Com dólar a R$ 2, BC intervém menos

Em seis meses, número de atuações do Banco Central para conter alta da moeda americana é menor do que para segurar valorização do real

ADRIANA FERNANDES , EDUARDO CUCOLO , BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2012 | 02h04

O dólar acima de R$ 2 acaba de completar seis meses, um período em que o Banco Central interveio, na maioria das vezes, para evitar a alta e não a queda na moeda americana. A ação do governo desde maio foi justamente o contrário da política adotada nos quatro primeiros meses deste ano.

Entre janeiro e abril, praticamente todas as ações foram no sentido de empurrar para cima a cotação da moeda estrangeira, com objetivo de favorecer a indústria nacional. Desde então, avaliam fontes do governo, o dólar tem subido muito mais como consequência do movimento do mercado do que pela ação estatal.

Desde o dia 18 de maio, na primeira vez neste ano em que o dólar superou a marca de R$ 2 no fechamento do dia, o Banco Central fez 19 intervenções no mercado de câmbio. Em 12 leilões, a instituição ofertou contratos de swap cambial tradicional, que são operações no mercado futuro equivalentes à venda de moeda e têm como objetivo evitar a alta do dólar.

A autoridade monetária também parou de intervir no mercado à vista, do qual está fora desde abril, após fazer quase 30 leilões no primeiro quadrimestre e comprar US$ 18 bilhões.

Para uma fonte da área econômica ouvida pelo Estado, a quantidade menor de intervenções do governo depois que a cotação do dólar se estabilizou acima de R$ 2 corrobora as declarações do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de que não há uma banda cambial predeterminada. "O próprio mercado está determinando a taxa", disse Tombini.

Regra clara. A fonte destaca que o governo já deixou clara a regra do jogo de que a política cambial é de "flutuação suja", mas não há uma estratégia deliberada da equipe econômica de adotar uma meta para a taxa de câmbio de R$ 2,30 até o final de 2014.

"As regras estão claras. Quem está confundindo as coisas é o mercado", destaca a fonte. O governo não esconde, porém, que a taxa de câmbio "não está em posição totalmente satisfatória", como admitiu o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Nos últimos 30 dias, período em que o dólar saiu de R$ 2,02 e chegou a ultrapassar R$ 2,10, a única intervenção do Banco Central foi na sexta-feira passada, para trazer a moeda de volta para baixo desse patamar.

A possibilidade de atuação do Banco Central já havia sido antecipada pela Agência Estado na semana anterior, depois que o dólar subiu 1,07% no dia 13, de R$ 2,052 para R$ 2,0740.

Além disso, desde que o dólar chegou a R$ 2, a única medida anunciada pelo Ministério da Fazenda na área cambial teve como objetivo reduzir o alcance do aumento de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para o capital externo, em um momento em que o Banco Central também agia para evitar que o dólar subisse para o patamar de R$ 2,10, em meados de junho.

O governo tem atuado, no entanto, verbalmente, ao afirmar que o piso de R$ 2 veio para ficar. Mantega já declarou que a alta recente é normal, provocada por movimentos de mercado que têm afetado outras moedas. "O câmbio está flutuando. Assim como o real se desvalorizou, todas as outras moedas também caíram em relação ao dólar", disse ele.

Na avaliação de uma fonte do Ministério da Fazenda, os efeitos de médio prazo esperados com a mudança do patamar da taxa de câmbio em relação ao crescimento começam agora a aparecer, contribuindo para a expansão da demanda agregada.

É o contrário do que ocorreu no início do processo de desvalorização do real, quando a mudança teve um efeito contracionista sobre a demanda. "Depois de seis meses com o dólar acima de R$ 2, o médio prazo está chegando", disse a fonte.

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