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Diretor-geral de operaçõeses da Energizzi, Alan Bastos: 'Buscamos campos maiores para chegar a 300 barris' Wilton Junior/Estadão

Com foco da Petrobrás no pré-sal, micropetroleiras avançam em terra

Pequenas e médias empresas privadas aproveitam lacuna deixada por estatal e apostam na exploração de poços em terra no Nordeste, Espírito Santo e Amazonas; produção hoje é de 107 mil barris diários, 4,3% do total extraído no País

Fernanda Nunes , O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2019 | 13h00

CATU (BA) E RIO - No campo de petróleo do Vale do Quiricó, na Bahia, a cerca de 80 km de Salvador (BA), um único técnico, acompanhado de um segurança e dois cachorros, cuida diariamente do poço da menor petroleira do Brasil com o sentimento de quem trabalha numa plataforma em alto-mar. O volume sob sua responsabilidade – pouco mais de meio barril de óleo diário, que custaria no mercado algo como R$ 125 – é tão pequeno que poderia ser transportado em baldes. 

Apesar das reduzidas proporções, a micropetroleira Energizzi, dona do poço, sonha alto e pretende colocar mais dinheiro em outras áreas de exploração em terra. Ela faz parte de um movimento de petroleiras de pequeno porte que querem aproveitar a lacuna deixada pela Petrobrás na Região Nordeste, no Espírito Santo e no Amazonas desde que a estatal optou por concentrar esforços no pré-sal.

A Energizzi é, na verdade, um braço da carioca Dimensional Engenharia, que, de olho na tentativa de reativação da produção de petróleo em terra, adquiriu em 2017 sua primeira área num leilão da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Passados dois anos, começou a testar o potencial do projeto, considerado internamente um ensaio para investimentos futuros.

“Nosso objetivo é crescer. Buscamos campos maiores para chegar a 300 barris por dia lá na frente. É um desejo ter uma posição em águas rasas, mas isso é mais para frente”, diz o diretor de operações da empresa, Alan Bastos. “Queremos ter uma experiência grande na parte de terra para depois nos aventurarmos.”

Mudanças na política do setor 

Pequenas e médias petroleiras, chamadas de “independentes”, tentavam há anos ingressar nesse mercado, mas sempre esbarraram no domínio da Petrobrás. Com a chegada do ex-presidente Michel Temer ao governo, em 2016, porém, houve uma mudança na política de desenvolvimento do setor, com maior incentivo à iniciativa privada, e esse quadro começou a mudar. 

Com a concentração da Petrobrás no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde estão os grandes blocos do pré-sal, o segmento de extração de petróleo e gás no Nordeste, no Espírito Santo e no Amazonas, principalmente áreas em terra, ficou aberto para as novatas. 

Apoiando esse movimento, o governo federal tenta reverter o grande declínio na produção de petróleo em terra no País – foi de 209 mil barris diários, em 2000, para 107 mil barris este ano. A participação em relação ao total extraído em território nacional passou de 9,2% para 4,3%.

Na avaliação de Anabal Santos Júnior, secretário executivo da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo (Abpip), o Brasil possui uma das maiores bacias terrestres do mundo, mas só tem conhecimento do potencial de 5% dela e possui uma taxa de sucesso inexpressivo em comparação ao que poderia ter se recebesse mais atenção.

Inspiração no modelo americano.

O modelo buscado no Brasil para atrair as empresas de menor porte é o usado nos Estados Unidos, onde cerca de 1 milhão de poços de apenas 10 barris por dia, em média, respondem por 80% da extração total de petróleo e gás natural. No Brasil, um único campo, o de Lula, na Bacia de Santos, concentra mais da metade do desempenho nacional.

A diferença de investimento entre um pequeno poço e uma área no pré-sal é mais que um abismo. Segundo Santos Júnior, só como referência, a perfuração de um poço em terra pode ficar na casa dos R$ 3 milhões a R$ 5 milhões, enquanto no pré-sal isso pode ultrapassar os R$ 800 milhões.

As pequenas petroleiras vendem sua produção para refinarias independentes, consumidores industriais que utilizam o produto em fornos e para a própria Petrobrás. E garantem que, apesar do tamanho diminuto da operação, o negócio é lucrativo.

Novo modelo de leilão

A virada que começou a dar impulso às petroleiras de pequeno porte no mercado nacional também veio com a decisão da Petrobrás – após a crise do envolvimento na Operação Lava Jato – de vender ativos, entre eles áreas em terra e em águas rasas (onde os investimentos em exploração são menores). Mas um novo passo foi dado este ano, com a criação de um novo modelo de leilão de campos devolvidos à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e de blocos que ficaram sem oferta em licitações anteriores. 

Nessa rodada de áreas marginais, de pequena dimensão, as empresas podem indicar previamente aquelas do seu interesse. Na primeira edição, em setembro, 12 empresas nacionais e duas estrangeiras arremataram 12 áreas, um índice de sucesso de 86%, que rendeu quase R$ 7 milhões ao governo. Essa oferta de blocos agora é permanente. Ou seja, as empresas podem indicar as áreas que lhes interessam a qualquer momento. 

A Ubuntu – termo da África Subsaariana que significa “sou porque somos” – participou de um leilão, há dois anos, com aquisições no Espírito Santo e no Rio Grande do Norte. Seus fundadores têm experiência em prestadoras de serviços multinacionais e em petroleiras de médio porte. “Pensamos nesse nome porque sabemos que vamos ter de trabalhar juntos. A ideia é ter uma atuação coletiva de baixo custo”, diz o sócio-presidente, Clarindo Caetano Machado Neto.

Ele vislumbra para 2021 um crescimento efetivo da curva de produção em terra, com um avanço também na geração de emprego e transformação das cidades. “Há um alinhamento de forças entre governos e pequenos produtores. Isso criou uma onda de otimismo que funcionou. É um movimento de verdade”, diz.

Segundo Gustavo Cachina, diretor técnico da Phoenix Óleo e Gás, outra empresa desse grupo de menor porte, as primeiras vagas de trabalho estão sendo criadas nas empresas de sondas, que disponibilizam equipamentos para explorar os campos em diferentes profundidades. “O desafio agora é desenvolver uma regulamentação própria, compatível com a dimensão das empresas”, avalia.

Venda de ativos da Petrobrás

 O próximo passo, aguardado com ansiedade pelas petroleiras independentes, é o segundo ciclo de vendas de ativos da Petrobrás, que, por determinação da ANP, vai ter de se desfazer de 80 campos até o fim deste ano e de mais oito até junho de 2020. São concessões que a companhia estatal guardava na “gaveta” e não investia tanto quanto tinha se comprometido. 

No ano passado, foi obrigada a se posicionar sobre o futuro de cada um dos 211 campos em terra onde já havia descoberto petróleo, mas não avançava no desenvolvimento. Pressionada, decidiu manter 69 das concessões, devolveu 8 e prometeu passar para frente 134, das quais 46 já estão com terceiros.

“A substituição de um monopólio por uma indústria passa pela atração de pequenas e médias empresas para operar nos campos maduros e em terra e em águas rasas”, avalia o diretor-geral da ANP, Décio Oddone. Além do novo modelo de leilão e do “cartão vermelho” dado à Petrobrás para se posicionar sobre a continuidade dos investimentos, ele aponta “a redução dos royalties, simplificação de contratos, definição de regras de abandono de campos e o uso das reservas como garantia de financiamentos” como exemplos de medidas de atração de novos investidores.

Idealizador do processo de retomada da produção terrestre no governo de Michel Temer, quando esteve à frente do Ministério de Minas e Energia, Márcio Felix avalia ainda que, mesmo com a reativação da indústria do petróleo, incluindo a terrestre, o retorno não deve ser o mesmo de anos atrás, quando a commodity atingiu picos de cotação. “Mas o investimento em terra tem o benefício de distribuir riquezas. São valores menores em relação ao mar que fazem diferença nos municípios.” 

 

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Catu, na Bahia, sonha com volta da ‘época de ouro’

Município na Bacia do Recôncavo aposta em investimentos de pequenas petroleiras para reativar economia

Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2019 | 13h00

CATU E POJUCA (BA) - Na cidade baiana de Catu, o pré-sal foi sinônimo de decadência. À medida que a Petrobrás se dedicava cada vez mais aos megacampos no mar, foi deixando para trás os poços terrestres. Na Bacia do Recôncavo, na Bahia, onde está o município de Catu, a produção da estatal caiu de 62,5 mil para 36,4 mil barris diários em uma década, um tombo de 42%.

“Antes, tínhamos aproximadamente 30% da receita proveniente do setor de petróleo. Hoje, estamos em 11%”, diz o prefeito da cidade, Geranilson Dantas Requião (PT). “Se continuar nesse ritmo, vamos ter muita dificuldade na manutenção do município.”

A esperança de Catu, e de toda a região, está nas pequenas petroleiras, que começam a chegar para assumir áreas abandonadas pela Petrobrás. As empresas independentes, cuja presença era praticamente nula em 2010, hoje produzem juntas 4,8 mil barris diários. O poço dessa bacia com melhor desempenho hoje pertence à Maha Energy, com 1,9 mil barris/dia.

Nas ruas de Catu, os moradores se mostram nostálgicos dos tempos de pleno emprego e dinheiro circulando com fartura. E dizem estar cientes de que a “época de ouro” não volta mais. Ao mesmo tempo, mantêm o otimismo de que o pior momento passou e novas vagas de emprego começam a ser criadas com a chegada das pequenas petroleiras. 

 

Às 5 horas, os pontos de ônibus já estão cheios de trabalhadores paramentados, funcionários de empresas fornecedoras de produtos e serviços exploratórios para projetos preservados pela Petrobrás e companhias que ensaiam a reativação de poços no entorno do município.

Não é, claro, como foi no início da década. “Em 2010, começou a exploração aqui, então chegou muita empresa. Era bastante mesmo. Hoje, a gente consegue contar quantas ficaram”, diz Sinésio Oliveira, gerente da loja Construmir, que já foi especializada em equipamento de segurança industrial e atualmente se limita a vender material para a construção de residências.

Chance. Para quem ficou sem emprego por mais de um ano e não tinha perspectiva, a chegada de novos investidores é percebida como a última chance de acertar a vida profissional e o orçamento da família. “O que eu senti mais foi quando eu fui demitido, porque senti que era um inútil. Vi tudo meu indo por água abaixo”, conta Juracy Mendes, hoje operador da Energizzi, dona de um poço no município de Pojuca (BA), vizinho a Catu. “Agora, a minha vida, a minha família está sendo sustentada por essa área.”

Com a responsabilidade de manter o primeiro poço da Energizzi ativo, Mendes trabalha por uma semana e na seguinte é substituído por Luiz Sena. O turno de trabalho começa às 6h e termina às 18h. “Operador é mais ou menos assim: é você ser fazendeiro e me dar o seu gado para cuidar. Aquele poço ali é o animal de estimação do dono dessa empresa. É fazer tudo que for possível e também o impossível para que esse poço venha a produzir o esperado de óleo para ele”, define Mendes.

Para o parceiro de equipe Sena, que já esteve embarcado em plataforma no Rio, o cargo é também motivo de prestígio na comunidade onde vive. “A inspiração de todos que moram na zona rural é chegar a trabalhar com petróleo”, afirma.

A Petrobrás, por meio de sua assessoria de imprensa, afirmou que, para definir os ativos que coloca à venda, avalia a “sinergia existente entre os ativos”. Com isso, tem buscado vender pacotes de áreas, em linha com o modelo de negócio determinado pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

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