DANIEL TEIXEIRA/ ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ ESTADÃO

Com eleições, PIB de 2018 pode variar de 0,7% a 1,7%

Para consultorias, perfil do candidato vencedor das urnas e seu compromisso com a agenda fiscal vão definir se a economia terá anos de crescimento ou de estagnação

Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 12h57

A incerteza com o quadro eleitoral torna difícil prever o desempenho da economia brasileira não só nos próximos anos, mas até no curto prazo – para o final de 2018. A fragilidade nas projeções do Produto Interno Bruto (PIB),achatado por conta da greve dos caminhoneiros e da retomada mais lenta que a que fora prevista, reside, sobretudo, na dificuldade de se prever o perfil do candidato vencedor das urnas em outubro.

Para os economistas, ressalvadas as diferenças ideológicas e programáticas entre os candidatos, há basicamente dois caminhos possíveis: a vitória de um candidato que siga uma agenda reformista, na esteira do atual governo, ou um candidato de discurso mais radical, menos comprometido com a recuperação das contas públicas.

Essa encruzilhada pode alterar as previsões de forma significativa ­– em até um ponto porcentual. Para a Tendências Consultoria Integrada, uma agenda de continuidade levaria a um avanço de 1,7% do PIB em 2018.  Já caso vença um presidente que não priorizasse tanto a pauta fiscal, a economia, já arrefecida, desaceleraria no quarto trimestre e cresceria apenas 0,7% – mais próximo de um cenário de estagnação.

Isso porque, apesar de ter avançado em alguns pontos considerados fundamentais pelos agentes econômicos, o atual governo não teve sucesso em contemplar toda a agenda fiscal, como aprovar a reforma da Previdência. Além disso, houve o avanço no Congresso de projetos em que parlamentares pleiteiam aumentar gastos ou abrem mão de receitas para beneficiar setores específicos, cujo impacto pode ultrapassar os R$ 100 bilhões nas contas públicas nos próximos anos.

 “A agenda de reformas precisa continuar, para diminuir a percepção de risco e aumentar os índices de confiança”, afirma a economista e sócia da Tendências Consultoria Integrada, Alessandra Ribeiro. “O mercado está otimista com a vitória de um candidato que mantenha essa linha para que a economia volte a crescer, mas um candidato não comprometido com essa agenda pode levar a economia à estagnação nos próximos.”

Para a consultoria, o candidato Geraldo Alckmin (PSDB) seria o que mais bem atenderia a pauta. Já no cenário pessimista estaria um candidato do Partido dos Trabalhadores (PT). “Isso porque é uma outra orientação de economia, com um papel maior do Estado, incluindo questões de políticas de preço”, diz.

Já um eventual  governo de Jair Bolsonaro (PSL), para a Tendências, também seria enquadrado mais próximo à ponta pessimista das projeções. “Ainda que ele tenha uma orientação liberal, com o economista Paulo Guedes ao seu lado, ainda não temos nada muito concreto de como isso seria realizado, como as privatizações, por exemplo”, observa. “Há ainda uma importante questão de governabilidade, já que parte relevante dessa agenda depende do Congresso”, diz.

Fábio Silveira, sócio da MacroSector, também questiona a viabilidade da implementação da agenda liberal de Bolsonaro. “Não acreditamos que Bolsonaro e Paulo Guedes falem a mesma língua durante muito tempo. Não é uma aliança que deve perdurar”, opina. Para a consultoria, a vitória de Bolsonaro geraria muita incerteza no mercado, o que traria um impacto negativo maior do que o eventual de um candidato petista. “O provável candidato, Fernando Haddad, tem uma visão dos fundamentos econômicos mais flexível do que Marcio Pochmann, por exemplo ­– um dos coordenadores do programa do PT ­– e poderia dialogar melhor com o mercado.”

A consultoria prevê que, com Alckmin, o PIB cresceria 2,5% no ano que vem. Já com Bolsonaro, o País teria um PIB de 1%, além de inflação e juros maiores – IPCA de 6%  e Selic a 9% ao final de 2019. Quanto ao resultado primário, referente às contas públicas do governo, a diferença seria de déficit de 1% do PIB no governo de centro-direita para 3% do PIB com Bolsonaro.

Margem de vitória

Além dos programas e da agenda de cada campanha, também pode entrar na equação econômica a margem pelo qual um candidato venceria o outro num eventual segundo turno. “Se quem for eleito ganhar com uma margem mais ampla, é mais tranquilizador, pois o presidente tomará posse numa situação de maior força. Isso faz diferença para angariar apoio no Congresso, por exemplo”, afirma Fenando Sampaio, economista da LCA.

Ele lembra que, em seu segundo mandato, Dilma Rousseff ganhou com 51% dos votos ­ – uma diferença muito pequena, o que, para ele, acabou influenciando na perda de governabilidade.

“O desfecho político e o porcentual nas urnas irão influenciar na retomada econômica, além de outros fatores, como se a campanha foi muito ‘sangrenta’ ou não, por exemplo”, diz. A LCA projeta 3% de crescimento do PIB em 2019 num cenário mais otimista e 1,2% num mais pessimista. “As condições são boas para a retomada. O Brasil tem, por exemplo, um ótimo aliado, que é o juro a 6,5% ao ano – uma potência que está sendo amortecida pela criptonita da incerteza”, diz.

Mas, para ele, independentemente do candidato que assuma, será muito difícil escapar das reformas econômicas. “É inescapável que esses temas sejam atacadas no ano que vem  – é uma agenda que se impõe, não é optativa”, diz.

Alessandra Ribeiro, da Tendências, concorda. “Mesmo no cenário mais pessimista não é caótico. Isso porque, primeiramente, o novo presidente terá algumas amarras institucionais, como o teto de gastos, que limita as despesas. Além disso, há a forte pressão do mercado pelas reformas. Não haverá muito para onde fugir."

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