Werther Santana|Estadão
Werther Santana|Estadão

Com inflação baixa, mercado já fala em Selic a 6%

Para especialistas, inflação baixa em agosto pode levar Selic para patamar historicamente baixo; mercado se diz surpreso com índice IPCA-15, que subiu 0,35%, abaixo das projeções

Altamiro Silva Júnior, Thais Barcellos, Francisco Carlos de Assis e Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2017 | 15h05

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) de agosto, divulgado na manhã desta quarta-feira, 23, surpreendeu o mercado e reforçou a percepção dos analistas de que o processo de desinflação segue disseminado pelo Brasil. Isso abriria  espaço para o Banco Central cortar os juros novamente em 1 ponto porcentual na reunião de setembro do Comitê de Política Monetária (Copom), aumentando as chances de uma Selic, a taxa básica da economia, mais próxima a 7% no final do ano. Os mais animados já falam até em 6%.

O IPCA-15 leva em consideração a média dos preços dos últimos quinze dias de julho e dos primeiros 15 dias de agosto. Ele serve para o mercado como uma prévia do índice de inflação oficial, o IPCA, que será divulgado no começo do mês que vem.

 

 

O índice subiu 0,35% em agosto (após cair 0,18% em julho), abaixo do esperado pelo consenso do mercado, que previa aumento de 0,40%, de acordo com o projeções do Estadão/Broadcast. Nos 12 meses encerrados em agosto, o índice acumula elevação de 2,68%, arrefecendo de 2,78% no período finalizado em julho.

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Para a Capital Economics, o índice pode estar muito perto de atingir seu piso, mas o IPCA seguirá comportado nos próximos meses e bem abaixo da meta do BC, de 4,5%.

Nesse cenário, a continuidade do processo de desaceleração inflacionária reforça o espaço para o BC cortar a Selic até 7% este ano ou mesmo abaixo disso, se as leituras do IPCA continuarem a surpreender, avalia o economista Daniel Gomes da Silva, do Modal Asset Management.

A Infinity Asset já fala em juros caindo para 6,5% em 2018 caso ocorram aprovações de medidas econômicas no Congresso, como a da Taxa de Juros de Longo Prazo (TLP) e alguma versão da reforma da previdência. A previsão também leva em conta um cenário de inflação comportada e a confiança dos agentes não se deterioradas, segundo o economista-chefe da gestora, Jason Vieira.

No exterior, a percepção também é de preços comportados no Brasil. A inflação segue sob controle e sem ser uma ameaça, na avaliação do economista-sênior internacional da Pantheon Macroeconomics, Andres Abadia, sediado em Londres. Com este cenário, o economista da Pantheon acredita que o Banco Central do Brasil deve reduzir a taxa básica de juros para 7,25% ao ano até o fim de 2017.

"As pressões inflacionárias permanecem sob controle, mesmo com o aumento do tributo sobre combustíveis e uma elevação dos preços de energia", considerou o especialista, em relatório enviado para os clientes. 

Para Abadia, a demanda interna permanece lenta e não está prevista nenhuma pressão subjacente no curto prazo. "A inflação aumentará nos próximos meses, mas dados a fraqueza do mercado de trabalho, os efeitos favoráveis da base e o câmbio estável, a inflação deve orbitar em torno de 3%", previu.

O bom comportamento da inflação corroborado hoje pelo IPCA-15 levou o economista da LCA Consultores, Fábio Romão, a revisar para baixo suas projeções para o IPCA fechado de agosto e para o encerramento do ano.

Para o ano, a estimativa passou de 3,7% para 3,5%; no mês, caiu de 0,48% para 0,40%. Ontem, a consultoria já havia revisado para baixo a sua projeção para a Selic no fim do ano, de 7,75% para 7,50%. "O IPCA-15 só veio a confirmar a nossa revisão (de juro)", disse ele.

A surpresa com a baixa inflação ajuda a minimizar o efeito da alta maior estimada para energia e combustíveis ate o final do mês, avalia Silva, da Modal Asset. O comportamento dos preços de alimentos, que continuam mostrando quedas mais fortes do que as previstas pelo mercado, deve ser um dos principais fatores a agir no sentido de descompressão no índice de agosto. A estimativa do economista é de alta de 0,40% para o IPCA de agosto.

Além da deflação em alimentação (de -0,65% neste mês), os analistas destacam que a fraqueza econômica atual, apesar dos indícios de recuperação tímida conforme os últimos dados de atividade, e a gestão de política monetária eficiente do Banco Central explicam as surpresas inflacionárias, que se tornaram recorrentes esse ano. 

Para os economistas do banco UBS, Tony Volpon e Fabio Ramos, o indicador divulgado hoje confirma um ano de surpresas inflacionárias no Brasil. O banco prevê que o IPCA deve terminar 2017 com alta de 3,7%, mas vê riscos para baixo na estimativa, ressaltam em relatório a investidores.

"É mais uma leitura positiva. A variação acabou ficando abaixo do consenso, mais uma vez", disse o economista-sênior do Haitong Banco de Investimentos do Brasil, Flávio Serrano, que projetava para agosto um IPCA-15 de 0,41%. Segundo ele, taxas baixas de inflação somadas a uma taxa de desemprego ainda muito elevada, apesar de a economia já ter começado a abrir postos de trabalho, propicia um cenário que autoriza o Banco Central a manter os cortes de juros na magnitude de 1 ponto porcentual. 

Para Serrano, se não fosse o impacto dos combustíveis, o IPCA-15 de agosto teria subido apenas 0,06% graças à forte queda dos alimentos.

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