JF Diório
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Com mercado imobiliário em baixa, WTorre investe em entretenimento

Responsável pela construção do estádio do Palmeiras, a empresa, que ficou conhecida por desenvolver prédios de escritórios, decidiu diversificar os negócios com teatros e ginásios; o primeiro será inaugurado em São Paulo em setembro

MÔNICA SCARAMUZZO, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2015 | 02h02

Para reduzir sua exposição em ativos imobiliários, sobretudo escritórios, que enfrentam um momento difícil, com grande oferta e ritmo desacelerado de vendas, o grupo WTorre decidiu reforçar suas apostas na área de entretenimento. A companhia - responsável pela construção do Allianz Parque, o novo estádio do Palmeiras, que além dos jogos é palco para shows de grande porte - vai investir na construção de teatros e ginásios indoor.

O primeiro teatro vai ser inaugurado em setembro no complexo do Shopping JK Iguatemi, que engloba as torres do prédio do Santander, com investimentos de cerca de R$ 100 milhões. O segundo será no Morumbi, onde a construtora ergue duas torres comerciais, com inauguração prevista para 2016, e aportes em torno de R$ 70 milhões. "Há uma carência na cidade por casas de espetáculos de grande porte, para realização de musicais, por exemplo", disse ao Estado, Rogério Dezembro, presidente da área de entretenimento do grupo.

Com alto endividamento, a estratégia de diversificação dos negócios da companhia dá novo fôlego para o grupo, que pertence ao empresário Walter Torre.

Além de investir em entretenimento - como estádio, teatros e projetos, ainda em discussão, para a construção de dois ginásios indoor (um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro), que terão flexibilidade para realizar eventos esportivos e shows de menor porte -, o grupo também deverá anunciar em breve investimentos em infraestrutura portuária. A companhia já avalia negócios no Maranhão. A WTorre, que originalmente começou como construtora, atua em desenvolvimento imobiliário, infraestrutura e logística.

No ano passado, a empresa registrou um faturamento de R$ 1,5 bilhão. Desse total, R$ 636 milhões são considerados receitas extraordinárias - oriundas da venda do JK Iguatemi no ano passado (64% estão nas mãos da família Jereissati, dona do Iguatemi, e o restante pertence ao fundo de pensão americano TIAA). Metade desses recursos foi para reduzir a pesada dívida da companhia, que encerrou o ano passado em R$ 900 milhões, ante R$ 1,2 bilhão em 2013.

De acordo com Dezembro, a decisão de criar uma divisão de entretenimento foi em parte atribuída à construção do Allianz Parque, que garante ao grupo as receitas com o aluguel do estádio para shows - em novembro do ano passado, o ex-Beatle Paul McCartney fez duas apresentações no estádio. Além disso, a arena tem espaço dedicado a eventos para realização de congressos a casamentos. A companhia tem como parceira a gigante americana AEG, especializada em gestão de arenas, que também poderá assessorar o grupo nos teatros.

Já a receita com os jogos fica nas mãos do Palmeiras. As relações entre a construtora e a direção do clube são tensas - a companhia e o clube tentam resolver o conflito por meio de arbitragem sobre o direito de venda das cadeiras do estádio para o torcedor.

Com a remodelação do estádio do Palmeiras, a WTorre fechou em 2013 acordo, por 20 anos, com a seguradora Allianz de "naming rights" (direito de batizar o local), por R$ 300 milhões, de acordo com fontes. Os dez anos restantes de gestão da WTorre sobre a Arena serão discutidos no futuro, mas a prioridade é da Allianz. A seguradora já tem o nome em vários estádios pelo mundo e o principal deles é o da Alemanha, campo onde joga o Bayern de Munique. O mesmo contrato foi fechado com o Santander, que batiza o teatro.

IPOs frustrados. Entre 2007 e 2010, quando o mercado imobiliário viveu um forte boom, com lançamentos de vários empreendimentos, tanto residenciais como comerciais, o grupo WTorre tentou por duas vezes, sem sucesso, fazer uma oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês). A falta de interesse dos investidores pelos papéis da companhia levou a empresa a tomar novos rumos, com a diversificação dos negócios e a busca de novas formas de se financiar.

"Walter (Torres) é uma figura controversa. É um empreendedor nato, mas não olha o operacional. Trocou de executivos nesses últimos anos e é através de seu sócio (minoritário), Paulo Remy, que o grupo está se reorganizando", disse uma fonte ao Estado. Os executivos Marco Antonio Bologna, ex-TAM, e João Cox, ex-Claro, passaram pelo grupo entre 2007 e 2010, quando a WTorre tentou ir à Bolsa.

Desde então, o grupo teve de buscar financiamento no mercado e passou a vender ativos para reduzir sua dívida. Nas últimas semanas, a WTorre informou que deve aderir à oferta pública de ações (OPA) da BR Properties, de quem é sócia com uma fatia de 8,4%. O BTG e a Brookfield Properties ofereceram R$ 12 por papel para fechar o capital da companhia.

"Não ter aberto o capital foi a melhor coisa que pôde acontecer para a WTorre, considerando a desvalorização dos papéis das empresas do setor imobiliário. Eles também tiveram muita sorte de vender o JK. Foi o 'timing' correto. Depois, os preços dos ativos começaram a cair", disse o gestor de um grande fundo.

Para Roberto Patiño, diretor de transações da consultoria imobiliária JLL(Jones Lang LaSalle), o grupo tem focado mais em construção de prédios sob demanda, como as torres do Morumbi, em que o BTG detém 75%. E as apostas em galpões logísticos são acertadas, uma vez que o País tem demanda por esse tipo de empreendimento.

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