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Com investimento deprimido, PIB não consegue mais nem 'voo de galinha'

Nem de forma intermitente a economia brasileira consegue mais crescer

Fernando Dantas*, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2019 | 16h40

Saudades do tempo dos voos de galinha. "Agora a galinha está pousada", comenta Alexandre Pavan Póvoa, sócio-fundador da gestora Canepa, no Rio. Em outras palavras, nem de forma intermitente a economia brasileira consegue mais crescer. Como nota Póvoa, depois da recessão terrível de 2004-2006, a economia praticamente não teve a chamada "retomada cíclica", aquela fase fácil de crescimento econômico em que apenas se retoma a produção perdida.

O vilão da recuperação frustrada são os investimentos, como fica claro em relatório divulgado hoje pelo economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central. Ele observa que, desde o fim da recessão, no último trimestre de 2016, a economia moveu-se a um ritmo médio de apenas 1,4% ao ano. Esse passo de cágado foi puxado pelo consumo das famílias, que cresceu em média 2,2% ao ano no período, e adicionou R$ 53,1 bilhões à demanda doméstica.

O investimento, entretanto, arrastou-se a um ritmo de 1,9% (como é mais volátil, costuma subir e descer a taxa bem maiores do que a do consumo das famílias), com uma contribuição de apenas R$ 11,6 bilhões à demanda.

Segundo Schwarstman, o consumo das famílias já recuperou 60% do terreno perdido durante a recessão, enquanto o investimento só recuperou 10%. Com notou Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, a formação bruta de capital fixo (FBCF) ainda está 29% abaixo do pico registrado em 2013.

A pergunta que não quer calar, evidentemente, é por que o investimento na economia está registrando esse desempenho dramaticamente ruim?

É certo que houve grande contração do investimento público e das estatais (com Petrobrás no destaque), depois que a nova matriz econômica falhou em prolongar artificialmente o boom insustentável do final do governo Lula, e a bolha estourou de vez (com a colaboração da queda das commodities) na recessão de 2014-2016.

Mas o investimento privado também está encolhido, e não fez nem sinal de ocupar o espaço vazio deixado pelo investimento público. As explicações para isso podem ser simplificadas em dois campos.

O primeiro, que inclui o presidente do BC, Roberto Campos Neto, dá ênfase à reforma da Previdência e outras providências fiscais e à agenda de melhora do funcionamento da economia. Principalmente em relação à Previdência e ao ajuste fiscal, os investidores privados estariam em compasso de espera, porque há o temor de que crises econômicas de grande magnitude podem torpedear a economia brasileira nos próximos anos se a crise estrutural das contas públicas não for resolvida.

Uma outra ala vê um problema de demanda. A contração fiscal e parafiscal simultânea (redução do crédito dos bancos públicos, especialmente BNDES) produziu uma freada violenta demais, que teria jogado a demanda num estado anêmico, o que, por sua vez, não cria o "espírito animal" de investimento nos agentes privados. O remédio aqui seriam novos cortes da Selic e políticas de estímulo como liberação de FGTS e PIS. O arrocho parafiscal poderia ser moderado.

O economista José Márcio Camargo, da Genial Investimentos (grupo Plural) no Rio, entretanto, vê um problema fundamentalmente pelo lado da oferta no desempenho pífio do investimento. Ele menciona a "a gigantesca destruição de capital" em função do modelo econômico de 2007 a 2015, na esteira de investimentos públicos descabidos (como a Sete Brasil), exagerados (como os da Petrobrás, que levaram a empresa a um grau altíssimo de endividamento) e de incentivos, via subsídios e direcionamento, a investimentos privados com retorno insuficiente para remunerar o capital empregado.

Assim, o que o Brasil vive hoje, na sua visão, é uma enorme ressaca de um ciclo de investimentos ruins, puxados por uma política econômica equivocada. Hoje, Camargo desenvolveu a sua visão numa série de "tuítes" da Genial Investimentos (@genialmacro).

Assim, "o fraco crescimento é o resultado de políticas desastradas dos governos Lula e Dilma. Crédito subsidiado, má alocação de investimentos públicos e privados, endividamento excessivo (mais de 6000 empresas estão em recuperação judicial), etc".

O problema é de oferta, e não de demanda. "As empresas não têm condições de investir, por estarem superendividadas". Para Camargo, por causa do endividamento excessivo, a Petrobrás "só não faliu porque é estatal".

O economista nota ainda que a aprovação da reforma da Previdência é fundamental para que os empresários descartem o cenário de volta de uma "brutal recessão", e assim possam investir. Mas a sua própria visão sobre o problema pelo lado da oferta indica que a reforma é condição necessária, mas não suficiente. Será preciso paciência também, até que os excessos e equívocos do período 2007/2015 sejam digeridos.

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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