HÉLVIO ROMERO/AE
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Com dívidas de R$ 3 bi, Renova Energia pede recuperação judicial

Empresa, controlada pela estatal mineira Cemig, vinha há algum tempo tentando vender ativos para resolver suas pendências

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2019 | 13h27

Em crise desde 2016, após uma parceria frustrada com a americana SunEdison, a Renova Energia entrou ontem em recuperação judicial. A empresa, controlada pela estatal mineira Cemig, vinha tentando se desfazer de ativos para conseguir honrar seus compromissos, mas não conseguiu chegar a um acordo e foi obrigada a recorrer à proteção judicial. O pedido inclui 61 empresas do grupo e envolve a renegociação de R$ 3,1 bilhões em dívida.

Na petição feita pela advogada Fabiana Solano, do escritório Felsberg Advogados, a empresa argumenta que um dos principais fatores que levou a pedir a recuperação judicial foi o fim das negociações com a AES Tietê na venda do parque eólico Alto Sertão III, na Bahia. Na semana passada, a multinacional americana anunciou a desistência da compra por divergências em relação às condições da vendedora. 

A Renova contava com a conclusão do negócio para reforçar o caixa e se recuperar. Segundo a empresa, “mesmo diante de sucessivos aportes e adiantamentos dos contratos de energia realizados por acionistas, não foi possível concluir o projeto”. Alto Sertão III está paralisado desde 2016 e tem 85% das obras concluídas. 

No total, foram gastos R$ 2,1 bilhões, sendo quase R$ 1 bilhão de dívidas com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) – originalmente, esse valor era de R$ 650 milhões referente a um empréstimo ponte que vem sendo renovado a juros altos. Para concluir o projeto, faltam R$ 450 milhões, apurou o Estado. Segundo a Renova, a paralisação ocorre porque os recursos originalmente destinados à finalização do projeto acabaram sendo consumidos em grande maioria por juros e amortizações das dívidas.

Por causa dos atrasos no projeto, o grupo tem sido obrigado a comprar energia no mercado à vista para cumprir seus contratos de fornecimento de energia. “Tal necessidade de compra de energia tem contribuído definitivamente para o endividamento do grupo Renova, ressaltando-se que, apenas no ano de 2018, a despesa com a compra de energia somou R$ 815 milhões”, disse a empresa, no pedido de recuperação.

Fontes ligadas ao processo afirmam que o fim das negociações com a AES Tietê foi um baque para a Renova e seus acionistas que vinham conversando com o BNDES para adiar o pagamento da dívida de R$ 1 bilhão, vencida dia 15. O banco já tinha aceitado prorrogar o vencimento para dezembro de 2021 desde que Cemig e Light (sócias do grupo) dessem novas garantias.

A princípio, as duas sócias aceitaram o acordo, mas na semana passada, após a desistência da AES Tietê, a Cemig mudou de ideia. Na sexta-feira, reuniu os conselheiros e apresentou a proposta de recuperação judicial. Agora o BNDES deverá executar a fianças bancárias de bancos privados equivalentes a 55% do valor da dívida (ou seja, cerca de R$ 550 milhões). 

A Light, por sua vez, decidiu vender, na segunda-feira, sua participação de 17% ao fundo CG I, dos sócios fundadores Ricardo Delneri e Renato do Amaral, por R$ 1. A presidente da Light, Ana Marta Horta Veloso, explicou que a empresa tinha cláusulas contratuais, chamadas de covenants, que não permitiam empresas controladas entrarem em recuperação judicial sob pena de anteciparem vencimentos. “A Light poderia sofrer um cross default em toda a sua dívida.” Ela afirma que há algum tempo a Light vinha tentando se desfazer de sua participação na Renova. “Foi um investimento que não deu certo.”

Parceria frustrada

Fundada em 2001, a Renova tem como sócios a estatal mineira Cemig e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Até 2015, a Renova era uma das empresas mais promissoras no setor elétrico, com um estoque de grandes projetos eólicos. Em junho de 2015, a empresa vendeu 14 parques eólicos à americana SunEdison, por cerca de R$ 1,6 bilhão. Desse valor, cerca de R$ 500 milhões entraram no caixa da empresa em dinheiro, e o pagamento restante foi em ações. 

O negócio, no entanto, foi frustrado com a entrada em recuperação judicial da empresa americana, em 2016. Com dificuldades financeiras nos Estados Unidos, os papéis da SunEdison caíram e a Renova teve de amargar perdas milionárias. Ao mesmo tempo, a empresa brasileira tinha projetos que já haviam entrado em leilão e precisava ser construída. No entanto, faltou dinheiro para cumprir todos os compromissos.

Desde então, a Renova vem se desfazendo de seus parques eólicos para fazer frente aos compromissos. Alto Sertão I foi vendida para a canadense Brookfield e Alto Sertão II, para a AES Tietê. As duas multinacionais chegaram a negociar a compra de Alto Sertão III, mas desistiram. Boa parte do dinheiro conseguido com as vendas foi usado para pagar dívida com o Banco do Brasil, diz uma fonte ligada à empresa.

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