Marcos Brindicci|Reuters
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Com Macri, agronegócio brasileiro espera destravar acordos via Mercosul

Associação Brasileira do Agronegócio alertou que a promessa de Macri de reduzir a taxação de exportações de produtos agropecuários pode provocar impactos no mercado de soja

GUSTAVO PORTO, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2015 | 17h55

RIBEIRÃO PRETO - O diretor-executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Luiz Cornacchioni, informou hoje que a vitória do oposicionista Mauricio Macri na eleição presidencial da Argentina é positiva, principalmente pela intenção do político de ampliar o comércio externo do País. "Ele deve mexer na questão do Mercosul e destravar acordos, principalmente com a União Europeia, um desejo antigo do agronegócio brasileiro", afirmou.

Cornacchioni, no entanto, lembrou que a promessa de Macri de reduzir e até zerar a taxação de exportações de produtos agropecuários pode provocar impacto no curto prazo no mercado de soja. Com uma média de 30% de taxação sobre grãos, produtores argentinos passaram a estocar a oleaginosa, cotada em dólar, como uma forma de poupança cambial. "Há uma ameaça ao produtor, pois o aumento nas exportações de soja argentina pode pressionar o preço da commodity, que já não é tão alto", afirmou. "Mas o produtor brasileiro tem formas de se proteger e muitos já fizeram hedge (venderam a preço prefixado) para esta safra 2015/2016", concluiu.

Já o presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Cosag/Fiesp), João Sampaio, avaliou que a vitória de Macri deve favorecer futuros negócios da indústria brasileira de carnes naquele País. Segundo ele, o fim das "retenções" taxação média de 30% nas exportações argentinas, prometido pelo presidente eleito, estimulará a retomada de plantas fechadas, bem como possíveis negócios das companhias.

Fontes do setor apontam que a Minerva Foods teria interesse em aquisições de unidades na Argentina, o Marfrig pretende vender plantas e ainda o JBS pode retomar processadoras paralisadas após as exportações serem prejudicadas pelas "retenções". Apesar de ter um status sanitário parecido com o Brasil e não agregar valor como o Uruguai - que exporta há tempos Estados Unidos e China -, a Argentina é vista como estratégica pelas companhias do setor por ter acesso a importantes mercados na Europa.

Segundo Sampaio, o Brasil não deve perder mercado para os argentinos no setor de proteína animal, por causa do volume pequeno de exportações do país vizinho, mas o impacto no setor de soja pode ser significativo, concorda com a Abag Sampaio. 

Para Sampaio, no geral, o agronegócio da Argentina deve retomar a competitividade internacional com o novo governo. "Se Macri seguir o que falou, vai mudar parte significativa da economia, ampliar as exportações com a eliminação das 'retenções' e melhorar a competitividade", afirmou o presidente do Cosag/Fiesp, que esteve reunido há uma semana com representantes do setor na Argentina e observou um clima "de euforia" entre os ruralistas com a iminente vitória de Macri, confirmada ontem.

A vitória de Macri foi "politicamente positiva" na avaliação do presidente de Sociedade Rural Brasileira (SRB), Gustavo Junqueira. No entanto, segundo a liderança ruralista, "o competidor brasileiro, antes aprisionado, vai voltar a operar", caso Macri cumpra a promessa de retirar a taxação de exportações de produtos agropecuários, as chamadas retenções, que variam de 20% a 35%.

"Argentina sempre foi concorrente de respeito, mas o setor agropecuário sofreu com a incompetência dos Kirchner e o Brasil se aproveitou para navegar tranquilo em carne e soja", disse. "Agora o competidor aprisionado vai voltar a operar e a retirada das taxações, mesmo que não seja imediatamente, vai ajudar os argentinos, que já são muito competentes no marketing, a retomar as vendas externas", completou Junqueira.

O presidente SRB admite que os estoques de grãos formados pelos argentinos durante o período das retenções, estimados em 18 milhões de toneladas, ou US$ 8 bilhões, podem ter um poder de derrubar preços de commodities, caso sejam desovados após a retirada das taxações. Outro temor de Junqueira é a possibilidade de a China negociar a aquisição desses estoques, principalmente de soja, e conseguir arbitrar o mercado no futuro, trazendo pressão principalmente para os produtores brasileiros, maiores fornecedores do grão àquele país.

"Os chineses são bons mercadores e já fizeram um acordo espacial recentemente com a Argentina. Eles poderiam muito bem fazer uma negociação específica para comprar esse estoque e conseguir arbitrar o setor de grãos", concluiu.

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