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Alex Silva/Estadão
Com piscina, Hyatt, em São Paulo, passou a ser procurado para lazer Alex Silva/Estadão

Com home office, hotéis dedicados ao turismo de negócios têm ocupação de apenas 25%

Executivos costumam ser responsáveis por 70% das receitas dos hotéis de alto padrão; para sobreviver, redes reduzem operações, demitem funcionários e 'inventam' novos usos para os quartos

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2021 | 10h00

Assim como ocorre nas companhias aéreas, nos hotéis de alto padrão os viajantes a negócios são os principais clientes. Eles costumam gerar 70% da receita nesses empreendimentos, segundo o World Travel & Tourism Council (organização que reúne o setor de turismo globalmente). Hoje, porém, a ocupação média nas redes hoteleiras corporativas não chega a 25%, de acordo com a Associação Brasileira de Agência de Viagens Corporativas (Abracorp).

Um dos hotéis de São Paulo mais populares entre executivos, o Grand Hyatt tem conseguido alguns “picos” de ocupação de 28%. A unidade, onde 92% do público costumava ser corporativo, não chegou a fechar no momento mais restrito da quarentena, dado que há executivos estrangeiros que moram no local, mas a ocupação caiu a 10% nesse período. Em tempos normais, essa taxa gira ao redor dos 70%.

Nos últimos meses, o Hyatt tem percebido uma mudança na clientela. Houve um aumento de reservas feitas sobretudo por pessoas que moram na cidade de São Paulo ou próximo a ela e que se hospedam por lazer. 

O diretor de marketing e vendas do Grand Hyatt São Paulo, Thiago Castro, admite que o turismo corporativo deve se recuperar mais lentamente que o de lazer, mas diz acreditar que o Hyatt pode sofrer menos que o segmento em geral. Isso porque o hotel hospeda principalmente executivos de alto escalão, que vão à cidade inclusive para reestruturar operações de suas empresas e que podem retomar as viagens antes da maioria dos viajantes corporativos.

Na área de eventos, o Hyatt costuma receber mais lançamentos de produtos, e menos encontros de funcionários – o que também pode facilitar a recuperação, de acordo com Castro. “As empresas vão ser mais seletivas em aprovar viagens, mas lançamento de produto é nova fonte de receita para elas. Por mais que veja que seremos afetados e que o processo de recuperação será longo, acho que o impacto será menor que em hotéis de perfil diferente.”

Novo aliado do home office

O Hyatt criou um produto para, durante a quarentena, atrair executivos que precisam trabalhar remotamente mas não têm tranquilidade em casa. Nesse caso, o hóspede paga para usar um quarto transformado em escritório. Segundo Castro, porém, o público ainda é pequeno. “São profissionais que pagam do próprio bolso para usufruir disso. Acho que essa é uma barreira. Como tudo está sendo repensado agora, talvez empresas comecem a conceder isso como benefício. Aí pode haver uma mudança”, diz.

O grupo Accor também criou produtos semelhantes. Em maio do ano passado, lançou o “room office”, quartos alugados para trabalho e que estão em 152 hotéis dos 321 que a rede tem no País. Até agora, o produto rendeu 1.500 diárias para a companhia na América do Sul. A empresa ainda trouxe para o Brasil espaços de trabalho em áreas comuns dos hotéis e salas para reuniões a partir de três pessoas, além de ter fechado uma parceria com a Microsoft para oferecer ferramentas de tecnologia em seus espaços corporativos.

Todas essas medidas buscam aumentar a ocupação e a receita do grupo, que, em média, tem dois terços de sua origem no setor corporativo. No ano passado, a Accor registrou, na América do Sul, queda de 61,9% na receita por quarto disponível e teve uma ocupação média de 23% - em 2019, a taxa havia ficado em 57%.

A rede estima que haverá uma redução permanente entre 7% e 10% da clientela corporativa no pós-pandemia. O diretor comercial do grupo na região, André Sena, afirma, no entanto, que os produtos novos ofertados podem compensar parte da receita perdida.

Expectativa de recuperação

O presidente-executivo da Abracorp, Gervasio Tanabe, diz que o setor espera o início da recuperação entre agosto e setembro, quando a vacinação estiver mais avançada. Para ele, deve, sim, haver uma redução definitiva no segmento, mas ainda não é possível afirmar a proporção dela. O executivo aposta que viagens de treinamento serão mais afetadas, enquanto as comerciais, menos. 

Tanabe conta que, até agora, 65% dos funcionários das empresas associadas à entidade foram demitidos. Antes da pandemia, essas companhias empregavam 7 mil pessoas. A Abracorp não tem, entretanto, dados de empregos de todo o setor.

Em uma das maiores agências de viagem corporativa do País, a Maringá Turismo, o quadro de funcionários tem sido mantido com o caixa acumulado em anos anteriores, apesar de o faturamento da área de turismo de negócios do grupo ter caído 90% por vários meses de 2020. Considerando as outras unidades de negócios da empresa – que também atua com turismo de lazer e eventos –, a retração na receita foi de 76% no ano. “Conseguimos, por  milagre, manter 24%”, diz Marcos Arbaitman, presidente da companhia.

Ao contrário das consultorias, Arbaitman não acredita que o segmento vá recuar de forma definitiva. “Sempre fui otimista e acho que o retorno (do turismo a negócios) vai ser enorme. Nossa esperança é que isso cresça em virtude do tempo em que ficou tudo parado. Já estamos preparando eventos físicos para junho”, diz o empresário.

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Mercado de viagens corporativas deve encolher 30% mesmo após fim da pandemia de covid-19

Videoconferências vão reduzir necessidade de deslocamentos para reuniões; companhias aéreas, hotéis e setor de eventos devem ser os mais afetados

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2021 | 10h00

Sócio-administrador do escritório Machado Meyer Advogados, Tito Andrade era conhecido dos funcionários do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Antes da pandemia, costumava vê-los pelo menos duas vezes por semana: na ida e na volta de suas viagens a negócios. Com unidades em Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, o escritório frequentemente enviava seus advogados a essas cidades para reuniões. Nos últimos 12 meses, porém, Andrade viajou apenas cinco vezes. Voos devem voltar à rotina de Andrade assim que for possível, diz ele, mas não com a mesma frequência. O advogado imagina que a redução nas viagens pode chegar a 40% na comparação com o pré-pandemia.

A estimativa de Andrade é um pouco mais drástica do que a da consultoria Bain & Company, que projeta um recuo definitivo de cerca de 35% para o segmento de viagens corporativas, o que afetará companhias aéreas, hotéis, agências de turismo, eventos e toda uma cadeia relacionada ao setor. Dados da Global Business Travel Association (associação que reúne o segmento internacionalmente) indicam que essa indústria movimentou US$ 1,4 trilhão em 2018 globalmente – pouco mais da metade disso apenas nos Estados Unidos e na China. No Brasil, foram US$ 30 bilhões em 2015

Responsável por pagar passagens aéreas mais caras e diárias em hotéis de luxo, o turismo corporativo passará por uma transformação profunda decorrente da necessidade de as empresas economizarem e após elas terem conferido que muitas viagens não são mais necessárias com a popularização das ferramentas de videoconferência: em 2020, o Zoom, por exemplo, registrou alta de 88% na receita, em um claro sinal de que as reuniões virtuais explodiram. 

“O efeito dessa aceleração do trabalho remoto vai comer mais ou menos 35% das viagens a negócios de forma permanente. Essa é a nossa primeira estimativa, mas pode ser mais”, destaca o consultor André Castellini, sócio da Bain

O que conseguir sobreviver desse setor deve enfrentar uma retomada lenta. Um estudo da consultoria McKinsey mostra que viagens internacionais a negócios originadas nos EUA levaram cinco anos para se recuperar completamente após a crise de 2008, enquanto as viagens a lazer levaram apenas dois anos.

Castellini, da Bain & Company, conta que, em reuniões com executivos de empresas, quando os pergunta sobre o lado positivo da quarentena, a maioria cita o fato de estar viajando menos e tendo mais tempo para ficar com a família. Segundo ele, na própria Bain, a redução nas viagens deve chegar a 40%. Hoje, os funcionários estão viajando cerca de 15% do que costumavam. 

O corte, diz Castellini, será principalmente em atividades internas, como recrutamento. Antes da pandemia, nas três rodadas de entrevistas que a empresa fazia com candidatos de fora do País, um funcionário era enviado para fazer a seleção. Após a pandemia, as duas primeiras fases serão online. Das viagens a treinamento, 25% devem ser eliminadas na consultoria. 

No escritório Machado Meyer, viagens que tinham como objetivo construir relações com clientes devem ser retomadas. Mas aquelas em que o advogado perdia o dia todo em deslocamento para fazer apenas uma reunião serão extintas. Preparando-se para essa mudança, o escritório já  instalou equipamentos de videoconferência – que antes eram exclusivos a salas de reunião – nos escritórios de todos os sócios.

“Algumas reuniões presenciais são importantes e permitem decisões mais rápidas, além de uma compreensão mais clara do que o interlocutor está pensando. Você consegue olhar e entender como cada um está reagindo, mas, por outro lado, tinha reuniões e viagens que eram desnecessárias e que provavelmente vamos continuar fazendo em vídeo”, diz Andrade.

Além das viagens domésticas semanais que realizava - e em metade delas, acabava dormindo no destino -, o advogado costumava ir seis vezes por ano ao exterior a trabalho. A Europa e os Estados Unidos eram os destinos mais frequentes, mas a Ásia também aparecia nos roteiros e, nesse caso, a viagem era em classe executiva. 

Viagens de avião 

O setor corporativo é o maior responsável pela demanda por passagens executivas e pernoites em hotéis de luxo. De acordo com o World Travel & Tourism Council (organização que reúne o setor de turismo globalmente), como os viajantes a negócios são os que mais compram passagens para a classe executiva e bilhetes reembolsáveis, eles são responsáveis por entre 55% e 75% do lucro das companhias aéreas internacionais, apesar de corresponderem a apenas 10% do número de passageiros.

Antes da pandemia, as passagens em primeira classe e na executiva eram, em média, cinco vezes mais caras do que as da econômica. Com isso, esses bilhetes eram cruciais na receita das empresas, representando 30% do faturamento das companhias internacionais. Agora, segundo a Associação Internacional de Transportes Aéreos (Iata), a diferença de preço entre as classes premium e a mais barata é apenas o dobro. Essas tarifas mais baratas devem dificultar a recuperação do setor aéreo, de acordo com a entidade. 

No caso da Gol, como a empresa tinha poucos voos internacionais, esse impacto da classe executiva é limitado. Ainda assim, há uma preocupação com a redução no número de passageiros a negócios. Relatório do Itaú BBA aponta que, antes da pandemia, 70% da receita da empresa com venda de passagens era gerada no segmento corporativo, apesar de ele representar apenas 30% do número de passageiros. Hoje, essa participação da receita é de 25%.

Em entrevista do Estadão em dezembro, o presidente da Gol, Paulo Kakinoff, reconheceu que um terço das viagens corporativas deve desaparecer. “Mas inspeções de engenharia e reuniões para vendas vão continuar sendo presenciais. Uma reunião presencial vai acabar sendo até um diferencial competitivo”, afirmou.

Na Azul, entre 60% e 65% dos passageiros atendidos antes da pandemia eram corporativos. Questionado sobre uma redução permanente desse mercado, o presidente da companhia aérea, John Rodgerson, disse que outras demandas podem substituir a que se tinha antes, como a de profissionais viajando para o litoral para trabalhar remotamente. “Claro que o mercado vai ser diferente, mas o setor aéreo está crescendo no Brasil. Nos EUA, onde o mercado estava estável, a recuperação está sendo rápida. Imagina aqui, onde havia crescimento.”

Em nota, a Latam informou que é “fato que as viagens corporativas têm impacto relevante e direto nas receitas do setor, pois, historicamente, apresentam um ticket médio mais alto e isso contribui em larga escala para margem da companhia”. 

“A Latam permanece acompanhando este cenário e  acredita que haverá, no futuro, uma jornada mais híbrida, permitindo, aos poucos, a volta do passageiro corporativo.”

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