Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Com exterior avesso a risco, Bolsa cai e dólar sobe

Preocupações com a China, com a Itália e com desdobramentos do Brexit contribuem para a desvalorização das bolsas pelo mundo

Karla Spotorno, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2018 | 11h08
Atualizado 23 de outubro de 2018 | 19h15

O cenário externo adverso interrompeu nesta terça-feira, 23, uma sequência de queda do dólar e a moeda norte-americana fechou em alta de 0,36%, a R$ 3,7013. Na reta final para a eleição, as mesas de operação seguiram monitorando os eventos da corrida presidencial, mas a agenda foi fraca internamente e o dia foi marcado por aumento da aversão ao risco no mercado financeiro internacional, causado pela Itália, que teve sua proposta de orçamento para o ano que vem rejeitada pela Comissão Europeia.

O dólar chegou a bater em R$ 3,72 durante os negócios pela manhã e acabou desacelerando o ritmo de queda na parte da tarde, com a relativa melhora do quadro lá fora na parte da tarde. 

"Neste momento, a maior ameaça para a recuperação dos ativos brasileiros continua vindo do exterior", avalia o diretor da Wagner Investimentos, José Faria Júnior. Faltando apenas três pregões para a eleição, o executivo ressalta que tudo aponta para a vitória de Jair Bolsonaro (PSL). Por isso, o mercado vai querer ver os resultados da pesquisa do Ibope que sai na noite de hoje, mas dificilmente os números devem influenciar os preços na sessão de amanhã, a menos que venham com alguma diferença importante dos últimos levantamentos. 

O operador de câmbio da corretora Spinelli, José Carlos Amado, aponta que o mercado deve operar cauteloso esta semana e, a menos que haja um noticiário forte, o dólar deve continuar a rondar os R$ 3,70. Segundo ele, o câmbio deve seguir tendo reações pontuais a notícias locais e ao exterior, como ocorreu hoje. "A tendência é continuar rondando os R$ 3,70, sem uma direção concreta específica, no caso de não haver noticiário forte. E reagindo pontualmente a fluxo ou ao cenário externo", diz. 

O economista sênior do grupo holandês financeiro ING, Paolo Pizzoli, avalia que os desdobramentos recentes mostram que não deve haver solução de curto prazo para a questão orçamentária italiana, o que deve seguir pressionando os mercados europeus e, consequentemente, os mundiais. Ele ressalta em relatório a investidores que o país europeu já teve o rating soberano recentemente rebaixado pela Moody's e mesmo assim mostrou pouca disposição em rever seu orçamento, que prevê déficit três vezes acima do acordado com a Comissão Europeia. 

Bolsa

O cenário internacional avesso ao risco impôs um pregão de baixas na Bolsa brasileira nesta terça-feira. Sob essa influência, o Ibovespa chegou a cair 1,83% pela manhã, mas absorveu boa parte dos ajustes e terminou o dia em baixa mais amena, de 0,35%, aos 85.300,03 pontos. 

Os mercados internacionais refletiram um conjunto de preocupações ao longo do dia, desde a crise orçamentária na Itália até a tensão geopolítica envolvendo a Arábia Saudita. Também continuaram como focos de preocupação as questões relacionadas à desaceleração da economia chinesa e à política monetária dos Estados Unidos. Assim, as bolsas da Europa e dos Estados Unidos amargaram perdas, enquanto a procura por títulos do Tesouro dos Estados Unidos aumentou, dada a busca dos investidores por ativos conservadores. 

À tarde, as bolsas de Nova York se afastaram das mínimas, abrindo espaço para uma melhora nos mercados emergentes e principalmente no Brasil. Por aqui, a realização de lucros recentes conviveu com questões internas que acabaram por amenizar pressões negativas. O cenário eleitoral manteve-se como fator de otimismo e a expectativa pela divulgação de resultados corporativos trimestrais foi positiva para a maioria dos papéis. A recente desaceleração do dólar e alguns indicadores econômicos positivos também foram pontos observados. 

"O IPCA-15 (0,58%) veio um pouco abaixo do esperado e reforçou a possibilidade de manutenção da taxa Selic por um prazo mais prolongado. Da mesma forma, a criação de empregos (indicada pelo Caged) também veio melhor que as estimativas", disse Vítor Suzaki, analista da Lerosa Investimentos. 

A consolidação desse cenário mais positivo pode vir dos balanços que se iniciam nesta semana. Para esta quarta-feira (24), estão previstos os resultados da Vale, Fibria e Via Varejo. De acordo com o "Prévias Broadcast", a Vale deverá reportar lucro líquido próximo de US$ 1,91 bilhão, com baixa de 15% ante o mesmo período do ano passado. Vale ON terminou o dia em queda de 2,78%, com influência das preocupações com a China. Já a maior alta do Ibovespa ficou com as units da Via Varejo (+9,92%). Fibria ON subiu 0,25%.

As ações da Petrobrás foram influência negativa no desempenho do Ibovespa. Com quedas superiores a 4% nos preços do petróleo, Petrobrás ON e PN caíram 1,88% e 1,24%, respectivamente. Por outro lado, os papéis do setor financeiro subiram em bloco e foram o principal fator de desaceleração das perdas do dia.

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