Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Indústria despenca 10,9% em maio e retrocede ao patamar de 15 anos atrás

Reflexos da paralisação dos caminhoneiros devem afetar produção industrial em junho, segundo o IBGE, mas expectativa é de retomada gradual; setores que registraram as maiores quedas foram os de veículos, alimentos e bebidas

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

04 Julho 2018 | 09h04

RIO - A indústria registrou o segundo pior desempenho da história em maio, quando a greve dos caminhoneiros levou o País a uma crise de desabastecimento. A produção caiu 10,9% em relação a abril, retrocedendo ao patamar de 15 anos atrás, segundo os dados do IBGE, divulgados nesta quarta-feira, 04. A produção de veículos despencou quase 30%. Os setores de alimentos e bebidas registraram quedas recordes, de 17% e 18%, respectivamente. 

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O bloqueio de estradas por todo o País durante 11 dias provocou falta de matéria-prima, impossibilidade de escoamento de produtos e, em alguns casos, até ausência de funcionários que não conseguiram chegar ao trabalho, disse André Macedo, gerente de Coordenação da Indústria do IBGE. “Há relatos de paralisações em várias plantas industriais por causa da greve. Algumas chegaram a parar porque não tinham comida para abrir os refeitórios.” 

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Segundo ele, algumas cadeias produtivas ainda não tinham sido normalizadas no início de junho, quando a greve já estava terminada. “Quanto disso vai afetar a produção de junho não sabemos, mas isso pode sim trazer algum tipo de reflexo para a produção”, afirmou Macedo. “Isso vai fazer parte da história de 2018 e vai entrar na conta do fechamento do ano.” 

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O resultado, no entanto, não surpreendeu. A queda foi até mais branda do que as estimativas dos analistas consultados pelo Projeções Broadcast, que estimavam uma redução média de 14% no ritmo de produção em maio. Isso indica que algumas empresas conseguiram manter um ritmo de trabalho que não comprometesse tanto a produção, como as que possuem frota própria e que trabalham com estoques mais elevados, diz o economista Igor Velecico, do Bradesco. 

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Segundo ele, o número divulgado nesta quarta “não altera muito a visão em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre. A projeção estava inclinada a ir para -0,4%, mas vamos mantê-la em -0,3%”, disse Velecico, que espera uma alta de 0,6% no PIB do terceiro trimestre, reforçando a expectativa de impacto temporário sobre a atividade econômica.

A avaliação do IBGE é de que é possível que haja reflexos da greve nos resultados da produção industrial em junho, embora a expectativa seja de retomada gradual, passada a paralisação. “Para recuperar a produção, primeiro é necessário desovar os estoques. A queda na confiança vai afetar decisões de investimentos e contratações. A tabela do frete é uma questão que ainda não foi solucionada e está afetando a indústria. Isso dificulta até as previsões de quando a produção retorna ao patamar pré-greve”, disse o economista da Confederação Nacional da Indústria (CNI) Marcelo Azevedo.

Conjuntura. O cenário conjuntural não mudou muito com a paralisação dos caminhoneiros, exceto pelos reflexos sobre o aumento das incertezas e a redução na confiança dos agentes da economia, defendeu André Macedo. Ele lembra que a inflação permanece mais controlada, e o mercado de trabalho segue melhor do que no ano passado, embora ainda com um contingente elevado de desempregados.

“Não há dúvida de que a trajetória é de recuperação, não há bloqueio nem reversão. É apenas uma recuperação cheia de problemas e interrupções”, disse Rafael Cagnin, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). “A indústria vai sair do atoleiro, mas não necessariamente caminhar para o futuro. Isso só se concretiza em 2019.” /COLABOROU MARIA REGINA SILVA

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