Tim/Divulgação
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'Com o 5G, nosso limite será a imaginação', diz CEO da Tim no Brasil

Às vésperas do leilão da nova tecnologia no Brasil, executivo analisa as mudanças que ela trará e como bem aproveitá-las

Entrevista com

Pietro Labriola, CEO da Tim no Brasil

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2021 | 05h00

Não é simples o desafio que tem pela frente, no Brasil, o executivo italiano Pietro Labriola*. Atuando há 17 anos no grupo Telecom Itália, e há 13 meses como CEO da Tim no Brasil, sua missão é pilotar a empresa, com destreza, pelos caminhos do sistema 5G. Essa nova tecnologia, que em breve entrará na rotina dos brasileiros, trará um salto gigantesco no potencial de conexão, no consumo de dados e também avanços como cidades inteligentes e carros conectados. 

O dia a dia de Labriola tem tudo a ver com isso. Italiano de Bari, onde se especializou em inovação e tecnologia, ele já circulou, entre 2015 e 2018, pelas áreas de marketing, tecnologia e relação com consumidores da Tim. Hoje, a quem lhe pergunta sobre o 5G, define: “Com ele, o nosso limite será a imaginação”. E dá um exemplo: “Em 2015, o cliente gastava 300 megas para ver vídeo; hoje, gasta 4 gigas. Dez vezes a mais em cinco anos”. Não por acaso, os planos da Tim para investir no Brasil, até 2023, “passam dos R$ 13 bilhões, e isso ainda não inclui o 5G”.

Mas a pandemia não atrapalha? Nesta entrevista para o projeto Cenários, Labriola explica: “Nessa pandemia, sem conexão você não faz nada. As telecomunicações viraram serviço essencial”. A seguir, os principais trechos da conversa.

Estamos numa fase de suspense com a disputa do 5G no Brasil. Pode explicar por que isso é importante?

Já tivemos uma revolução ao passar do 3G para o 4G, tempos atrás. O 4G começou a ser construído em 2015 e todo mundo foi vendo a diferença. E, agora, quais as diferenças do 4 para o 5G? Como já disse o ministro (das Comunicações) Fábio Faria, “o 4G era uma solução para as pessoas e o 5G é uma solução para as empresas”. Alguns executivos dizem que 4G é um modelo B2C, Business to Consumer, e o 5G é B2B2C – Business to Business to Consumer.

E o que isso quer dizer?

No 4G, a Tim poderia vender um serviço móvel de qualidade melhor para você, e a decisão de comprá-lo era mais simples. Meus diretores, por área, iam definindo o custo da frequência, a construção da rede, o financiamento, a receita necessária. E na ponta vinham as alavancas para vender – a loja, o preço, o serviço. 

E o modelo de celular oferecido...

O modelo, tudo. Quando cheguei ao Brasil, em 2015, um cliente médio gastava 300 megas para ver vídeo. Hoje, gasta 4 gigas. Mais que 10 vezes em cinco anos. E na etapa 5G, o que acontece? Provavelmente você vai ver a Netflix mais rapidamente. Em que sentido? Em que, com o 4G, para baixar as cinco temporadas de Breaking Bad você precisa de 7 a 8 minutos; com o 5G, precisa de 5 minutos. Ou seja, os brasileiros já estão satisfeitos por ver toda a série no 4G. E o 5G vai trazer funções mais importantes para a indústria e para as empresas. 

Pode dar alguns exemplos disso?

Um dos exemplos mais usados para o 5G é o do carro conectado. Tem de saber lá com a Fiat Chrysler se ela vai lançar carro conectado no Brasil. E ligar para o Hospital Albert Einstein, ver se ele pretende lançar um serviço de telemedicina ou fazer cirurgia a distância. Perguntar à Prefeitura do Rio se estão interessados em colocar um drone com câmara ultraHD para verificar a segurança na cidade. Enfim, temos um nível de incerteza maior...

Resumindo, não dá para definir com antecedência a demanda pelo 5G. 

Isso. 

Definir não depende da Tim...

Sim, são níveis de incerteza. Em maio de 2019, expliquei à TeleBrasília como o 5G é um desafio para o Brasil, porque o elemento habilitador do novo modelo de negócio é fundamental para a empresa e para o crescimento da economia do Brasil. E temos de buscar um equilíbrio. Porque somos uma empresa aberta, privada, que tem de ter retorno do investimento. Por isso, falamos com o governo, com a Anatel, com o ministro, da importância de um leilão não arrecadatório. E houve consenso ao final. 

E qual foi o preço fixado?

Ainda não foi definido, temos de aguardar uns 60 a 90 dias para isso. Mas isso já está definido: não será um leilão arrecadatório. 

Como o governo vai definir esse preço se também não se tem o desenho da demanda?

Pois é, vai ser difícil. A Anatel já elaborou algum valor, que ainda não é público. 

Dá para ter uma ideia? Quanto se cobra em outros países?

Talvez isso não faça sentido, porque depende muito das características de cada país. 

De tecnologia, e não de pessoas, né?

Sim, frequência, e também modelo de competição. Veja, a Europa é tão grande quanto o Brasil, mas lá você tem mais de 100 operadores móveis. Então, cada área escolhe uma estratégia econômica e políticas públicas diferentes. Aí aparece o modelo americano ou o chinês – que tem pouca operadora também – e ele se torna o ganhador. O fato é que isso está virando, na verdade, um negócio de economia de escala e volume. Ter muita operadora não garante a capacidade de investir em cobertura e em inovação. Assim, o modelo brasileiro parece seguir o rumo mais correto. 

E como a Tim se vê nesse desenho?

Estamos fazendo um movimento. Lembrando que este é um País continental que já passou de 5 operadoras para 4. E se o Cade, a autoridade antitruste, aprovar a compra da Oi, passamos de 4 para 3. Importante explicar: isso não é nível de redução da competição, mas um incremento de nível. No Brasil, a cota de mercado das operadoras parece equilibrada entre Tim, Vivo e Claro, mas se você olhar os Estados, verá que cada um é diferente. 

Na Europa qual é o cenário, no caso?

Tem de mudar a lei europeia. Eu fiz um estudo sobre o assunto. A União Europeia colocou lá atrás que deveria haver o quanto mais de concorrentes, para se ter um nível de competição e diminuir o preço. E o que aconteceu? Que a Europa não tem os chamados “champions” nacionais. Cada operadora não tem tamanho para competir em nível global, entendeu? Há 30 anos, ninguém podia imaginar que esse viria a se tornar um mercado global. No Brasil, temos a boa sorte de termos um mercado interno com 200 milhões de habitantes. Nisso somos o quarto maior mercado do mundo. 

Acabamos de completar um ano de pandemia. Como funcionou a demanda da Tim no País? 

Somos um ecossistema feito de cliente e funcionário. A primeira coisa que fizemos foi colocar o funcionário em segurança, trabalhando em casa. Fizemos isso com 100% dos funcionários, em 24 horas. 

E a demanda, como ficou?

Descobrimos um forte crescimento do consumo de dados pelos clientes. E sabe por que foi que descobrimos isso? O cliente começou a pagar mais rápido que no passado. As pessoas entenderam que não podem ficar sem conexão. Na pandemia, sem conexão você não faz nada. Não vê filme, não faz videochamada, não pode trabalhar, estudar... Telecomunicações viraram um serviço essencial. 

Como as teles conseguem competir com o WhatsApp, por exemplo, que é um serviço grátis? Imagino que as pessoas estão usando muito menos a linha do celular, e a linha fixa está quase acabando, não?

Sim. E o que acontece? No velho modelo das telecomunicações de 2015, 2016, o WhatsApp foi um killer contra o quê? O SMS. Você, progressivamente, migrou do SMS ou da ligação para o envio de mensagem e ligação via WhatsApp. E o que fizeram as operadoras? Começaram a colocar pacotes de serviços com dados. Essa migração permitiu o crescimento. Então, o WhatsApp acabou com o modelo antigo das teles e ajudou no crescimento do novo modelo, o consumo de dados.

E daqui para frente? Qual será agora o novo WhatsApp do 5G?

Com o 5G, o nosso limite é a imaginação. Ele vai permitir, por exemplo, a comunicação em “virtual reality”. Acho que nos Estados Unidos foi apresentada, em uma loja, uma experiência: você consegue ver pessoas que aparecem fisicamente, mas não estão lá, é uma realidade aumentada. Temos de colocar rapidamente essa rede para permitir o desenvolvimento de tais aplicações. Você vai poder fazer cirurgia a distância. 

Sim, tem-se falado muito na precisão que o 5G dará à telemedicina.

Depende. Temos uma palavra nesse caso, a latência. Às vezes, falamos do 5G do marketing e do 5G de verdade. Este é o 5G que vai alavancar uma latência muito baixa. O que é essa latência? É o tempo para a outra ponta receber um comando enviado. Imagine um carro que se dirige sozinho, dotado de um sensor e tendo que entender se precisa parar ou não. 

Pois é, um segundo de diferença entre a vida e a morte...

Exatamente. Essa latência se torna um elemento-chave para o novo modelo de aplicação. 

Quais recursos vocês pretendem investir em 2021 no Brasil?

Como comunicado em nosso plano financeiro, imaginamos investir, entre 2021 e 2023, mais de R$ 13 bilhões – e nesse número não está incluído o 5G. Para o 5G ainda não sabemos, o gasto vai ser diluído no tempo até 2029. Não será um impacto muito grande.

Qual a participação da Tim mundial nas telecomunicações?

Não tenho esse número. Somos um grupo em dois países, Itália e Brasil. A parte Brasil está crescendo e nela a Tim Itália detém 67%. E estamos na Bolsa de Nova York e na Bolsa brasileira (B3), o que é muito importante.

Fala-se muito da investida da tecnologia chinesa no mundo inteiro. Eles seriam seus principais concorrentes?

Não, mas essa pergunta me permite explicar melhor esse contexto. Quando se fala em chineses, fala-se de quem vai produzir o equipamento que teremos de comprar para construir o 5G. Nosso posicionamento a respeito é: quanto mais fornecedores houver, maior a chance de termos um preço menor, o que se refletirá no preço final para o cliente mais competitivo. Nos últimos tempos, os chineses foram os que mais avançaram nessa área – simplesmente porque começaram mais cedo a trabalhar com o 5G. E isso lhes permitiu avançar em termos de conhecimento e competência. 

Qual o seu balanço sobre esse cenário daqui para a frente?

A Tim quer ser um dos motores dessa inovação. Os próximos três a cinco anos vão ser bem interessantes para quem gosta de tecnologia. 

*GRADUADO EM INOVAÇÃO E TECNOLOGIA PELA UNIVERSITÀ DI BARI (ITÁLIA), DIRIGIU ÁREAS DE MARKETING E TECNOLOGIA DA TIM ATÉ 2018. SAIU E RETORNOU EM FEVEREIRO DE 2019 PARA COMANDAR O GRUPO. 

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