Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Cautela com Previdência faz Bolsa perder 3,35% na semana

Nesta sexta-feira, o Ibovespa encerrou a sessão em baixa de 1%, aos 94,6 mil pontos, enquanto o dólar fechou a R$ 3,78, maior cotação desde 22 de janeiro

Antonio Perez e Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2019 | 11h34
Atualizado 01 de março de 2019 | 19h46

O receio de que a proposta de reforma da Previdência passe por modificações que reduzam substancialmente a economia prevista pelo governo, de R$ 1,1 trilhão em dez anos, e de que o tema demore para ser votado no Congresso foi o principal fator para que os ativos locais tivessem uma semana negativa. O Ibovespa terminou com queda de 3,35% no acumulado semanal, abaixo dos 95 mil pontos, enquanto o dólar à vista ganhou 1,09% no mesmo período.

A declaração, na quinta-feira, do presidente Jair Bolsonaro, que aceita mudanças na reforma, incluindo a redução da idade mínima para mulheres de 62 para 60 anos, continuou a pesar no mercado nesta sexta-feira, 1.º. O Ibovespa encerrou a sessão em baixa de 1,03%, aos 94.603,75 pontos, a moeda americana à vista se valorizou 0,74%, a R$ 3,7812 - maior cotação desde 22 de janeiro.

O vice-presidente Hamilton Mourão buscou minimizar a sinalização de Bolsonaro de que pode ceder em alguns pontos da reforma ao dizer que o presidente foi "mal interpretado". Já o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), afirmou mais cedo que Bolsonaro apenas sinalizou a disposição de negociar. As declarações não foram suficientes para diminuir o desconforto dos investidores.

O exterior contribuiu para a depreciação dos ativos domésticos na semana, em meio às negociações comerciais entre Estados Unidos e China, ainda que tenha havido sinais positivos, e ao recuo dos preços do petróleo. Somou-se a isso, nesta sexta-feira, a cautela por causa do feriado do carnaval, que deixará o mercado brasileiro fechado até o início da tarde de quarta-feira.

Bolsa

Segundo Raphael Figueredo, analista da Eleven Financial, o mercado adotou uma postura pragmática e cautelosa diante das incertezas no front político. "Março começou como terminou fevereiro, com investidores realizando parte dos lucros do início do ano", afirma Figueredo. "O mercado está começando a perceber que a articulação política para aprovar a Previdência vai ser mais difícil do que se pensava".

O analista da Guide Investimentos Rafael Passos ressalta que o mercado já esperava uma desidratação do texto-base da reforma, mas não contava com uma postura mais branda do governo antes mesmo de a proposta começar a tramitar no Congresso. "Nossa visão para a Bolsa no ano ainda é positiva, mas no curto prazo deve haver muito ruído com a reforma pressionando o mercado", afirma.

Pressionados pela queda do petróleo, os papéis PN da Petrobrás caíram 1,33%, e os ON, 2,21% . As ações da Vale, que chegaram a cair mais de 2%, fecharam em queda de 0,76%. Durante o dia surgiram temores com a possibilidade de que investigações sobre o rompimento da barragem em Brumadinho resultassem em eventual processo administrativo que acarrete perdas financeiras à empresa. Também houve perdas generalizadas de ações do bloco financeiro - Bradesco PN (-1,66%), Itaú PN (-1,08%) e Santander Unit (-1,42%).

Dólar

O economista da Capital Economics, William Jackson, avalia que os recentes desdobramentos em torno da reforma indicam que a oposição ao texto prometer está crescendo. Ele ressalta que, além da idade mínima, parlamentares têm mostrado oposição forte às mudanças nos benefícios para idosos e deficientes de baixa renda, conhecidos como BPC, e na aposentadoria rural, pontos que ajudariam a reduzir de forma importante a economia fiscal do texto. A Capital Economics prevê que o dólar pode testar níveis perto de R$ 4,00 em meio às dificuldades do texto no Congresso.

"A proposta de reforma foi bem recebida, mas o risco de desidratação é agora percebido como alto", ressalta o economista em Nova York da Continuum Economics, Pedro Tuesta. Outro ponto que preocupa é a falta de uma estratégia clara do governo para negociar com o Congresso, diz.

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