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Miguel Medina/AFP
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Pedro Fernando Nery
Doutor em Economia
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Com o viés de confirmação, somos inclinados a selecionar informações amigáveis a nossas crenças

Em um momento em que não faltam escândalos de vacinas, história sobre a suposta utilização de imunizantes vencidos parecia possível

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2021 | 04h00

Segundas-feiras registram elevados índices de vários tipos de crimes. É o que dizem os dados oficiais. Não é que seja o dia mais violento da semana. É que, em vez de serem reportados no fim de semana, crimes menos graves são registrados, após uma espera, no próximo dia útil. Há atraso entre a data do ocorrido e a data do registro. Algo semelhante ocorre com a vacinação, e descompassos no registro de imunizações podem ter gerado o boato de que vacinas estão sendo aplicadas vencidas.

Aprendi sobre o “problema da segunda-feira” nas estatísticas do crime com as craques Joana Monteiro e Bárbara Caballero, que escreveram capítulo no Guia Brasileiro de Análise de Dados – Armadilhas & Soluções (gratuito, que organizei como Monasterio e Shikida). O subtítulo é pertinente: dados trazem armadilhas.

Já são quase 100 horas desde que a matéria “Milhares no Brasil tomaram vacina vencida contra covid" foi veiculada pela Folha de S. Paulo, relatando 26 mil doses de vacinas vencidas aplicadas em 1.500 cidades. Até agora, casos confirmados de vacina vencida após a matéria são ínfimos (apesar dos quase 100 mil compartilhamentos que teve só no Facebook). 

Prefeituras negaram a aplicação, justificando variados problemas com os dados. O Rio foi atrás de cada uma das pessoas na cidade que teriam sido imunizadas com as vacinas estragadas. Não achou nenhum caso.

Tudo indica que problemas no envio de dados enganaram os jornalistas, que não desconfiaram de que o atraso poderia ser não na aplicação das vacinas, mas no registro das aplicações. Ou erros de digitação. Em uma busca rápida no Twitter, encontrei quem não ia mais se vacinar porque vacinas estão vencidas a quem afirmasse que o pai tomou vacina velha, postando um cartão de vacinação que mostra o contrário. 

No WhatsApp, pânico. Apesar dos detalhes no texto da matéria, muitos entenderam que lotes inteiros vencidos foram usados. Podemos ver idosos quebrando o isolamento para buscar informações, revacinar, dosar o IGG. Internautas chegaram a conjecturar que este será o “Escola Base do jornalismo de dados”, referência a ser estudada sobre desinformação perigosa na era digital.

Como isso aconteceu? Por que um dos melhores e mais confiáveis jornais do País espalhou uma informação suspeita? Como jornalistas bem-intencionados se equivocaram?

Talvez um episódio de viés de confirmação. O conceito, difundido por um psicólogo que ganhou o Nobel de Economia, diz que somos inclinados a selecionar entre um conjunto de informações aquelas que são mais amigáveis a crenças que já temos. O pesquisador que quer testar uma hipótese pode achar nos dados somente provas que a confirmem. O influencer político pode compartilhar uma matéria que parece errada, porque ela confirma que seu inimigo é incompetente (governos federal e estaduais). O Datena pode ver a confirmação que este é um mundo-cão.

Em um momento em que não faltam escândalos de vacinas, a história parecia possível, a cereja do bolo para autores, editores e todos nós ávidos em compartilhar o conteúdo. Uma autora chegou no Twitter a contemplar sua matéria como prova para o impeachment.

Havia alertas nos dados. Eles implicavam número de aplicações inferiores ao das doses de um frasco naquelas datas. Distração generalizada de milhares de profissionais do SUS. Na cidade com mais casos, boa parte da população vacinada em apenas um dia. E, apesar da escassez de vacinas, mais de 100 mil paradas já vencidas pelo País. Os dados, digitados por humanos preocupados em vacinar ao máximo nas estruturas ao ar livre, registram ainda aplicações das vacinas “CornaVac” e “Ex Tabagista” (sic). 

Prefeituras poderiam ter sido escutadas, não só ouvidas. O portal do maior jornal online do Brasil seguiu 24 horas dando destaque para o caso, mesmo enquanto elas o refutavam. Nova matéria foi postada sobre casos de revacinação por vacinas vencidas – de fato identificados, mas já há muito tempo. A frequência: cerca de um por milhão. Viés de confirmação?

Boas notas de conselhos de secretários de Saúde e grupos de especialistas já permitem tranquilizar a população. É torcer pela correção e que o estrago seja mínimo. 

Muitos sucumbem ao viés de confirmação. Veja se você é um deles.

*DOUTOR EM ECONOMIA 

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