TIAGO QUEIROZ | AE
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Com dívida de R$ 100 milhões, Daslu decide fechar loja após ordem de despejo

Empresa, que já foi considerada o maior templo do luxo no País, deve meses de aluguel da loja do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, e, segundo fontes, também tem atrasado os salários de funcionário

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2016 | 06h00

Depois de o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) determinar o despejo da Daslu do Shopping JK Iguatemi, a empresa, que chegou a ser o maior templo de comércio de luxo do País, anunciou ontem que fechará a loja no local. Trata-se de mais um capítulo na espiral de decadência da butique multimarcas que chegou a abrigar mais de 300 grifes de primeira linha do mundo todo. Com cerca de R$ 3 milhões em aluguéis atrasados – somente no JK –, o ‘Estado’ apurou que empresa também estaria enfrentando dificuldades para pagar salários de funcionários e teria dívida superior a R$ 100 milhões.

Liderada pela empresária Eliana Tranchesi, que faleceu em 2012, a empresa faturava alto até meados dos anos 2000, quando inaugurou a Villa Daslu. O edifício neoclássico, de 20 mil metros quadrados e construído ao custo de R$ 100 milhões, chegou a ter 700 empregados. Pouco mais de um mês após a inauguração do empreendimento, em 2005, a prisão de Tranchesi por sonegação fiscal, marcou o início do processo de declínio da empresa. Agora, afirmam fontes do mercado de luxo, a empresa, no seu estado atual, não seria mais economicamente viável.

Hoje, a Daslu se resume a três lojas – apesar do encerramento das atividades no JK, a empresa mantém pontos de venda no Shopping Cidade Jardim, em Ribeirão Preto e no Rio de Janeiro. A unidade de Brasília, embora ainda conste no site da companhia, já foi encerrada. Em nota, a Daslu anunciou o fechamento no JK – citando inflexibilidade de negociação dos atrasados –, mas disse que pretende abrir outra unidade em São Paulo em breve.

O Estado enviou um e-mail à Daslu com questionamentos sobre brigas societárias, dívidas e atrasos em salários, mas a empresa não quis falar sobre esses temas.

Disputa. O controle da Daslu atualmente está sob disputa. Em 2011, pouco antes do falecimento de Eliana Tranchesi e do fechamento da megaloja na Marginal Pinheiros, a Daslu foi comprada, por R$ 65 milhões, pelo fundo Laep, de Marcos Elias, empresário que enfrenta vários questionamentos na Justiça e que também foi dono da Parmalat no País. Em 2010, a companhia tinha entrado em recuperação judicial, com dívidas de R$ 80 milhões.

No início deste ano, o empresário Crezo Suerdieck, dono do DX Group, especialista na aquisição de ativos em dificuldades, tentou assumir a gestão da empresa com um aumento de capital de R$ 11 milhões. Mas a Justiça cancelou a operação.

Suerdieck afirmou ao Estado que, antes de o negócio ser inviabilizado pela Justiça, deixou a Daslu com R$ 1,5 milhão em caixa. Em fevereiro, o DX anunciou um projeto de revitalização da marca, com a ideia de criar franquias Daslu em cidades onde o comércio de luxo não é tão desenvolvido quanto em São Paulo e no Rio. A partir da decisão judicial, a proposta não foi para frente.

Diante das dificuldades para pagar as contas do dia a dia de sua operação, fontes de mercado afirmam que o principal ativo que restou à companhia foi a marca. Um consultor de empresas calcula que, a eventual venda do nome Daslu em um leilão poderia render um bom dinheiro. “Se a Rosa Chá foi vendida por R$ 10 milhões (à Restoque, dona da Le Lis Blanc e da Dudalina), a Daslu pode valer até mais”, comparou ele.

De acordo com uma fonte na área de branding, a relação não é tão direta. Enquanto a Rosa Chá era identificada como uma marca de moda praia, a Daslu, apesar de ter produtos próprios, sempre foi vista como uma “curadora” multimarcas. A loja também tinha um nome forte em uma época em que as redes luxo internacionais ainda não tinham unidades próprias no País. “Acho que é muito difícil que as ‘viúvas da Daslu’ sejam suficientes para salvar a marca”, disse a fonte.

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