Com dólar alto, mais empresas devem recorrer ao 'hedge'

A mineradora Vale está entre as companhias que cogitam usar recurso para amenizar efeito do câmbio no balanço

O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2013 | 02h11

O novo patamar do dólar, acima de R$ 2,25, deve levar outras companhias com receita e dívidas em dólar a adotar a contabilidade de hedge para amenizar o efeito da desvalorização do real em suas contas, dizem analistas. Para esses profissionais, uma dessas companhias deve ser a Vale, cujo lucro líquido no segundo trimestre deste ano, de US$ 424 milhões, ficou abaixo das expectativas de mercado e foi 84% menor que o verificado no mesmo período de 2012.

O presidente da Vale, Murilo Ferreira, disse anteontem, em teleconferência com analistas e investidores, que a empresa decidiu não usar no segundo trimestre a prática para não parecer uma medida "casuística". Ele admitiu, porém, que a empresa avalia o uso da prática como forma de minimizar a volatilidade de seu lucro contábil.

Estudos preliminares da companhia apontam que a adoção do programa com relação ao passivo financeiro líquido reduziria a perda com variação cambial em aproximadamente US$ 2 bilhões no segundo trimestre.

Para Álvaro Bandeira, sócio da gestora de recursos Órama, a tendência é as companhias buscarem mecanismos dentro do novo padrão contábil que reduzam a volatilidade do câmbio em seus balanços.

"Não importa muito a tendência do câmbio, pois as empresas, de alguma maneira, vão encontrar uma forma de se proteger. O problema está na volatilidade. Isso é que acaba com as previsões de fluxos", afirmou. Segundo ele, a volatilidade acaba inibindo investimentos.

Segundo César Lauro, responsável pela área de gestão de riscos da Capitânia, a adoção da contabilidade de hedge para a dívida em moeda estrangeira por companhias como a Petrobrás tende a aumentar o interesse de outros grupos pela prática. Lauro explica que esse é um processo lento, que exige alinhamento interno com o conselho de administração e fiscal, bem como o estudo das consequências desse artifício no médio e longo prazos. "O resultado da variação cambial não registrado hoje fica represado no patrimônio líquido e será registrado no futuro", diz.

Na contramão. A Marfrig, entretanto, não cogita adotar a contabilidade de hedge tão cedo. O presidente da Seara Foods e futuro presidente (CEO) da Marfrig, Sergio Rial, afirmou que "a prática contábil tem uma série de vantagens, mas operacionalmente é complicado". Em teleconferência, ele disse que "o mercado é inteligente o suficiente para entender a volatilidade cambial nos resultados".

Foi justamente a desvalorização do real e seu efeito negativo na dívida em moeda americana o grande causador do prejuízo líquido de R$ 159,9 milhões da Marfrig no segundo trimestre - que exclui, por exemplo, a Seara Brasil, vendida à JBS.

Outra empresa do setor de alimentos, a BRF, já adota a contabilidade de hedge desde 2010. Conforme a empresa, "a prática contábil segue possibilitando reduções significativas na exposição líquida de balanço em moeda estrangeira, em sincronia entre os fluxos das obrigações em dólar e os embarques de exportação".

No segundo trimestre, a empresa registrou lucro líquido de R$ 208 milhões, montante 3.163% maior que os R$ 6 milhões do mesmo período de 2012. Já a Vanguarda Agro adota a contabilidade de hedge desde 1º de agosto. / E.O e M.C.

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