o diagnóstico do Banco Central do Brasil deixou de lado o impacto secundário dessa inflação de custos, num país em que ainda é forte a indexação (correção monetária).

E mais, nos próximos meses, ainda se esperam três pauladas sobre o custo de vida: a aplicação da bandeira vermelha sobre as tarifas de energia elétrica, em consequência da crise hídrica; a inevitável transferência da alta no atacado para os preços do varejo; e o aumento dos preços do setor de serviços que quase forçosamente se seguirá depois de outubro com o aumento da vacinação.

O que pode atenuar a inflação é o comportamento do câmbio. Nesta quarta-feira, as cotações do dólar chegaram a tocar nos R$ 4,99 (ver abaixo). Isso significa que os preços dos importados, especialmente os dos alimentos e dos combustíveis, enfrentarão importante fator de baixa.

CONFIRA

As cotações do dólar continuam em queda. Atingiram o pico de R$ 5,80 em 9 de março e, nesta quarta-feira, chegaram a resvalar para abaixo dos R$ 5. Mas fecharam a R$ 5,06, na ponta de venda. As causas desse movimento são conhecidas: é a grande abundância de dólares no mercado externo; o excelente desempenho das exportações; a alta dos juros que voltaram a atrair moeda estrangeira; e a relativa melhora da área fiscal. A valorização do real diante do dólar é fator que tende a segurar a inflação.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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