Com ou sem Brexit, a real ameaça econômica veio para ficar

O problema da produtividade está no radar dos políticos, executivos e dirigentes do banco central há algum tempo, mas agora o assunto ficou mais urgente

Tara Patel and Lucy Meakin, Bloomberg

08 de fevereiro de 2019 | 20h37

No implacável drama politico do Brexit, o fechamento de uma pequena fábrica de rolamentos a 152 quilômetros a oeste de Londres mal foi notado fora da comunidade local.

A perda da fábrica de Stonehouse vai custar 185 empregos, não os milhares que algumas empresas afirmam estar ameaçados por causa da saída da União Europeia. Tampouco o anúncio feito em dezembro veio com o tumulto político que cercou a recente decisão da montadora japonesa Nissan de abandonar seus planos de fabricar um dos seus modelos no Reino Unido.

Ao fechar a fábrica, em 2021, contudo, a proprietária sueca - SKF AB - chamou atenção para uma força contrária perigosa na economia britânica que existe independente da separação ou não da União Europeia: o problema da produtividade do país. E a incerteza quanto ao Brexit deixa as companhias cautelosas quanto a investir na automação que ajudaria a estimular a produtividade.

O problema está no radar dos políticos, executivos e dirigentes do banco central há algum tempo, mas agora o assunto ficou mais urgente. As empresas estão buscando um futuro fora do mercado comum europeu enquanto a primeira ministra Theresa May tenta aprovar seu acordo do Brexit no Parlamento. E elas deparam com uma escolha drástica: modernizar ou morrer.

Não significa que o país não vem trabalhando o suficiente ou não opera de modo inteligente como deveria. Em média os empregados franceses trabalharam 10% menos em termos de horas em 2017, mas assim mesmo produziram mais.

Isso agrava ainda mais uma situação já deprimente. Na verdade a SKF está fechando a fábrica em Stonehouse e transferindo sua produção para a Itália e a França, onde a companhia “consegue fazer uso melhor de máquinas e tecnologias de fabricação mais modernas”.

 Dados compilados pela Federação Internacional de Robótica, grupo que incentiva a utilização de equipamentos de automação na manufatura, mostram que a Grã-Bretanha está ficando para trás;

No caso, por exemplo, da densidade de robôs – o número de máquinas automatizadas para cada 10.000 empregados – o país está em 22º lugar no mundo. A Alemanha está em terceiro lugar, o que sublinha o tamanho do desafio para os apoiadores do Brexit de impulsionar a posição global do seu país.

O dano causado por esse déficit pode ser visto no recorde de produtividade da Grã-Bretanha, disse Ram Ramamoortthy, pesquisador e supervisor do programa de doutorado no Edinburgh Centre for Robotics.

“Se a Grã-Bretanha pretende competir com seus pares que vêm investindo nas modernas tecnologias, então tem  de fazer o mesmo também. Não estamos ainda num ponto sem volta, mas será necessário um esforço sustentado para virar o jogo e isso não vai ocorrer do dia para a noite.

O país registra o mais fraco crescimento em termo de produção por hora trabalhada entre os membros do G-7. Entre 2010 e 2015 chegou perto de 0,2% ao ano, bem abaixo da media de 2,4% que contabilizou de 1970 a 2007, e está bem atrás da França e da Alemanha. O que é particularmente preocupante porque a empresa de consultoria McKinsey estima que 90% do futuro crescimento econômico têm de vir de aumentos na produtividade apenas  para manter o ritmo das taxas de crescimento históricas.

“Algum dano para a economia não poderá ser desfeito mesmo que o país permaneça na União Europeia. A diferença entre a nossa previsão potencial do PIB antes do referendo e como a tendência evoluiu desde a votação,  é de 1,4%. Achamos que o Brexit explica um terço disto e o restante reflete a persistente fragilidade da produtividade do Reino Unido”. (Dan Hanson, Bloomberg Economics - The U.K. INSIGHT.

Em parte isso se deve ao mercado de trabalho mais flexível da Grã-Bretanha.  Após a crise financeira global, as empresas britânicas começaram a contratar compulsivamente, animadas pelo acesso fácil a milhões de trabalhadores ganhando pouco vindos de países mais pobres do leste da Europa, como a Polônia.

Isto não só criou uma recuperação fraca dos investimentos, com os gastos diminuindo em áreas como a de equipamentos, mas também uma recuperação insustentável, caso o governo de May consiga no final fazer aprovar seu objetivo de limitar a liberdade dos trabalhadores fixarem residência na Grã-Bretanha.

O argumento em favor do Brexit sugere que a produtividade pode aumentar porque as empresas não poderão mais de depender de mão de obra barata e serão forçadas  investir em robôs e trabalhar de modo mais inteligente.

“A produtividade é sem dúvida o problema número um da Grã- Bretanha no médio prazo”, disse Dean Turner, economista da UBS Wealth Management. “É aí que o foco do governo e da política industrial necessita estar para compensar alguns possíveis impactos negativos da saída do país da União Europeia”.

Não são apenas as pessoas que estão com risco de corte na economia. As empresas estrangeiras têm em média o dobro da produtividade das empresas domésticas. O que evidencia a importância da abertura para o comércio e o investimento externo, de acordo com Andy Haldane,  economista chefe do Banco da Inglaterra

O Banco da Inglaterra já reduziu suas previsões para o investimento das empresas para zero em 2018. 

Um novo começo pode dar o impulso que as empresas e o governo necessitam, disse Benjamin Craig da consultora Ayming, que faz análises dr desempenho empresarial internacional.  “Estamos muito atrasados em relação aos nossos principais concorrentes que são França e Alemanha, uma posição perigosa antes do Brexit se desejamos continuar a ser uma economia competitiva. No entanto, após o Brexit, é possível que ocorra uma mudança na área de Pesquisa e Desenvolvimento à medida que ganhamos mais independência sobre as medidas a adotar”.

Independente do que vier a ocorrer, parece tarde demais para a SKF de Stonehouse. Nos anos 1930 e durante a Segunda Guerra Mundial a fábrica trabalhava fora do alcance dos bombardeios da Luftwaffe contras as vias de transporte. Hoje sua maior cliente, a Rolls Royce, está abandonando aos poucos o uso dos rolamentos produzidos em Stonehouse e preferindo outros fabricados pela empresa em fábricas francesas e italianas mais modernas e flexíveis.

A estratégia da SKF é consolidar seus cerca de 80 locais de produção e não por culpa do Brexit, disse o porta-voz da empresa Theo Kjellberg.  Ela inaugurou uma linha de produção totalmente automatizada em Valenciennes, França, no dia 21 de janeiro,  para produzir componentes para a fabricante de motores de aviões Safran.

Os empregados na fábrica em Stonehouse há muito tempo temiam que já não eram mais prioridade, disse Nick Bailey, representante  regional  do sindicato Unite.

“Eles afirmam que muitas ferramentas e maquinário estão bem velhos. Sem investimento como atrair novos trabalhos?”. Durante conversa com os funcionários sobre os planos de fechar a fábrica, os executivos da SKF disseram que a carga de trabalho vai diminui em 40%, segundo Bailey. “É como ser deixado aqui definhando”. /Tradução de Terezinha Martino

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