Mariana Bazo/Reuters
Mariana Bazo/Reuters

Com ex-presidente preso, Peru cria 'Comissión Lava Jato'

Congresso monta grupo para investigar atuação das empreiteiras no país; Ministério Público diz que trabalho é político

Fernando Nagakawa, enviado especial, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2018 | 05h00

LIMA - O procurador-geral da Nação do Peru, Pablo Sánchez Velarde, diz abertamente ter sofrido críticas e acusações de grupos políticos depois de o Ministério Público levar para cadeia um ex-presidente peruano, agir para o pedido de prisão de outro ex-ocupante do Palácio do Governo e ainda investigar dois outros ex-chefes do Executivo. “Eles sabem que nós vamos investigá-los”.

“Temos um grupo de 30 procuradores e estamos indo muito bem na investigação vinculada à Lava Jato. Não se sente a pressão política, mas há forte opinião contra nosso trabalho no mundo político. Dizem que estamos investigando mal e fazendo perseguição”, disse o procurador ao Estadão/Broadcast.

O trabalho dos procuradores, liderado por Sánchez Velarde, gerou impacto político nunca visto no Peru. A investigação que envolve a maior empreiteira brasileira já levou para a cadeia o ex-presidente Ollanta Humala acusado de receber US$ 3 milhões de caixa dois da Odebrecht. 

Há, ainda, pedido de prisão para Alejandro Toledo que teria ficado com outros US$ 20 milhões pela construção da rodovia Interoceânica, que liga o Brasil ao Peru, mas está foragido nos Estados Unidos.

Outros dois ex-presidentes – Alan García e Pedro Pablo Kuczynski – são investigados, sendo que o último renunciou no mês passado

em meio à apuração das autoridades de que ele teria recebido dinheiro da Odebrecht quando ainda era ministro de Toledo, entre 2005 e 2006. 

+ Odebrecht deve quase R$ 1 bilhão no Peru

Reação política. Diante de tantos nomes envolvidos no esquema, houve clara reação política – a exemplo do que ocorre no Brasil. No Congresso, há uma investigação que se autoproclama “Comissión Lava Jato”, em alusão à operação brasileira. “Essa comissão faz uma investigação política. A nossa é técnica, jurídica e penal”, rebate o procurador-geral Sánchez Velarde.

Modelo perverso. Presidida por uma deputada ligada ao grupo do ex-presidente Alberto Fujimori, a comissão é acusada de usar a investigação para prejudicar opositores aos fujimoristas. 

A presidente da comissão, a deputada Rosa Bartra, faz parte do partido de Fujimori, a “Força Popular”. A congressista se defende dizendo que o grupo tem sete deputados multipartidários.

“As empreiteiras institucionalizaram no meu país um modelo brasileiro perverso de corrupção. Essas empresas compravam servidores públicos e políticos para ganhar projetos”, acusa a deputada, que dispara abertamente contra as empreiteiras. 

A imprensa peruana cita que, durante a eleição de 2011, a Odebrecht fez doações aos dois candidatos: Ollanta Humala, atualmente preso, e a Keiko Fujimori, principal nome do grupo político de Rosa Bartra e que perdeu a eleição. Keiko já foi interrogada pelos procuradores que investigam o caso Odebrecht. 

Enquanto Rosa Bartra dispara contra as empresas, a investigação do Ministério Público tem focado principalmente políticos e gestores das empreiteiras. 

Além das empresas, a deputada também acusa o próprio Ministério Público de falta de transparência e não colaborar com o trabalho de investigação. A acusação é respondida pelo procurador-geral. 

“Colaboramos com o que podemos colaborar. Há informação que não podemos repassar ao Congresso simplesmente porque há partidos e políticos de lá que estamos investigando”, diz. 

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