Werther Santana/Estadão - 31/3/2020
Werther Santana/Estadão - 31/3/2020

Com dólar alto e pandemia, gasto no exterior é o menor para abril em 21 anos

Despesas de brasileiros em outros países somaram US$ 203 milhões no mês passado, uma queda de 86,4% em relação ao mesmo mês de 2019

Fabrício de Castro e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2020 | 11h56

BRASÍLIA - Com a redução drástica no número de viagens devido à pandemia do novo coronavírus, as despesas de brasileiros no exterior em abril ficaram em US$ 203 milhões, o menor valor para o mês desde 1999, segundo dados do Banco Central divulgados nesta terça-feira, 26. A queda foi de 86,4% em relação a abril do ano passado.

Os gastos de estrangeiros no País também caíram de forma dramática e somaram US$ 113 milhões em abril, o pior resultado para o mês de 1997. O recuo foi de 76,1% ante abril de 2019.

O chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha, ressaltou que o setor de turismo e viagens é um dos mais afetados pela crise provocada pela covid-19.

A imposição de medidas de isolamento social, na tentativa de conter o avanço da doença, que ainda não tem cura nem vacina atestadas por pesquisadores, levou a uma redução na oferta de voos e menores gastos com viagens. O Brasil também fechou fronteiras com países vizinhos.

Além disso, o dólar registra no ano uma grande valorização ante o real. Em abril, a moeda norte-americana fechou o mês cotada em R$ 5,4387, alta de 4,66% ante março. O salto acumulado no ano estava em 35,57%.

Segundo Rocha, o desempenho tímido da conta de viagens deve se manter em maio, com baixo movimento de turistas tanto para o exterior quanto vindo para o Brasil. Os resultados parciais do BC, com dados até o dia 21 deste mês, mostram que as despesas dos brasileiros no exterior estavam em US$ 177 milhões, enquanto os gastos dos estrangeiros aqui no País somavam US$ 98 milhões.

Puxada por exportações, contas externas têm superávit de US$ 3,8 bilhões

No geral, as contas externas do Brasil registraram superávit de US$ 3,840 bilhões em abril deste ano. Foi o melhor resultado para todos os meses desde o início da série histórica da instituição, em janeiro de 1995. Até então, o maior valor havia sido registrado em julho de 2006 (US$ 3 bilhões).

O resultado de transações correntes, um dos principais sobre o setor externo do país, é formado pela balança comercial (comércio de produtos entre o Brasil e outros países), pelos serviços (adquiridos por brasileiros no exterior) e pelas rendas (remessas de juros, lucros e dividendos do Brasil para o exterior).

O saldo positivo das contas externas de abril é fruto da melhora do resultado da balança comercial brasileira, que registrou superávit (exportações menos importações) de US$ 6,7 bilhões – impulsionada pelas vendas externas de produtos básicos, como alimentos e petróleo, tendo os países asiáticos como principais destinos.

Além disso, houve um déficit menor nas contas de serviços e renda por conta do desaquecimento da economia mundial e do fechamento de fronteiras – este último fator contribuiu para o menor gasto de brasileiros no exterior em 21 anos.

Nos quatro primeiros meses deste ano, ainda segundo dados do BC, a conta de transações correntes apresentou um déficit de US$ 11,877 bilhões – com queda de 30% frente ao mesmo período do ano passado, quando o rombo nas contas externas somou US$ 16,953 bilhões.

Em todo ano passado, o déficit das contas externas do Brasil subiu 22%, para US$ 50,762 bilhões.

Para todo ano de 2020, a expectativa do Banco Central é de um déficit menor por conta da pandemia do novo coronavírus, que chegaria a US$ 41 bilhões.

Investimento estrangeiro

O Banco Central também informou que os investimentos estrangeiros diretos na economia brasileira somaram US$ 234 milhões em abril, no que foi o pior resultado, para um mês fechado, desde setembro de 2005 (US$ 95 milhões). Com isso, foi o menor ingresso em quase 15 anos.

O chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha, lembrou que os investimentos diretos costumam ser mais constantes do que as aplicações financeiras, ou seja, apresentar variação menor mês a mês.

"Os investimentos estrangeiros reúnem operações com características mais constantes, de longo prazo. Olhando para as operações [de abril, que registraram forte queda], são um movimento que parece ser, a percepção que temos, é que se trata de um adiamento das operações em um mês que concentraram muitas incertezas", declarou ele.

Nos quatro primeiros meses deste ano, ainda de acordo com o Banco Central, os investimento diretos somaram US$ 18,043 bilhões – com queda de 22,9% frente ao mesmo período de 2019 (US$ 23,395 bilhões).

Com isso, os investimentos estrangeiros ainda foram suficientes para cobrir o rombo das contas externas no acumulado deste ano (US$ 11,877 bilhões).

Quando o déficit não é "coberto" pelos investimentos estrangeiros, o país tem de se apoiar em outros fluxos, como ingresso de recursos para aplicações financeiras, ou empréstimos buscados no exterior, para fechar as contas.

Em todo ano passado, os investimentos estrangeiros diretos na economia brasileira somaram US$ 78,559 bilhões em 2019, com pequena alta frente ao ano anterior.

Para 2020, o Banco Central estima um ingresso de US$ 60 bilhões em investimentos estrangeiros diretos na economia brasileira.

 

 

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