Com manteiga é melhor
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Com manteiga é melhor

O ensinamento da avó de Christine Lagarde, do FMI, mostra que as encrencas da economia serão facilitadas com crescimento; no caso do Brasil, o grande desafio é colocar em ordem as contas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2016 | 22h00

No último dia 10, em entrevista ao canal americano de notícias CNN, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, fez referência a um ensinamento da avó: “Tudo é melhor com manteiga”. O âncora resumiu depois com uma frase: “With butter is better”.

Por meio da metáfora, Lagarde quis dizer que as soluções para as atuais encrencas da economia mundial seriam facilitadas se houvesse mais crescimento econômico, observação que também vale para o Brasil, que enfrenta a paradeira asfixiante de que todos sabemos.

Nesta quinta-feira, o Banco Central apresentou a tomada de pulso da atividade econômica do Brasil (o Índice de Atividade Econômica do Banco Central, o IBC-Br). A nova queda de 0,9% em agosto em relação a julho (veja o gráfico) sepultou as esperanças de recuperação da atividade econômica neste terceiro trimestre do ano. Se alguma houver, será a partir do quarto trimestre e só então se poderá saber se o brasileiro terá voltado a passar manteiga no pão amanhecido que está obrigado a engolir a seco.

Na recessão, tudo fica mais difícil. A renda cai, o desemprego aumenta, as dívidas estouram. A arrecadação baqueia, os rombos se multiplicam, os projetos são adiados – e nas casas onde não há pão, e são muitas, todos gritam, ninguém tem razão e as soluções se esgarçam.

No entanto, a enrascada da economia mundial a que se referiu Lagarde é de destravamento mais complicado do que a do Brasil. Os grandes bancos centrais fizeram de tudo para azeitar os negócios, as economias nacionais estão atoladas em enormes déficits fiscais, as despesas com seguro-desemprego e seguridade social aumentam exponencialmente num ambiente de quebra persistente de arrecadação.

O desemprego aumenta, a gritaria também, a sensação é de alastramento do mal-estar, que o francês prefere chamar de malaise. Tudo isso vem acompanhado da percepção de aumento das ameaças, de que cada vez mais estranhos procuram meter a mão no prato da família. São os asiáticos – e não só os chineses – que empurram mundo afora mercadorias produzidas com salários baixos e, nesse jogo, matam a indústria e o emprego nos países mais avançados; e é a inundação do mercado de trabalho com novas ondas de imigrantes e de refugiados. Assim, a manteiga desaparece da mesa das pessoas comuns, o discurso populista ganha audiência, as políticas protecionistas prosperam e tudo fica mais difícil.

No Brasil, esse climão asfixiante também prevalece, como todos vivenciamos. Mas, ao contrário do que acontece na Europa, as soluções, embora dolorosas, estão disponíveis e o potencial de retomada do crescimento econômico, do emprego e da renda é incomparavelmente maior.

Somos uma economia desarrumada por alguns anos de políticas equivocadas e experimentos econômicos desastrosos, mas o País tem projeto. Basta que a casa seja colocada em ordem para que a economia volte a funcionar.

No momento, o grande desafio é colocar em marcha a arrumação, que consiste em reequilibrar as contas públicas e em providenciar as reformas, tão desgastantes e tão sofridas. Se for com manteiga, será melhor.

CONFIRA:

Por onde começar?

Não há sinais de que o aumento do consumo comece a puxar pelo crescimento econômico. O desemprego, a queda da renda e o alto endividamento das famílias tendem a atrapalhar a retomada. Se o resto do mundo estivesse crescendo, as exportações poderiam ajudar. Mas não é este o caso.

Investimento

O setor que mais pode contribuir para a virada é o investimento, principalmente o acionado pelas obras públicas e pelo leilão de concessões de serviços públicos. Os obstáculos nesse campo são o rombo fiscal (falta de recursos) e a falta de regras atraentes e firmes de jogo nas concessões.

Capacidade Ociosa

No entanto, como o Banco Central admitiu no comunicado do Copom, a forte capacidade ociosa (cerca de 21%) é fator hoje negativo que pode rapidamente se transformar em positivo. Permitiria o aumento da produção sem investimento adicional. Mas, por enquanto, prevalece a redução da capacidade de consumo da população.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.