Com dólar alto, reajustes de energia podem chegar a 20%

A alta do dólar nos últimos meses será o principal fator de pressão sobre as tarifas das distribuidoras que compram energia de Itaipu Binacional em moeda americana. Com a cotação na casa de R$ 3,87 (sexta-feira), a tendência é que os próximos reajustes concedidos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) sejam calculados em torno de 20%, segundo levantamento de analistas do setor. Nesta semana, três concessionárias terão os porcentuais de aumento autorizados pelo órgão regulador: Bandeirante e Piratininga, que atendem municípios do interior de São Paulo, e Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), no Rio Grande do Sul. A concessão desses reajustes dará uma amostra do impacto do câmbio sobre as tarifas de energia, neste ano e em 2003. Até dezembro, outras quatro distribuidoras receberão reajustes, entre elas Light, em novembro, e Cerj, em dezembro - ambas do Rio. O analista do BBA, Marcos Severine, calcula que a variação do dólar impactará em mais de 60% os custos não administrados pelas empresas, que incluem energia comprada, impostos e encargos setoriais. A participação desses custos nos reajustes tarifários, em alguns casos, superam 80% do índice autorizado pela Aneel. Um exemplo é a Eletropaulo Metropolitana, que, em julho, quando o dólar ainda estava abaixo de R$ 3,00, teve um reajuste de 14,23%. Desse reajuste, 11,75 pontos porcentuais se referiam a custos não administrados pela empresa. ReajusteO índice autorizado pela Aneel vai depender do nível do câmbio no último reajuste. Segundo o analista do Unibanco, Sérgio Tamashiro, quanto menor for a taxa de câmbio na época maior será o aumento este ano. Isso porque as empresas tiveram de carregar durante todo o período a variação do dólar sem poder repassar o montante para as tarifas. A Cemig, por exemplo, que teve seu reajuste em abril deste ano, baseado na co´tação do dólar de R$ 2,30, poderá ter um aumento em 2003 acima de 20%. Já para a Light, cuja tarifa será reavaliada no começo de novembro, a previsão é de uma alta entre 15% e 18%. Prevendo os altos reajustes, o governo já reviu para 20,7% a previsão de reajuste de energia para o próximo ano. O impacto do dólar sob as tarifas é mais crítico nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, que são abastecidas pela Hidrelétrica de Itaipu. A energia vendida pela usina binacional é cotada em dólar e, portanto, sofre as oscilações da moeda estrangeira. Esse é um dos principais itens debatido pelos candidatos à presidência da república, passível de mudanças. A intenção é converter essa energia, hoje vendida em dólar, para reais. Mas a mudança é polêmica, explica o analista do Banco Pactual, Pedro Batista. DébitoSegundo ele, a tarifa de Itaipu é vendida em dólar porque as dívidas da usina estão atreladas à moeda americana. O débito é de US$ 20 bilhões, sendo US$ 14 bilhões com o Tesouro e US$ 6 bilhões com a Eletrobrás. Transformar a tarifa para reais significaria menos dinheiro no cofre público. Além disso, as contas do governo ficariam mais "descasadas" com o dólar. Por outro lado, há a questão inflacionária, impactada pela alta da moeda americana. O preço da energia de Itaipu - que terá queda de 15% em 2003 - é determinado pelos custos que a usina tem de cobrir, inclusive amortização da dívida. "O resultado contábil sempre tem de dar zero; a empresa tem de empatar perdas e ganhos", afirma Pedro Batista. A redução anunciada semana passada somente foi possível porque a hidrelétrica terminará de pagar em dezembro dívidas vencidas, que começou a quitar em 1997, explica o diretor da usina, Rubens Guillard. No total, foram US$ 400 milhões, sendo US$ 150 milhões pagos só neste ano. A energia comprada da usina é paga a cada dez dias pelas distribuidoras. Toda variação do dólar, para cima ou para baixo, é contabilizada na Conta de Compensação de Variação de Valores de Itens da Parcela A (CVA) e repassada para a tarifa na data dos reajustes.

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