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Inflação dos alimentos desafia sazonalidade

Analistas consideram que inflação mais acelerada é influenciada por clima atípico, alta de custos para importação e gastos maiores com água e energia

Maria Regina Silva, O Estado de S. Paulo

12 de junho de 2015 | 15h58

SÃO PAULO - A alta dos preços dos alimentos in natura vem contrariando a sazonalidade e pressionando a inflação ao consumidor além do esperado para esta época do ano. A questão está ligada à redução da oferta que, por sua vez, segundo analistas ouvidos pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, é causada por motivos diversos, que vão desde o clima atípico a custos mais elevados com importação, por causa do dólar em alta, diminuição na área plantada, até gastos mais salgados com energia e água, que estão deixando a oferta menor desses produtos bastante demandados pelos brasileiros.

Se o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) já tinha apresentado um resultado significativo em abril (0,71%), em maio avançou mais, para 0,74%, surpreendendo até mesmo os mais pessimistas. Boa parte dessa alta veio do grupo Alimentação, que subiu 1,37% no quinto mês do ano (ante 0,97%) e teve uma participação de 0,34% no resultado efetivo da inflação. Os vilões desse avanço, como mostrou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram a cebola e o tomate.

Só em maio deste ano, a cebola subiu 35,59% e figurou na lista das maiores variações do IPCA, seguido pelo tomate (21,38%). As taxas destoam do observado no quinto mês de 2014, quando atingiram 6,31% (cebola) e 10,52% (tomate).

"A despeito dos itens terem peso pequeno, a hiper variação acaba aumentando a contribuição. Por isso, têm figurado entre as maiores altas do IPCA", explicou o economista Étore Sanchez, da LCA Consultores. Enquanto o tomate tem participação de 0,31 ponto porcentual na inflação cheia, a cebola tem uma influência de 0,17%, de acordo com o IBGE.

Os economistas apresentam um conjunto de razões para explicar a retração da oferta, atípica para esta fase do ano. "É uma combinação de fatores associada à redução de plantio, por conta de perda de lucratividade, quebra de safra e, em alguns casos, como a cebola, que tem uma parte importada, o câmbio", explicou o economista André Chagas, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

Chagas disse que vem se surpreendendo com o comportamento dos preços dos tubérculos, que estão mais caros que o sazonalmente esperado. No final de maio, registraram alta de 11,27% e avançaram para 13,10% na primeira leitura do IPC de junho. "Imaginávamos que poderiam dar uma trégua, especialmente a cebola, que vem sistematicamente elevada desde março, e vem se intensificando", disse.

No IPC-Fipe, que acompanha a inflação na capital paulista, a cebola tem alta acumulada de 97,6% apenas de janeiro a maio de 2015 e de 82,79% em 12 meses terminados em maio. Já o tomate, tem variação acumulada, no ano, de 84,44% e de 13,76% de maio de 2014 ao quinto mês de 2015. "Parte dessa variação do tomate é para compensar a queda verificada no ano passado. São situações diferentes. No caso da cebola, tem uma confluência de fatores. O que acontece com os preços da cebola lembra o que ocorrera com os valores do tomate anos atrás", comparou Chagas, lembrando ainda dos custos mais elevados neste ano com captação de água para irrigar o plantio, devido à crise hídrica em São Paulo. "Em relação à energia, pode não ter um impacto tão direto", considerou.

Já no âmbito do IPCA, que além de São Paulo apura a inflação em outras 12 capitais, a inflação da cebola ultrapassa 100% só neste ano e atinge 87,93% em 12 meses finalizados em maio. O tomate, por sua vez, conforme o IBGE, tem alta acumulada de 80,42% em 2015 e de 22,51% no acumulado de 12 meses.

O analista Francisco Queiroz, da consultoria MB Agro, enumera que, além de problemas decorrentes da diminuição da área plantada este ano, devido a preços mais baixos em 2014, os valores da cebola estão disparando agora em razão de quebra de safra no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, que normalmente abastecem o País nos primeiros meses do ano. Com oferta menor no Sul do País, a opção é a Argentina, parceiro do Brasil, do qual o País compra cebola. O problema, contou Queiroz, é que, com a desvalorização cambial, o valor do produto disparou. "Os preços de importação estão duas vezes maiores que os de 2014. Antes, a saca de cebola de 20 quilos custava R$ 50,00 e agora valem R$ 100 reais. Deve ter alguma influência da moeda, pois o comércio é feito em dólar", afirmou.

Com menos produto para oferecer ao consumidor, os preços do tomate também foram às alturas, mas, conforme o analista da MG Agro, já estão dando sinais de desaceleração. "Com clima mais úmido e frio, a maturação dos frutos foi atrasada, o que diminuiu a oferta e elevou os preços. Além disso, caiu uma chuva de granizo, em meados de abril, e influenciou a safra de uma importante região do Paraná, cujo produto seria colhido agora", relatou.

Ao contrário do tomate, cujos preços podem aliviar um pouco o bolso do consumidor nos próximos meses, o economista Étore Sanchez, da LCA, disse que, por enquanto, não há indícios de alívio na inflação da cebola. "Não dá sinais de que vá ceder. Os preços estão em franca aceleração", afirmou.

Apesar dessa percepção, Sanchez acredita que, no geral, os preços dos alimentos poderão desacelerar um pouco e ajudar o grupo Alimentação e Bebidas a atingir 0,75% no IPCA de junho. A taxa, se confirmada, será menor que a de maio deste ano (de 1,37%), mas bem mais salgada que a deflação de 0,11% apurada no sexto mês de 2014 pelo IBGE. "Tende a desacelerar ante maio, mas não por causa da cebola. Talvez devido ao arrefecimento de alta de carnes", disse o economista da LCA ao prever 0,67% para o IPCA de junho, após 0,40% em igual mês de 2014.

O coordenador do IPC-Fipe também espera que os efeitos da sazonalidade favorável comecem a influenciar a inflação para baixo neste mês, pelo menos na dos paulistanos. "Os preços de Alimentação que podiam ter ajudado um pouco, não dão sinais de que vá fazê-lo (tão significativamente. Quem sabe até o final do mês...", concluiu. 

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