Com estiagem e pressão de caixa, Light quer R$ 1 bilhão emprestado

Companhia precisa de empréstimo por causa do desconto na conta de luz e da necessidade de comprar energia mais cara

Andreza Matais e João Villaverde,

13 de março de 2014 | 16h25

BRASÍLIA - Pressionada a comprar energia mais cara, devido à estiagem, e com menos recursos em caixa depois do desconto na conta de luz, a holding de empresas que controlam geração, transmissão, distribuição e comercialização de energia no Rio de Janeiro, o Grupo Light decidiu contratar um empréstimo bancário de aproximadamente R$ 1 bilhão para "atravessar o ano". A cúpula da instituição, segundo apurou o Estado, aprovou na segunda-feira a busca do empréstimo junto a um pool de bancos, predominantemente privados. A tática foi formalizada na reunião do conselho de administração da concessionária ocorrido no dia 10 de março.

"Conseguiremos taxas de juros atrativas, mas é evidente que estamos trazendo para dentro da companhia um custo financeiro que, se não fosse a desestruturação do setor elétrico brasileiro verificada desde 2012, não seria necessário", afirmou uma fonte graduada da companhia.

Pressionada por um custo operacional considerado "explosivo" pela direção da companhia, devido à forte estiagem verificada no País desde o fim do ano passado, a Light tem sofrido, também, com a receita em baixa. A conta de luz está sendo mantida em patamar baixo desde o início de 2013, quando o governo Dilma Rousseff reformulou o marco regulatório do setor para permitir o desconto. Desde então, os consumidores pagam uma tarifa menor e, consequentemente, as distribuidoras recebem menos dinheiro pela energia que vendem. Com a estiagem, as companhias não conseguem das hidrelétricas toda a energia que repassam aos clientes, por isso precisam comprar o que falta no mercado livre, onde o preço da energia é muito mais alto.

Fontes com conhecimento da decisão do conselho ouvidas pela reportagem avaliam que o empréstimo bancário é uma modalidade cara para financiamento da empresa, mas argumentam que era imprescindível levantar o dinheiro diante dos problemas no setor elétrico. De fato, empréstimos bancários costumam exigir juros maiores que outras formas de aporte em empresas, como a venda de debêntures no mercado ou captação externa, como fez a Petrobrás recentemente, por exemplo. A preferência pelo empréstimo se deve à maior necessidade de capital diante de custos crescentes e receitas em queda.

Com a estiagem prolongada - que inclusive tem aumentando os riscos de racionamento de energia no País -, o preço tem sido negociado no mercado à vista nos últimos meses no teto permitido pelo governo, de R$ 822 por megawatt (MWh). Contribui para o cenário o aquecimento do consumo, estimulado pela redução da conta de luz e cortes de impostos sobre eletrodomésticos.

Descapitalizadas, as distribuidoras receberam uma ajuda de custo do Tesouro Nacional ao longo de todo o ano passado para custear os gastos com as usinas térmicas. Neste ano, até agora, o governo repassou apenas uma parcela, de R$ 1,2 bilhão, relativa ao descasamento de custos em janeiro. Os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e o secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Marcio Zimmermann, anunciam medidas para o setor às 17h30. Os custos totais das concessionárias são estimados pelo setor privado em até R$ 20 bilhões para 2014.

As companhias maiores, que contam também com braços de geração e transmissão de energia, como a Light, conseguem atenuar as dificuldades por meio de geração própria. Mas a demanda por energia tem sido muito superior à capacidade de oferta, pressionando o fluxo de caixa de todo o mercado elétrico.

De acordo com uma fonte qualificada, a decisão da Light de ir ao sistema bancário buscar dinheiro para sustentar sua operação "será o início de um processo generalizado no Brasil".

Procurada pela reportagem, a Light decidiu não se pronunciar.

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