Com juro mais alto, cotação do dólar deve cair ainda mais

As importações vão aumentar e as exportações ficarão mais caras e tendem a diminuir

Fernando Nakagawa, da Agência Estado,

16 de abril de 2008 | 20h34

A alta dos juros deverá reforçar a entrada de dólares no País. Os investidores estrangeiros trazem recursos para o mercado interno a fim de conseguir ganhos maiores. As conseqüências disso são: o real vai ficar ainda mais forte frente ao dólar, as importações vão aumentar e as exportações ficarão mais caras e tendem a diminuir. Esta expectativa já existia no mercado nesta quarta-feira e o dólar fechou cotado a R$ 1,6640, o nível mais baixo dos últimos nove anos.   Veja também: Em decisão unânime, Copom sobe taxa Selic para 11,75%  Professor do IBMEC-SP fala sobre impacto do juro maior para os investimentos   ENQUETE: Com juro maior, você vai reduzir suas compras a prazo?   Compare a taxa básica da economia com os juros cobrados ao consumidor   O fato é que a entrada de recursos será estimulada porque vai aumentar a diferença entre os juros vigentes no Brasil e os cobrados nos principais mercados externos. Assim, os investidores serão incentivados a fazer as chamadas operações de "arbitragem", em que captam recurso lá fora e aplicam no mercado brasileiro, ganhando com a diferença das taxas.   Até quarta-feira, o Banco Central pagava juros anuais de 11,25% ao ano e os EUA praticavam taxa de 2,25% ao ano. O diferencial era, portanto, de 9 pontos porcentuais a favor do investimento no Brasil. Há um ano, em abril de 2007, a Selic estava em 12,75% e o juro dos EUA era de 5,25%.Na época, a diferença era menor, de 7,50 pontos.   Fluxo   O fluxo de dólares para o Brasil já vem forte, a despeito da turbulência internacional. Nas duas primeiras semanas deste mês, segundo informou ontem o Banco Central, entraram US$ 5,435 bilhões no País, valor maior que os US$ 4,362 bilhões de igual período de abril de 2007, quando a crise americana ainda não existia.   O aumento ocorreu até nos investimentos financeiros, os mais vulneráveis ao nervosismo do mercado. Nas duas primeiras semanas do mês, ingressaram no País US$ 1,714 bilhão para aplicações financeiras, como títulos da dívida e ações. O volume foi 70% maior que o US$ 1 bilhão registrado nessa conta no mesmo período do ano passado.   As operações de câmbio ligadas à balança comercial trouxeram US$ 3,721 bilhões ao Brasil, já que as exportações superaram as importações.   Para os especialistas, o resultado se explica pelo aumento da diferença entre o juro praticado no Brasil e nos Estados Unidos, situação que será reforçada a partir agora com elevação da Selic.   "A queda das taxas nos EUA e o aumento do juro no Brasil geram um tremendo atrativo para o investidor estrangeiro, que continua ingressando no País", diz o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. "Não conheço nenhum país do mundo que tem o mesmo nível de risco do Brasil que pague juros tão altos como o nosso", reforça o gerente de câmbio da Fair Corretora, Mário Battistel.   Alta do IOF não tem efeito   Diante desse quadro, nem mesmo a elevação das alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre as operações de câmbio parece afugentar o estrangeiro. Em março, o governo anunciou alíquota de 1,50% para estrangeiros que aplicam na renda fixa, com o objetivo de frear o ingresso de capitais de curto prazo e conter a desvalorização do dólar.   "O aumento do diferencial de juros anulou completamente essa alíquota maior", diz o professor da Fundação Getúlio Vargas André Luiz Sacconato.   Se, de um lado, o ingresso de dólares traz uma sensação de tranqüilidade, os prognósticos para o futuro são mais incertos, sobretudo quando ainda não se conhece todo o alcance da crise americana.   "Não dá para ficar tranqüilo. Todas as estimativas atuais sobre o déficit da balança comercial e da conta de transações correntes ainda não estão afetadas pelo aumento do diferencial de juros. A minha expectativa é que haja uma razoável piora, principalmente com o aumento mais expressivo das importações", diz o economista-chefe do Fator. "No médio prazo gera um sinal de preocupação", reforça.

Tudo o que sabemos sobre:
DólarjurosCopomSelic

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.