André Dusek/Estadão
Indicação do BC de que não deve elevar juros com inflação sob controle pode cair. André Dusek/Estadão

Com incertezas econômicas, analistas preveem alta da Selic no começo de 2021

No Boletim Focus, alta da taxa é esperada para setembro, mas aumento da inflação, incerteza fiscal e a rápida retomada da economia fazem crer que reajuste virá antes

Cícero Cotrim, Douglas Gavras, Maria Regina Silva e Thaís Barcellos , O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 05h00

Diante do aumento da inflação, em meio ao ambiente de incerteza fiscal e à recuperação econômica mais rápida que o esperado, as apostas de economistas e agentes do mercado para uma alta dos juros estão sendo antecipadas. No Boletim Focus, do Banco Central, a alta da Selic é esperada para setembro, mas cada vez mais analistas passam a projetar uma elevação da taxa Selic já em meados do ano.

Para o economista da MB Associados e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, José Roberto Mendonça de Barros, a inflação está terminando o ano bastante pressionada, o que mexe nas previsões sobre os juros. “Para o ano que vem, a inflação para o consumidor vai continuar subindo em 12 meses, com um pico por volta de maio. E os preços no atacado continuarão bastante pressionados. Muitas empresas vão preferir perder mercado e elevar preços.”

Ele ressalta que a inflação seguirá bastante pressionada no avançar do ano que vem. “Por essa razão, o BC vai acabar tendo de se render à realidade e começar a elevar a taxa Selic no mês de junho, mais ou menos. Com isso, a política monetária deve se alterar. É preciso lembrar também que as taxas longas de juros estão muito altas.” 

Outro exemplo é o JP Morgan. O banco antecipou a estimativa para o início do ciclo de alta de juros do início de 2022 para agosto de 2021. A economista-chefe do banco, Cassiana Fernandez, explica que a revisão foi motivada pelo cenário mais favorável para a recuperação econômica, principalmente no fim de 2021 e início de 2022, com a perspectiva de vacinação de ampla parcela da população contra a covid-19

“Os números recentes de inflação começaram a incomodar. Desde o último Copom, a mediana do Focus para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor - Amplo (IPCA) de 2021 passou de 3,0% para 3,47%. É um aumento relevante que deve acender a luz amarela.”

No início de novembro, o Credit Suisse já havia alterado o cenário para a política monetária, prevendo início do aumento de juros em junho, em vez de no segundo semestre do ano que vem, levando a Selic a terminar dezembro em 4,50%.

Da mesma forma, o Banco BV recentemente antecipou a expectativa de início da alta de juros de outubro para agosto de 2021, devido à retomada mais rápida da economia global, que deve “levar pressão” para 2022. A taxa Selic deve terminar o ano que vem em 3% e, depois de um ciclo longo, chegar a 6%.

Reajuste

No curto prazo, porém, o aumento das projeções de IPCA em 2020 devido à antecipação da retomada da bandeiras tarifárias pela Aneel não deve ser problema para o BC. “Isso deve dar mais conforto para o Banco Central, pois a inflação tende a ficar menor, gerando uma inércia menor para 2022”, diz o economista Carlos Lopes, do Banco BV

O Banco Safra também já admite antecipar sua aposta para o início do aperto monetário do quarto trimestre “para o terceiro ou possivelmente para finais do segundo trimestre”, conforme relatório semanal. Segundo o banco, as seguidas revisões para cima nas projeções de inflação de 2021 têm levado ao questionamento sobre as condições para a manutenção dos juros no nível atual.

Para Gino Olivares, economista do Insper e da gestora Galápagos, em algum momento esses juros têm de subir, mas as discussões sobre quando deve acontecer estão sendo muito influenciadas pela inflação mais recente. “Honestamente, não é que seja um problema. Quando acontece um terremoto, logo depois tem uma série de pequenos tremores, a terra continua tremendo até que se estabilize novamente. A covid-19 foi o terremoto e esses números de inflação são as acomodações, mas vão começar a diminuir de intensidade. Pesa, sim, sobre os mais pobres, mas é algo passageiro.”

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'Redução da Selic foi um pouco além do necessário', diz ex-diretor do BC

Julio Senna também alerta para a manutenção de desequilíbrios fiscais 'importantes' e diz que nova redução dos juros seria 'imprudente'

Entrevista com

José Julio Senna, economista do Ibre e ex-diretor do Banco Central

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 05h00

Para o chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) e ex-diretor do Banco Central, José Julio Senna, o BC foi “um pouco além do necessário” ao colocar a Selic em 2% ao ano na última quarta-feira, 9.

O economista também alerta para a manutenção de desequilíbrios fiscais “importantes” e diz que, reduzir ainda mais os juros no atual momento da economia do País seria "imprudente". A seguir, trechos da entrevista ao Estadão

Os juros, mantidos em 2% ao ano, estão no patamar correto? 

Apesar de o Banco Central estar fazendo um bom trabalho, é possível que tenha reduzido a Selic um pouco além do necessário. O Brasil ainda apresenta desequilíbrios fiscais significativos, a situação é de instabilidade e talvez tivesse sido mais adequado não ir tão longe. Nada muito diferente dos atuais 2% ao ano, mas talvez devesse ter parado em 2,5% ou 3%, o que sinalizaria uma preocupação maior com o desequilíbrio fiscal, e a curva de juros não tivesse ficado como ficou. Evidentemente, reduzir mais os juros seria imprudente.

O BC ainda não sinaliza um novo ciclo de alta dos juros?

Quando há razão para mudar o rumo da política monetária, a primeira coisa a ser feita é alterar o forward guidance (prescrição futura, na expressão em inglês). Mudar a Selic só será considerado depois. E o fator determinante será o receituário básico do regime de metas de inflação, que deve ser entendido como um regime de metas para as projeções de inflação. E, de concreto, não aconteceu nada na área fiscal ainda.

Não está dado que será preciso novo ciclo de alta de juros?

Muita gente raciocina da seguinte maneira: vamos reduzir os juros e, se passar do ponto, a gente aumenta. Esse raciocínio é inadequado, pois reduzir juros é sempre muito mais simples do que elevar juros. O aumento esgarça o tecido, gera perdas e expectativas adversas, porque nunca se sabe onde a alta de juros vai parar. Nos Estados Unidos, por exemplo, na virada de 2018 para 2019, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) tinha elevado bastante os juros e muitos esperavam que faria mais três aumentos. Só serviu para formar expectativas. Subir juros alimenta a impressão de que o processo de alta terá continuidade. Não está dado que a Selic vai entrar em um ciclo de altas.

O que deve determinar a revisão da política de juros?

A direção do ajuste fiscal e os efeitos sobre o câmbio serão determinantes para o futuro da Selic. Depois do recesso do Congresso, todos ficarão preocupados com a questão fiscal, a contenção das despesas obrigatórias. O mercado vai ficar de olho nisso.

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