Shannon Stapleton/Reuters
Shannon Stapleton/Reuters

Com fé nos fundos de índice

Apostando na monotonia e no baixo custo, o Vanguard modificou radicalmente a gestão de recursos financeiros

The Economist

15 Junho 2016 | 05h00

Quando John Bogle criou o Vanguard Group, há 40 anos, não foram poucos os que reagiram com ceticismo. A empresa de gestão de ativos financeiros iniciou atividades com o primeiro fundo de investimentos de varejo que pretendia apenas acompanhar o desempenho de um índice de ações (o S&P 500) em vez de tentar identificar ações que poderiam ter uma performance superior. Cartazes chegaram a ser distribuídos em Wall Street, denunciando como “antiamericana” a ideia de um investimento que se resignava a seguir os passos da maioria do mercado.

O presidente da concorrente Fidelity Investments afirmou que os investidores jamais se contentariam com “um retorno dentro da média”. E a Securities and Exchange Commission (SEC), principal órgão regulador do mercado financeiro americano, opôs-se à pouco comum estrutura acionária da empresa. O fundo captou só US$ 11 milhões dos US$ 150 milhões que inicialmente o Vanguard esperava levantar, e registrou resgates líquidos em seus primeiros 83 meses de atividade.

Hoje, o Vanguard administra US$ 3,5 trilhões de cerca de 20 milhões de investidores. E, ao fim de cada dia útil, seus cofres estão em US$ 1 bilhão mais gordos. Nos EUA, segundo a Morningstar, de cada US$ 5 investidos em fundos mútuos ou em fundos negociados em bolsa, US$ 1 tem como destino a carteira do Vanguard, o mesmo acontecendo com US$ 1 a cada US$ 2 investidos em fundos passivos, que acompanham índice de ações.

Os investidores dos fundos Vanguard detêm cerca de 5% de todas as empresas americanas de capital aberto e de 1% de quase todas as empresas listadas em bolsas estrangeiras. Se é verdade que a concorrente BlackRock administra recursos mais volumosos, o Vanguard teve uma entrada líquida de recursos de investidores de varejo de US$ 252 bilhões em 2015, quantia superior à captada por qualquer outra empresa de gestão de ativos.

Margens. No entanto, por mais impressionantes que sejam esses números, o fato é que eles não dão a dimensão exata da influência do Vanguard. Ao criar os fundos de índices, e oferecê-los a custos baixíssimos, a empresa impôs mudanças a um setor conhecido por margens elevadas e produtos complicados. Os investidores sorriem, mas gestores de recursos fecham a cara ao falar do “efeito Vanguard”, pois sofrem a pressão que as taxas de administração irrisórias do fundo de índices exercem sobre a concorrência.

Pergunte a qualquer funcionário do grupo qual é o segredo do sucesso do Vanguard e a resposta invariavelmente aponta para sua estrutura acionária. A empresa pertence integralmente a quem investe em seus fundos. Não há acionistas a serem remunerados, ao contrário do que acontece com a BlackRock, que tem ações listadas em bolsa, ou a Fidelity, que permanece sob o controle da família de seu fundador, Edward Johnson. Em vez de pagar dividendos, o Vanguard reduz suas taxas de administração. As razões de Bogle para a criação desse arranjo são simples: “Ninguém pode servir a dois senhores”. Não há a mais mínima divergência entre os interesses da companhia e os de seus clientes, diz ele. Tacitamente, os concorrentes concordam: “Como vamos competir se há uma instituição sem fins lucrativos bagunçando o coreto?”, queixa-se um deles.

Ciclo virtuoso. Bill McNabb, atual presidente do Vanguard, diz que a estrutura acionária instaura um ciclo virtuoso, em que as baixas taxas de administração contribuem para melhorar o resultado líquido dos fundos, coisa que atrai mais investidores e aumenta as economias de escala, possibilitando reduções ainda mais drásticas nos valores cobrados dos clientes. Embora os ativos administrados pelo Vanguard tenham passado de US$ 2 trilhões para US$ 3 trilhões, a equipe de cerca de 14 mil funcionários permaneceu praticamente inalterada.

Ao mesmo tempo, as taxas, calculadas como uma proporção dos ativos administrados, caíram de 0,68%, em 1983, para 0,12%, hoje, enquanto a taxa média do setor é de 0,61% (ou 0,77%, se o Vanguard for excluído do cálculo). A taxa de administração dos produtos passivos do grupo, de 0,08% ao ano, corresponde a menos da metade dos 0,18% cobrados pelo restante do segmento. E a diferença é ainda mais brutal no caso dos produtos de gestão ativa, em que investidores do Vanguard pagam uma taxa de 0,17%, frente à média de 0,78% dos concorrentes.

Domínio. Os fundos de índices concentram mais de 70% dos ativos administrados pelo Vanguard e respondem por mais de 90% da expansão registrada no ano passado. Aos poucos, os investidores vêm absorvendo a ideia de que, no longo prazo, é impossível superar com consistência o desempenho do mercado, diz McNabb: em 2015, os americanos resgataram US$ 145 bilhões de diferentes tipos de fundos ativos e aplicaram US$ 398 bilhões em produtos passivos.

O Vanguard também faz questão de manter as coisas simples. A gestora oferece apenas 70 tipos de ETFs – um produto que é comercializado em 383 versões diferentes pela BlackRock. O grupo também guarda distância dos fundos da moda, como é caso hoje dos fundos de empresas de energia em dificuldades. No fim dos anos 1990, a estratégia se mostrou previdente: quando veio o estouro da bolha pontocom, o Vanguard não operava nenhum fundo de ações de empresas de internet.

Erros. Mas o conservadorismo do Vanguard às vezes também produz consequências negativas. O grupo tem reduzida presença no exterior: sua base de clientes é 95% americana. Também demonstrou lentidão para entrar no segmento de ETFs, permitindo que a BlackRock se tornasse a maior gestora desse tipo de fundo, ainda que o Vanguard agora esteja chegando perto da concorrente.

Além disso, a BlackRock se destaca por oferecer todo tipo de alternativas de investimento, incluindo fundos de private equity e fundos de hedge, ao passo que o Vanguard opera apenas com instrumentos mais tradicionais. Talvez isso explique por que a gestora não é tão popular entre os grandes investidores institucionais, que preferem contar com muitas opções de investimento e o tipo de serviço customizado que o Vanguard não oferece.

Além disso, há sempre o risco de que uma startup de fintech ou uma gigante de tecnologia, como a Apple, criem mecanismos mais baratos e simples por meio dos quais as pessoas possam fazer seus investimentos, roubando parte da clientela do Vanguard. De fato, para a gestora é cada vez mais difícil seguir baixando os valores cobrados dos clientes: para reduzir sua taxa média em um centésimo de um ponto porcentual, seus fundos teriam de captar US$ 560 bilhões adicionais.

De qualquer forma, o Vanguard ainda tem muito espaço para crescer. Como os juros e os retornos dos investimentos devem permanecer baixos por vários anos ainda, manter as taxas de administração reduzidas será mais importante que nunca. Como diz o diretor financeiro da empresa, Tim Buckley: “A maior vantagem do Vanguard, além de sua estrutura, é a ganância dos concorrentes.”

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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