Com fracasso de Doha, Brasil terá que rever posição, diz FHC

Para ex-presidente, País precisa de relacionamento amplo no comércio exterior

Agencia Estado

22 de junho de 2007 | 16h44

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse nesta quinta-feira, 21, que, se confirmado, o fracasso da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) obrigará o Brasil a rever suas posições em política comercial externa. FHC afirmou que já não tinha muita esperança a respeito da conclusão da Rodada, mas que, de qualquer forma, o fracasso é grave. "O Brasil perdeu muito tempo nessas negociações que não avançaram e deixou de fazer acordos bilaterais com outros países", declarou o ex-presidente, durante seminário sobre as relações Brasil-México no Instituto Fernando Henrique Cardoso (IFHC).O ex-presidente acredita que o chanceler Celso Amorim fará, agora, uma reflexão sobre "o que erramos". Para ele, o Brasil apostou em um caminho que não frutificou, mas precisa de um relacionamento mais amplo no comércio exterior. Fernando Henrique evitou dizer que o governo agiu errado nas negociações de Doha, ressaltando que o Itamaraty tentou até onde pôde. No entanto, disse ele, chegou um momento em que a sociedade precisa decidir se quer ser mais aberta ou mais isolada. "Se queremos mais abertura, temos de oferecer mais do que oferecemos. Se quisermos ser isolados, vamos voltar à questão Sul-Sul", afirmou.FHC destacou que o Brasil poderia ter tirado melhor proveito desse tempo todo em que negociou Doha, se tivesse sido mais realista. O ex-presidente ressaltou ainda que os acordos do Mercosul estão sendo ameaçados pelos próprios parceiros do bloco, o que também vai exigir uma reflexão das autoridades de política externa.ChávezA respeito das críticas que o presidente venezuelano, Hugo Chávez, vem fazendo ao Mercosul, o ex-presidente Fernando Henrique comentou que o bloco sul-americano é importante, mas que perdeu-se a fé no bloco. Para reavivar essa fé, seria preciso criar instituições sólidas.O ex-presidente lançou dúvidas se a melhor forma de aprofundar as relações comerciais entre Brasil e Venezuela é o Mercosul. Talvez, segundo ele, fosse melhor um acordo bilateral entre os dois países. E, se a Venezuela considerar mais positivo se afastar do Mercosul que o faça, desde que não se distancie do Brasil.EnergiaApesar de ter evitado criticar diretamente o governo pelo fracasso em Doha, o ex-presidente fez críticas à política de energia elétrica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ele, as decisões da atual administração em matéria de eletricidade são um retrocesso em relação a tudo o que havia sido feito durante seu governo - de 1994 a 2002. De acordo com o ex-presidente, nessa questão, tudo foi feito pela metade, ou seja, privatizou-se a distribuição, mas não as empresas de geração.Fernando Henrique qualificou as empresas de geração, como Furnas e Chesf, de verdadeiros bunkers políticos. "Perdemos a oportunidade de ser um país desenvolvido", afirmou FHC, ressaltando que falta ao País uma definição clara sobre o novo paradigma que se quer adotar para o desenvolvimento. "Aceitamos como boa a mediocridade", acrescentou.O ex-presidente ressaltou ainda que o Brasil precisa olhar para seus concorrentes, não para países como a Argentina, mas para os parceiros de BRIC (Rússia, Índia e China), que são os verdadeiros concorrentes do País.

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