Ramiro Furquim/ESTADÃO
Ramiro Furquim/ESTADÃO

Com dólar caro, MBA já custa R$ 1 milhão

Preços de cursos no exterior disparam e levam brasileiros a mudar planos ou mesmo a retornar

Niviane Magalhães, Anna Carolina Papp, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2015 | 16h14

A mudança no patamar do dólar, que avançou 60% em um ano em relação ao real e ultrapassou a barreira dos R$ 4 no mês passado, interrompeu um sonho de muitos brasileiros: estudar no exterior. De uma hora para outra, as mensalidades se agigantaram, obrigando estudantes a procurar novas fontes de renda ou mesmo a desistir e retornar ao País.

Em 2014, o administrador Flavio Cairoli, de 25 anos, resolveu fazer um MBA nos Estados Unidos, para ganhar exposição global. “Eu tinha investimentos em propriedades que me renderam o suficiente para juntar com outras economias e investir na carreira”, afirma Cairoli, que estuda na Escola de Negócios da Universidade de Duke, na Carolina do Norte. O orçamento, porém, foi feito com dólar a R$ 2,30. Com a disparada da moeda americana, hoje na casa dos R$ 4 para o turista, ele viu o valor de seu MBA, que custará US$ 225 mil em dois anos, chegar perto de R$ 1 milhão.

Para pagar a conta milionária – além dos custos para se manter, que também aumentaram –, Cairoli não descarta pegar um empréstimo. Ele havia poupado em reais, mas agora pretende procurar um emprego para ganhar em dólar e pagar o empréstimo em 10 ou 20 anos. “Infelizmente, o Brasil não oferece incentivos para a pessoa retornar, muito menos para pagar esse investimento todo. Os salários estão muito abaixo da média global”, diz o administrador.

Boa parte, porém, não consegue bancar a dívida e tem de retornar ao País. É o caso de Bruno Bernal, de 19 anos, que no ano passado embarcou para os Estados Unidos para cursar negócios internacionais na Universidade de Kennesaw, na Georgia. Ele havia sido aprovado em três universidades brasileiras no curso de engenharia de produção – entre elas, uma pública. Como o dólar estava em torno de R$ 2,60, optou por seguir o sonho de estudar fora.

Com a recente valorização do dólar, o estudante decidiu voltar ao Brasil. “A iniciativa foi minha. Meus pais estavam dispostos a me apoiar em qualquer decisão, porém ao mesmo tempo eu sabia que ainda dependia deles e não gostaria de deixá-los pagando um preço tão alto por causa de uma crise no Brasil”, diz ele, que voltou no mês passado. No momento, o curso permanece trancado. “Pretendo voltar algum dia, mas como uma segunda opção. Agora, vou começar uma faculdade no Brasil como forma de me prevenir.”

A gaúcha Debora Hackmann também viu seu sonho ser interrompido por causa da desvalorização cambial. Depois de passar em cinco universidades nos Estados Unidos no ano passado, com apenas 18 anos, ela optou por estudar empreendedorismo na Universidade de Indiana. Quando a decisão foi tomada, o dólar valia R$ 2,35. Em setembro, porém, o valor do curso, de quatro anos, ultrapassou R$ 800 mil – o que ficou inviável para a família. “No meu terceiro dia de aula, recebi a ligação dos meus pais explicando com mais detalhes a situação econômica do Brasil e dizendo que eles não conseguiriam mais arcar com os custos, uma vez que a perspectiva de melhora era baixa”, diz. Debora voltou para o País no mesmo mês, após tentativas frustradas de bolsas ou empregos melhores para se manter.

Sem previsão de volta, a estudante está focada nos vestibulares no Brasil, mas não desistiu do sonho. “Com a ajuda da minha família americana, montamos uma vaquinha online para arrecadar US$ 115 mil. Até o momento, conseguimos US$ 1.750. Não devo conseguir o valor total, pois ela vai expirar em breve, mas já fiquei feliz por ver tantas pessoas sensibilizadas e me incentivando”, conta. 

A passeio. Nem bolsas de estudo foram suficientes para manter os planos dos brasileiros. Maria Alice Palazzi, de 17 anos, planejava ir aos EUA cursar uma especialização em negócios e relações internacionais, e de fato foi – mas só a passeio. “Não irei em janeiro (para estudar) por causa das taxas da faculdade com esse dólar absurdo”, diz. “Já tinha planejado viajar em outubro para conhecer o câmpus, então vim. Se eu cancelasse, sairia mais caro.” Mesmo com bolsa de 70%, o custo anual do curso, de quatro anos, foi a R$ 80 mil. “Vou prestar a prova de novo em dezembro para tentar 100% de bolsa”, diz. “Senão, sem chance – a não ser que ocorra um milagre.”

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