Com medidas cambiais, Mantega espera real menos valorizado

O pacote cambial anunciado hoje pelo governo deve reduzir a entrada de dólares no País, já que os exportadores não terão mais a obrigatoriedade de trazer todos os seus recursos para o Brasil. Inicialmente, o Conselho Monetário Nacional (CMN) deverá estipular que apenas 70% dos dólares dos exportadores precisam entrar no Brasil. Ou seja, haverá uma redução na oferta de dólares no mercado interno. Isso poderá reduzir a queda do dólar frente ao real.Contudo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que as medidas cambiais anunciadas não têm por objetivo enfraquecer o real. "O objetivo é evitar que a moeda se valorize tanto", disse ele ao classificar o processo de fortalecimento do real de uma "conquista". Segundo ele, por conta dos fundamentos sólidos da economia e do desempenho forte da balança comercial, a tendência do real é de se valorizar. "O que queremos é atenuar esta tendência, à semelhança do que faz a maioria dos países".Para o ministro, o impacto das medidas não será imediato na taxa de câmbio, e só deve começar a ter efeito de 15 a 20 dias, quando a medida provisória já estará editada e o Conselho Monetário Nacional (CMN) já terá oficializado a permissão para que 30% dos recursos exportados fiquem fora do País. "A mudança no fluxo só vem depois da MP e do CMN. Não acredito que o mero anúncio das medidas tenha efeito", disse.Ele evitou responder a uma pergunta sobre para quanto a taxa de câmbio poderia subir. Ele disse que o governo não tem um patamar definido para a taxa de câmbio e, por isso, não pode fazer essa previsão.O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, também avalia que as medidas cambiais não terão impacto imediato na taxa de câmbio ou no desempenho da balança comercial do País. "O pacote é de redução de custos, não para melhorar a taxa de câmbio", disse. Além disso, segundo ele, no curto prazo as empresas já fecharam os contratos por Adiantamento de Contrato de Câmbio (ACC). No longo prazo, por outro lado, as empresas poderão vir a retardar o ingresso de divisas no Brasil e o menor ingresso poderá elevar a taxa de câmbio.Juro alto continuará atraindo dólaresO impacto dessa medida nas cotações do dólar, contudo, não é consenso entre analistas. O ex-diretor da Área Externa do Banco Central (BC), Emílio Garófalo Filho acredita que as altas taxas de juros no Brasil continuarão atraindo dólares para o mercado interno. Ou seja, os investidores estrangeiros - e mesmo os exportadores - continuarão a aplicar em ativos remunerados em juros. "Neste contexto, não dá para o BC segurar a queda do dólar", opina o ex-diretor do BC. Mas, de qualquer forma, a redução dos custos do exportador está garantida.Dólar x inflaçãoDepois destas medidas, com uma possível alta do dólar frente ao real, a preocupação é de que forma a inflação seria impactada por este cenário. Dólar em alta encarece as importações de produtos e matérias-primas e a tendência é o aumento dos preços. Mantega não acredita neste cenário.Ele lembrou que quando assumiu o Ministério da Fazenda, a taxa de câmbio estava próxima a R$ 2,00 e que hoje o dólar está em torno de R$ 2,20. Com isso, o ministro observou que já houve uma desvalorização do real e que o impacto desse fato na inflação foi nulo. "A inflação está caindo", afirmou.Ao responder sobre a possibilidade de as medidas cambiais terem impacto na inflação, Mantega respondeu: "Pode ter ou pode não ter. Se for, será pequeno". O ministro disse ainda: "Não estamos preocupados".Governo mantém controle cambialO ministro ponderou, no entanto, que mais uma vez o governo, a qualquer momento, pode suspender essa liberalização. "O governo mantém todos os controles cambiais", afirmou, lembrando que a legislação brasileira permite, inclusive, a adoção da centralização cambial. Mais tarde, Mantega voltou a dizer que o câmbio é flutuante.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.