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Juros

E-Investidor: Esperado, novo corte da Selic deve acelerar troca da renda fixa por variável

Com empurrão da crise, ativos de grandes bancos chegam a R$ 7,363 trilhões e superam PIB

Resultado é registrado em meio à expansão do crédito, principalmente para grandes empresas, que buscam recursos para enfrentar a crise provocada pela pandemia

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2020 | 10h27

Correções: 22/05/2020 | 13h07

Os cinco maiores bancos brasileiros têm em mãos recursos equivalentes à toda a economia brasileira. Turbinado pelo aumento de crédito para suprir a demanda maior durante a pandemia de coronavírus, o volume de ativos totais das instituições financeiras atingiu R$ 7,363 trilhões ao fim de março, superando, pela primeira vez, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que foi de R$ 7,3 trilhões em 2019, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicados em março. 

O resultado ocorreu em meio à expansão do crédito, enquanto a economia brasileira tenta ganhar tração. Do fim de 2017 para cá, a correlação crédito/PIB subiu de 47,1% para 48,9%, segundo o Banco Central. Se for considerado apenas o crédito livre, com o qual os grandes bancos atuam, o avanço foi ainda maior: subiu de 23,6% para 28,8%.

O presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, afirmou que o aumento na proporção entre ativos dos bancos e o PIB tem correlação direta com a expansão do crédito vista no País nos últimos anos, frente ao desempenho econômico. "Esse aumento na relação crédito/PIB não é sinônimo de maior rentabilidade ou lucro", diz.

Além disso, em momentos de crise os bancos atraem maior volume de depósitos, uma vez que o investidor busca mais segurança, de acordo com Claudio Gallina, diretor sênior de instituições financeiras da Fitch Ratings para América Latina. "Assim, a liquidez do sistema (que já vinha muito boa e robusta) aumenta mais", disse. "Isso indica que os bancos teriam até mesmo mais dinheiro para emprestar."

Com a crise, o crédito ganhou impulso adicional com a explosão da demanda em cima dos grandes bancos. O saldo conjunto dos empréstimos nos cinco maiores bancos brasileiros cresceu quase R$ 176 bilhões no primeiro trimestre em relação ao fim de dezembro, totalizando R$ 3,312 trilhões. Em um ano, o aumento foi de quase R$ 348 bilhões.

O salto nas carteiras foi capitaneado, principalmente, por empréstimos a grandes empresas, que precisam de liquidez para enfrentar a crise. O movimento foi acompanhado por uma enxurrada de críticas aos grandes bancos, por restringirem o crédito e elevarem juros em meio à turbulência, a despeito da injeção de R$ 1,2 trilhão de liquidez em medidas do Banco Central para apoiar o sistema financeiro no enfrentamento da covid-19.

Os bancos anunciaram uma série de medidas de apoio financeiro, mas admitem que, diante da piora do risco na economia, é natural maior rigor no crédito.

O presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, afirmou esta semana não ser possível o crédito crescer no mesmo ritmo da demanda, que deve se reduzir daqui para frente. "O crescimento do crédito será muito mais baixo, se é que haverá crescimento em 2020", disse, durante transmissão ao vivo.

Os bancos já concederam mais de R$ 540 bilhões em créditos na pandemia, segundo balanço da Febraban, considerando novos empréstimos, renovações e postergações de parcelas. Para os próximos meses, a expectativa é de que o crédito novo ceda espaço a uma onda de renegociações de dívidas e reestruturações por parte de empresas que viram seu faturamento despencar.

"Um dos principais riscos para os bancos ainda é, naturalmente, a situação financeira das empresas, ou seja a dificuldade na previsibilidade em termos de geração de caixa", disse Gallina, da Fitch.

No segmento de pessoa física, a demanda por crédito caiu no primeiro trimestre, mudando a dinâmica vista até então. Esse movimento deve continuar, com o aumento do desemprego e a perda de renda.

A queda, principalmente no financiamento imobiliário, obrigou a Caixa Econômica Federal a rever suas projeções. "De fato, a crise muda toda a dinâmica. A demanda de crédito vem sendo totalmente diferente. Estamos avaliando", afirmou Pedro Guimarães, presidente do banco público, em coletiva de imprensa, para comentar os resultados do banco no primeiro trimestre.

Proteção contra calote

A pandemia também fez os bancos ampliarem os recursos reservados para compensar perdas, com temor quanto ao impacto futuro na inadimplência. A leitura, ao menos até aqui, é de que a crise será bem mais severa que as anteriores, incluindo a desencadeada pela Operação Lava Jato e ainda a turbulência financeira de 2009.

O reforço nas provisões custou mais os bancos. No primeiro trimestre, as despesas com provisões para devedores duvidosos, as chamadas PDDs, passaram dos R$ 30 bilhões, um salto de cerca de 45% em relação aos três meses anteriores.

Dos cinco grandes, somente Santander e Caixa não fizeram o movimento de criar colchões para perdas adicionais por conta da crise. "O balanço da Caixa é, continua e continuará extremamente sólido", afirmou Guimarães.

Como consequência de uma postura mais conservadora por parte da maior parte dos bancos, o lucro líquido combinado de Itaú, Bradesco, Satander, BB e Caixa encolheu 25,6% no primeiro trimestre, para menos de R$ 18 bilhões, na comparação com o mesmo período de 2019, quando foi de mais de R$ 24 bilhões. "Mesmo mantendo níveis confortáveis de solidez, liquidez e capitalização, a atual crise também atingiu o setor bancário", afirmou Sidney.

Em uma perspectiva de médio e longo prazo, o CEO e fundador da Mauá Capital e ex-diretor do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo, vê maior pressão por parte das fintechs na disputa por recursos com os grandes bancos, que foi comprometido na crise. Os próprios pesos pesados do setor admitem que a trégua é temporária.

"Com os reflexos do juro mais baixo, mais decente, e uma maior concorrência vinda das fintechs, o Brasil está se tornando mais normal, mas a crise atrapalhou", disse. 

Correções
22/05/2020 | 13h07

Ao contrário do que dizia o título da reportagem, o total de ativos dos bancos no primeiro trimestre foi de R$ 7,363 trilhões 

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