Com inflação alta, empresas de serviços brilham na Bolsa

Das 18 ofertas públicas iniciais ocorridas entre o início de 2010 e julho de 2011, metade é de companhias do setor de serviços

Yolanda Fordelone, do Economia & Negócios,

29 de julho de 2011 | 20h01

Mercado interno aquecido, aumento da renda e diminuição do desemprego para níveis recordes foram uma combinação ideal para que a demanda por serviços aumentasse. Para as empresas do setor, foi um campo fértil para investir. Elas driblaram as altas taxas de juros no mercado de crédito e foram buscar dinheiro no mercado de ações. Resultado: das 18 ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês) ocorridas entre o início de 2010 e julho de 2011, metade são de companhias do setor de serviços.

"Como as empresas não estavam preparadas para um aumento tão grande da demanda, elas tiverem que captar recursos para investir. Optaram pela bolsa porque é mais barato do que captar no mercado. Ainda mais em um cenário de alta do juro", afirma o analista da corretora Socopa, Osmar Camilo.

Para o economista José Góes, da WinTrade, home broker da Alpes Corretora, é natural que as empresas desse setor aumentassem a quantidade de IPOs. "O setor de serviços elevou a participação no PIB e a maioria das ações da Bolsa ainda é de uma época em que a indústria era o maior setor", afirma, ao dizer que a entrada de empresas de serviços na bolsa é uma tendência mundial. Em 2010, os serviços representaram quase 70% do PIB brasileiro.

Investidor

Analistas afirmam que, para o investidor que comprar essas ações, as perspectivas em geral são boas, dependendo do segmento. "A demanda doméstica cresceu e essas empresas são na maioria voltadas para o mercado interno", diz Camilo. Além disso, em um setor sem concorrência dos importados, fica mais fácil para empresas reajustarem preços e aumentarem seus lucros. O desempenho das ações reflete o cenário favorável. A maioria delas conseguiu bater o Ibovespa no período (veja quadro abaixo).

Entre as empresas destacadas por especialistas, a Mills apresentou o melhor desempenho. Os papéis da companhia subiram pouco mais de 85% desde seu IPO, em abril de 2010, enquanto o Ibovespa recuou 17,35% no período. "Com a perspectiva de novas concessões, das quais a empresa pode participar, a Ecorodovias também pode ser uma boa opção", diz Camilo.

A BR Insurance é outra ação mencionada por analistas. "Eles criaram um negócio que ainda não existia no Brasil, com boas perspectivas, mas também com um risco maior", comenta o economista da Souza Barros, Clodoir Vieira. A companhia é formada por 27 sociedades corretoras que uniram seu portfólio de produtos. Desde a abertura de capital, em novembro de 2010, as ações da companhia subiram 45,82%, enquanto o Ibovespa desvalorizou-se 17,52%.

Na ponta contrária, está a OSX, que deu um grande prejuízo aos investidores que participaram do IPO. Segundo especialistas, a empresa funciona no papel, mas ainda não opera e entrega resultados de fato. Os papéis já acumulam queda de 53,13% desde o IPO, em março de 2010. No mesmo período, a Bolsa perdeu 15,31%.


O bom desempenho até agora, porém, não é garantia de boa rentabilidade futura. No caso de IPOs, além das condições de mercado, os investidores devem estar atentos ao prospecto, documento divulgado pela empresa na época da oferta. Para quem quer comprar essas ações agora, é preciso ainda observar a regra geral para o mercado de ações: apenas o dinheiro que não tem uma data certa para ser resgatado deve ser colocado em Bolsa. Assim, será possível esperar o tempo necessário para conseguir o ganho pretendido.


Pessoa física

Apesar do crescimento dos IPOs desse setor, o mercado de ofertas ainda anda a passos lentos em 2011. No começo do ano, os mais otimistas chegaram a projetar R$ 55 bilhões em captação, número que não chegou a R$ 12 bilhões até o momento. O motivo foi uma crise maior do que esperada nos países da Europa e, agora, nos EUA.

O juro no Brasil, um dos mais altos do mundo, também é um desincentivo ao investimento em ações. Com isso, o investidor tem preferido correr menos risco e se manter longe da Bolsa. O resultado é a queda de mais de 14% no ano.

Nas ofertas, a quantidade de participantes está menor. No IPO mais popular entre as empresas de serviço, da Sierra Brasil, pouco mais de 3.300 pessoas participaram, número bem inferior aos tempos de bonança de oferta em 2007 e 200. No passado, em ofertas pequenas como da Anhanguera Educacional, o número de pessoas físicas passava de 10 mil.

"O público está bem menor, em geral até 20% da oferta. Costumava ser ligeiramente acima disso antes", diz o analista da Socopa. Além disso, ele diz ter notado uma mudança no perfil. "Como o otimismo não é o mesmo, de ter grandes altas logo na estréia, diminuiu o número de flippers (investidores que participam de IPOs para lucrar com a venda da ação nos primeiros dias). Os investidores ficam um tempo com o papel", relata.

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