Daniel Teixeira/Estadão
Recorde. Número de pessoas físicas com ações na Bolsa chegou a 1,1 milhão em maio Daniel Teixeira/Estadão

Com juro menor, investidor precisa se adaptar ao risco

Para ter a mesma rentabilidade da renda fixa dos últimos anos, brasileiro deverá incluir ativos mais voláteis, como ações, nas carteiras

Pedro Ladislau Leite e Talita Nascimento, O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2019 | 05h00

Sem poder contar com altas taxas de juros para multiplicar seu patrimônio, os investidores brasileiros começam a se movimentar em direção a ativos mais arriscados em busca de maiores ganhos. O fenômeno é observado, por exemplo, no aumento de pessoas físicas com ações na B3, a Bolsa paulista, número que atingiu 1,1 milhão em maio, último dado disponível.

De acordo com especialistas, muito desse crescimento é explicado pela tentativa desses investidores em compensar a queda da rentabilidade obtida com a renda fixa, já que a Selic, em 6,5% ao ano, está no menor nível histórico. Se em outros anos era possível ganhar quase 1% ao mês sem correr grandes riscos, hoje o rendimento com os juros mal fica acima da inflação.

“Estamos vivendo o que o americano e o europeu viveram 30 anos atrás. Eles tinham um bom retorno com aplicações em títulos de governo e de bancos. Com a estabilidade econômica, você tem um fenômeno de valorização do mercado de capitais. Claro que lá há investimentos em títulos hoje, mas grande parte é em ações”, afirma o diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac) Miguel de Oliveira. “No Brasil, durante muitos anos, a Bolsa só tinha grandes investidores, a classe média ficava nos juros, acomodada com o alto retorno. Agora os juros menores vieram para ficar, vamos conviver com taxas mais baixas”, avalia.

A busca por mais risco pode ser verificada até mesmo dentro da renda fixa: os chamados pós-fixados, papéis cuja remuneração acompanha a Selic, como o Certificado de Depósito Bancário (CDB) ou o Tesouro Selic (antiga LFT), têm perdido espaço para os que pagam taxas prefixadas. Em maio de 2018, o papel mais volátil entre os títulos públicos, o Tesouro IPCA+ (antiga NTN-B), representava uma fatia de apenas 28% dos papéis vendidos pelo Tesouro Direto, plataforma de negociação dos títulos do governo.

Um ano depois, essa parcela é de 44%. Os ativos prefixados são considerados mais arriscados porque o investidor pode perder dinheiro em caso de alta de juros após a compra, o que não ocorre com um pós-fixado. Em caso de queda dos juros, no entanto, o prefixado se valoriza.

Recomendações

Para migrar para ativos mais voláteis, entre as recomendações mais repetidas estão diversificação e paciência. A primeira diz respeito à construção de uma carteira com tipos diversos de ativos, com diferentes características, para que o investidor não dependa de apenas um cenário para ganhar dinheiro.

A segunda dica busca evitar o grande erro de comprar na alta e vender na baixa. Olhando para o longo prazo, negociando sempre aos poucos os ativos, os investidores diminuem os riscos de ter prejuízo.

Para o professor Joelson Sampaio, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EESP), uma boa opção para se acostumar ao sobe e desce dos ativos mais voláteis é deixar o serviço a cargo de gestores profissionais, por meio dos fundos de investimento. “Olhe a taxa de administração cobrada e o histórico de rentabilidade do fundo”, aconselha Sampaio.

Ele explica que, em um ambiente de juros menores no longo prazo, uma alocação hiperconservadora não trará tanta segurança quanto se pode imaginar. Isso porque o rendimento dos juros pode ficar abaixo da alta dos preços. “A inflação iria corroendo a rentabilidade dos ativos atrelados à Selic.”

Corrosão

Um exemplo disso foi o resultado da caderneta de poupança, onde estão guardados cerca de R$ 790 bilhões, no primeiro semestre do ano. Como a caderneta está remunerando, pela regra atual, 70% da Selic, a taxa básica de juros no menor nível histórico fez com que a inflação avançasse sobre os rendimentos da poupança.

Quem aplicou na caderneta em primeiro de janeiro viu seu dinheiro acumular alta de 1,87% ao fim do semestre. No mesmo período, a prévia do oficial de inflação marcada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) aponta que os preços subiram 2,33%. Ou seja, o dinheiro que ficou parado na poupança neste primeiro semestre perdeu valor.

A expectativa da aprovação da reforma da Previdência nos próximos meses – somada à mudança na política monetária do Federal Reserve, o banco central americano, que depois de ameaçar elevar os juros no ano passado agora estuda baixá-los – abre espaço para novos cortes da taxa básica no Brasil, dizem analistas. 

Se o cenário projetado pelos economistas para o segundo semestre se concretizar, o rendimento da renda fixa tende a cair ainda mais, reforçando o movimento do investidor brasileiro em busca de maiores retornos. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Mercado aposta em juro mais baixo, mas efeito na economia deve ser limitado

Apesar de a taxa básica de 6,5% ser a menor da história, economistas veem espaço para novas quedas até o fim do ano; eles afirmam, no entanto, que apenas a redução da taxa Selic não deve ser suficiente para retirar o País da letargia

Douglas Gavras , O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2019 | 05h00

A inflação sob controle e a necessidade de encontrar alternativas para reaquecer a economia transformaram a queda dos juros básicos em um novo “mantra” entre os economistas. A taxa Selic está em seu patamar mais baixo, de 6,5% ao ano – mas, para analistas ouvidos pelo ‘Estado’, há espaço para cortar ao menos um ponto porcentual. E, ainda que o ciclo de corte dos juros não seja suficiente para tirar o País da letargia, pode ajudar. 

No Brasil, a Selic tem sido o maior mecanismo de controle da inflação. Segundo o último Boletim Focus, do Banco Central, no entanto, a perspectiva é de que a inflação pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fique este ano em 3,82%, bem abaixo da meta de 4,25%. As previsões também são de inflação abaixo da meta no ano que vem (4%).

Esse cenário de preços controlados reforça os argumentos para a queda maior dos juros.

Na visão do ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman, as incertezas quanto à melhora da situação fiscal do País têm reduzido a potência da política monetária. “Por isso, o BC sublinhou em seus comunicados que um novo ciclo de quedas de juros é esperado só após o andamento das reformas, sobretudo a da Previdência.”

Ele avalia que o aparente conservadorismo no corte de juros é compreensível. “Os juros podem encerrar o ano em 5,5%, o que não resolve as incertezas econômicas, mas ajuda.”

Já o professor da Universidade de Brasília (UnB) José Luís Oreiro considera que o BC tem sido conservador demais. “Deve ser o terceiro ano seguido em que a inflação fica abaixo da meta. Isso quer dizer que há muito tempo tem espaço para corte.”

Para ele, se os juros básicos estivessem em 5% há um ano, a atividade econômica hoje estaria respondendo mais fortemente. “Se isso não é sinal de uma política monetária conservadora demais, não sei o que seria. São três anos. O BC não está seguindo o protocolo do regime de metas de inflação.”

Mesmo com a Selic em seu menor patamar histórico, os juros reais do Brasil (já considerada a inflação) estão entre os dez maiores dentre 40 economias. Segundo a Infinity Asset Management, os juros reais no Brasil eram de 2,31% ao ano. Ao mesmo tempo, as maiores economias do mundo experimentam juros reais negativos. Nos Estados Unidos, eles estão em -0,58%; no Japão, -0,75%; nos países da União Europeia, variam de -1,2% (Portugal) a -2,87% (Hungria).

“Se tiver espaço para cortar, sem prejudicar a inflação, não tem motivo para não fazer”, diz José Júlio Senna, responsável pelo Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). “Mas a atividade econômica não depende só dos juros, como mostra o exemplo internacional.”

Ele diz que os problemas de crescimento do País precisam ser atacados no médio e longo prazos. “Tem de melhorar a infraestrutura, reduzir a burocracia e a complexidade do sistema tributário.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Como investir na era do juro baixo: gestores de fundos dão dicas

'Estado' consultou seis grandes gestores e executivos de fundos ativos no mercado brasileiro para dar dicas ao leitor sobre como manter ganhos enquanto a Selic está em seu piso histórico

Pedro Ladislau Leite e Talita Nascimento, O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2019 | 05h00

Em busca de opções que mantenham a rentabilidade, cada vez mais brasileiros têm apostado em aplicações com maior risco do que os tradicionais caderneta de poupança e Tesouro Direto – afinal, se antes era possível ter retornos de até 1% ao mês sem arriscar demais, hoje já não é tão simples assim. Para auxiliar o leitor a navegar em mares um pouco mais turbulentos, o Estado ouviu seis grandes gestores e executivos de fundos ativos no mercado brasileiro. 

Crescimento vai voltar e deve gerar ganhos, diz Parreiras, do Verde

Na contramão de boa parte do mercado, Luiz Parreiras, estrategista da Verde Asset, vê a economia brasileira se reabilitando no segundo semestre. Como uma grande fatia do mercado ainda não vislumbra a volta do crescimento, ele afirma que as melhores oportunidades de investimento no período são as ações na Bolsa de Valores.

Outro fator de otimismo é uma futura alta do mercado acionário. Para Parreiras, a aprovação da reforma da Previdência ainda não foi totalmente incorporada aos preços, o que possibilita a valorização dos ativos depois da aprovação do texto. “Vemos mais oportunidade em ações, que serão mais impactadas por um crescimento melhor”, afirma. “O mercado hoje vive um pessimismo exacerbado. Estão subestimando a retomada econômica que devemos viver”, acrescenta o estrategista.

Segundo ele, o menor otimismo dos analistas se deve à frustração das expectativas do mercado no primeiro semestre. “O mercado entrou em 2019 animado com o crescimento e foi se decepcionando. Nós acreditamos que a economia doméstica, puxada pelo setor privado, vai ter uma retomada”, afirma.Um dos eventos mais importantes para acompanhar no segundo semestre, aponta Parreiras, virá do desenrolar do G-20, encerrado ontem no Japão.

“Vamos ver que caminho toma a guerra comercial entre Estados Unidos e China. Acreditamos numa espécie de acordo temporário, em que os países continuam negociando sem grandes disrupções ao longo dos próximos meses”, destaca. “Isso deixa a economia global mais ou menos na trajetória em que ela já está. Não é pujante, mas ao menos não é muito negativa.” 

Fundos são alternativa para iniciar migração, diz Mazzer, do BTG

Na visão de Rafael Mazzer, gestor do BTG Pactual Wealth Management, partir para fundos multimercado (que investem em vários produtos diferentes, tanto de renda fixa quanto de variável) é um movimento acertado dos investidores que não estavam habituados a tomar riscos. “Esses fundos podem ir para a Bolsa e o investidor não precisa se preocupar em tomar tantas decisões”, afirma. No caso de não conhecer muito bem o perfil de gestores dos fundos, ele aconselha que se opte pelos fundos com multigestores, nos quais mais de uma pessoa fica responsável por gerir os ativos.

 Na renda fixa, ele indica as debêntures de empresas de infraestrutura. Ainda que tenham reduzido seus rendimentos, elas são positivas no médio a longo prazos, diz. Para quem tem horizonte mais curto, Mazzer aconselha procurar fundos de investimento que compram essas debêntures, para poder ter retornos em menos tempo. Para quem tem horizonte mais longo e, portanto, mais apetite por risco, ele diz que investimentos atrelados à inflação ainda são uma boa opção. 

“Tesouro IPCA 2045 ou 2050, com taxa de inflação mais 4% ao ano”, diz. Mazzer explica que esses são títulos menos arriscados que os prefixados. “Nos papéis com IPCA, o investidor tem o para-choque da inflação. Se tudo der errado, a inflação tende a crescer”, diz. “Assim, no horizonte curto, se faz uma gestão alternativa ao CDI e, no longo, aproveita-se o movimento estrutural do mundo de juros baixos e a melhora do risco de crédito do Brasil.” Diz ainda que o portfólio recomendado do banco, que antes indicava 5% dos investimentos na Bolsa, agora indica 10% nesses ativos.

Investir no exterior deve deixar de ser tabu, diz Forster, do Western

A Bolsa pode muito bem bater os 120 mil pontos no curto prazo, avalia Marc Foster, diretor da Western Asset.

Isso em um cenário que prevê a aprovação da reforma da Previdência neste ano. A entrada de estrangeiros no mercado brasileiro seria um dos combustíveis para a alta. “Eles ainda esperam sinais mais contundentes de aprovação para voltar. Uma vez confirmada (a aprovação da reforma), destrava a vinda de agentes que estão mais preocupados com o longo prazo, que têm preocupação com a moeda.”

Mesmo com um tom otimista, Foster recomenda que os investidores procurem ativos que não estejam atrelados ao desempenho da economia brasileira. “Se a Previdência não passa, as dicas que eu dei dão errado. A Bolsa cai porque a economia colapsa”, afirma. “O exterior permite sair disso, ter alocação internacional, sem necessariamente correr risco cambial.”

Como as opções para quem tem menos de R$ 1 milhão aplicado são mais restritas, ele explica que a via mais fácil para o investidor regular ter exposição no exterior é por meio de fundos multimercados que aplicam uma parte lá fora. “É um caminho que o brasileiro vai cada vez mais explorar. Aí você diversifica de verdade.”

Sobre a queda dos juros, ele não recomenda uma mudança brusca da renda fixa para a variável. “A primeira solução para a Selic baixa é entender que não existe bala de prata”, afirma. O correto, segundo Foster, é buscar o longo prazo, com posições diversificadas. Ele acrescenta que não basta apenas avaliar a rentabilidade dos ativos, mas ponderar o risco corrido. “O risco do paraquedismo só aparece quando o paraquedas não abre.” 

Na bolsa, opção é pela qualidade dos papeis, diz Hazzan, do Safra

Para Mauricio Hazzan, diretor de investimentos do Safra Private Banking, o contexto de juros baixos deve levar o investidor a buscar alternativas mais rentáveis na Bolsa de Valores, já que, em comparação com outros países, os brasileiros se expõem pouco a riscos. 

“O investidor lá fora tem exposição a juros e a empresas listadas na Bolsa. O brasileiro tem menos de 5% em ativos ligados ao Ibovespa (principal índice da Bolsa). Esse número vai crescer, porque é um ativo que gera retorno melhor que o CDI (Certificado de Depósito Interbancários, título emitido por instituições financeiras) ou que investimentos que rendem pouco acima do CDI”, diz.

Na Bolsa, os setores mais promissores são os impactados diretamente pela queda de juros. “São os que têm ciclos mais longos: concessões rodoviárias, energia, saneamento, shoppings ou imobiliário.” Hazzan explica que setores que dependem de juros no longo prazo aproveitam esse cenário para se financiarem. Ele pondera, no entanto, que, ao olhar para esse setor, é preciso ficar atento à qualidade dos ativos e verificar a eficiência das empresas em que se pretende investir.

O diretor do Safra Private Banking ainda indica os fundos imobiliários como uma boa opção: “O mercado imobiliário sente a queda de juros na veia, pois juros mais baixos ajudam não apenas a construtora, mas a pessoa física que compra”. Para o gestor, os investidores brasileiros terão também de ter mais paciência. “O jogo é de mais longo prazo. Investimento sempre foi assim, mas ficamos mal acostumados com um CDI alto, quando era possível dobrar o dinheiro investido a cada três ou quatro anos”. 

Ganho com renda fixa ficará perto de zero, diz Giufrida, da Garde

Além da reforma da Previdência, uma agenda positiva pode impulsionar os ativos brasileiros, diz o gestor Marcelo Giufrida, sócio da Garde Asset. Entre os fatores estão a autonomia do Banco Central, a reforma tributária e as privatizações. O BC terá um papel importante na tentativa de modernizar a legislação de câmbio e abrir mais espaço para a presença de fintechs no sistema financeiro, avalia Giufrida.

Esse quadro, e considerando que a atividade econômica vai sair do fundo poço, pode levar o Ibovespa, principal índice de ações do País, a se valorizar de 10% a 15% ainda neste ano. O caminho até lá, contudo, não deverá ser exatamente tranquilo, prevê Giufrida. “Nos últimos dias, por exemplo, quando se passou a adiar o calendário (da reforma da Previdência), o mercado sentiu, porque já tinha dado como favas contadas”, afirma.

De acordo com o sócio da Garde, um dos elementos que deve aumentar as oscilações no segundo semestre são as eleições municipais, previstas apenas para o ano que vem: “Está no radar a sucessão e os deputados não querem se desgastar. O cenário eleitoral estará mais perto e muita coisa no Congresso leva em conta anos à frente”, destaca.

Para o investidor conservador, ele lembra que, se ficar na renda fixa tradicional, os ganhos devem se aproximar de zero. “Esse investidor deveria considerar sofisticar a renda fixa com bons gestores especializados no mercado de crédito. Ou fundos imobiliários voltados a Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), que têm isenção fiscal”. Para os mais arrojados, com estômago para as oscilações, faz sentido aumentar a parcela investida na Bolsa. 

Diversificar é a saída para mitigar risco maior, diz Kfouri, do BNP Paribas

Na visão de Gilberto Kfouri, diretor de renda fixa e multimercados do BNP Paribas Asset Management, o investidor tem de se acostumar a um nível de risco maior e se preocupar menos com o curto prazo. “É preciso parar de olhar para o CDI (Certificado de Depósito Interbancário, título emitido por instituições financeiras), aceitar um pouco mais de volatilidade e saber que é possível perder um pouco no dia a dia”, diz. 

O gestor vê que os investidores podem assumir esses riscos na renda fixa – em papéis mais longos –, em crédito privado, em títulos prefixados, NTN-B (título do tesouro atrelado à inflação) com vencimento mais longo, além da Bolsa de Valores. “A Bolsa tem uma perspectiva de ganho maior, mas o risco também é maior. Por isso, é preciso ter uma carteira diversificada.”

Kfouri afirma que pessoas conservadoras podem começar por papéis de prazos maiores: títulos do tesouro prefixados ou NTN-B mais longo. O investidor moderado pode ter parte de seu dinheiro na Bolsa. Os mais agressivos, por sua vez, com horizonte de investimento maior, poderão ter um porcentual mais abrangente desses ativos e olhar para fundos imobiliários e de private equity (que levantam capital para adquirir participação em empresas já desenvolvidas). 

O gestor avalia que ainda há espaço para uma alta do Ibovespa, o principal índice da Bolsa. “Com juros baixos, quando se faz a avaliação das empresas, há uma melhora pela redução do custo de oportunidade. As empresas terão um crescimento melhor do que a economia real”, diz. A ressalva dele vai para o cenário internacional: “Depende-se de fluxo de estrangeiros para dar sustentação à Bolsa de Valores”. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

'Presidente optou por se tornar rainha da Inglaterra', diz Pessôa

Pessôa avalia que reforma da Previdência deve passar, mas não é suficiente e ainda é difícil prever o que virá a seguir

Entrevista com

Samuel Pessôa, pesquisador do Ibre/FGV

Douglas Gavras, O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2019 | 05h00

O Congresso deve conseguir aprovar a reforma da Previdência, apesar da falta de articulação do Executivo, avalia o chefe de crescimento econômico do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas, Samuel Pessôa. “Difícil é imaginar o dia seguinte. Mudar a Previdência é uma condição necessária, mas ela não é suficiente (para reaquecer a economia)”, diz.

Para Pessôa, há condição para que o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, corte os juros básicos. Ainda assim, antes de aprovar a Previdência, o governo não tem espaço para muitas medidas de curto prazo. A seguir, trechos da entrevista: 

Por que a economia não reage?

Quando o presidente Jair Bolsonaro ganhou a eleição, houve um excesso de otimismo com o governo, as pessoas imaginavam que o presidente iria operar o sistema político da forma convencional, atendendo ao conjunto de regras de funcionamento do presidencialismo de coalização, nos mecanismos de relacionamento do Executivo e Legislativo desenvolvidos ao longo do mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e que serviram de padrão para os outros governos em seguida. 

 

Fazendo articulações? 

É a forma como o presidente negocia, de maneira republicana, a construção da base de sustentação e compartilha poder com partidos que são próximos a ele, mantendo uma participação proporcional ao tamanho e ao peso de cada partido. Isso o Bolsonaro não quis implementar, o que gerou uma enorme frustração de expectativa em todo mundo e desestimulou investimentos. 

As dificuldades políticas têm atrapalhado as reformas e a recuperação da economia?

O presidente construiu uma candidatura, foi eleito e está prestes a aprovar uma reforma da Previdência sem se comprometer com ela. Bolsonaro é o maior interessado na aprovação da reforma, mas ela deve passar sem a liderança dele. Em geral, o fracasso do desempenho da economia é atribuição do Executivo, mas Bolsonaro conseguiu uma coisa original: jogou no colo do Congresso a responsabilidade pelo desempenho fraco que a economia brasileira tem tido. 

Essa postura tem dado certo?

Na última semana, o presidente se queixou de que o Legislativo quer esvaziar o seu poder, transformando Bolsonaro em uma espécie de ‘rainha da Inglaterra’ (ao comentar um projeto da Câmara que transfere aos deputados o poder de fazer indicações para agências reguladoras). Isso é uma coisa que muito me espanta. Ele escolheu ser ‘rainha da Inglaterra’. Ele fez toda uma campanha demonizando a política tradicional, mas não existe outra política - ela pode ser bem-feita ou de pior qualidade, mas não há outra. Quando o presidente não toma a liderança da negociação entre Legislativo e Executivo e diz que toda política é roubalheira, ele se exime de fazer política. O Brasil já havia aprendido a operar nos marcos do presidencialismo de coalização padrão e eu sou uma certa viúva dele. Hoje, temos um governo de extrema direita, que não se preocupa tanto com a agenda econômica do País.

Aprovando as mudanças na Previdência, o que vem a seguir?

Mudar a Previdência é uma condição necessária, mas não é suficiente. Ela consegue colocar a economia rodando a 2%, ao invés de 1%, como agora. Há toda uma agenda de outras reformas que precisam ser feitas, mas tenho dificuldades de desenhar o dia seguinte à aprovação da reforma da Previdência, não sei qual vai ser a reação do Congresso. Não sei como ficaria o contorno da política. Pode ser que o presidente continue no palanque, fazendo guerra cultural, matando os comunistas que ele diz encontrar por aí. E o Congresso, tocando a agenda das demais reformas, em paralelo ao governo.

O governo pode tomar medidas para tentar reaquecer a economia no curto prazo?

Não tem muita coisa que pode ser feita além das reformas, mas o Banco Central sinalizou que haverá um ciclo de queda dos juros depois da aprovação da reforma da Previdência. Se olharmos o gasto público hoje, tem um espaço de R$ 35 bilhões que poderiam ser gastos na manutenção de estradas. Não valeria a pena construir coisas novas, mas colocar algum dinheiro na manutenção de estradas e pontes. Mas é preciso passar a etapa da reforma da Previdência. Qualquer medida que for tomada antes que o País tire a reforma da frente pode aumentar o risco-país, gerar um aumento de percepção de risco lá fora, o que seria uma coisa ruim para o crescimento econômico.

A redução dos juros poderia ser mais rápida? 

Independente da percepção das pessoas, a gente está discutindo pouco abaixo dos juros atuais. Eu entendo que o Banco Central tenha dificuldade de iniciar essa discussão sem tirar o tema da Previdência da frente. Mas o ciclo de queda de juros sempre ajuda um pouco, pode ter algum espaço para incentivar a infraestrutura.

O boletim Focus, do Banco Central, tem trazido previsões cada vez mais baixas para o crescimento do País este ano. Alguns economistas estimam crescimento inferior a 1%. O senhor concorda com essas expectativas? 

Eu sou um pouco mais otimista do que parte dos economistas tem sido até agora. Aqui no Ibre, nós projetamos 1,2% de crescimento do País para este ano. O argumento que a gente sustenta é que o consumo das famílias tem tido uma recuperação. É medíocre e a produtividade ainda está muito baixa, mas pode ajudar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.