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Com ou sem emoção?

Montanha-russa da política põe em risco volta do investimento

Cida Damasco *, O Estado de S.Paulo

26 Março 2018 | 05h00

O primeiro trimestre já se foi e, pelo andar dos acontecimentos, parece que sua duração foi diferente na economia e na política. Na economia, foi um primeiro trimestre próximo da normalidade, com trajetória praticamente de continuidade em relação ao ano passado.

Podemos dizer que as mudanças observadas no cenário foram mais por uma questão de escala: a inflação resiste mais tempo do que se esperava num patamar bem baixo, a atividade econômica também demora mais tempo do que se esperava para deslanchar, embora já esteja acima do “nível do mar”, e a situação fiscal por enquanto parece administrada – como é de praxe no País, a ameaça maior vem lá adiante, caso não sejam tomadas as devidas providências.

Na política, porém, foi um primeiro trimestre que valeu no mínimo por dois, marcado por grandes emoções, uma verdadeira montanha-russa daquelas que causam arrepios. Candidaturas nasceram e morreram, prioridades que pareciam absolutas foram arquivadas, o Judiciário passou de poder moderador a protagonista de abusos e conflitos. Para complicar ainda mais o quadro, a crônica crise da segurança pública no Rio tornou-se aguda e aumentou a voltagem das disputas políticas, especialmente depois do assassinato de Marielle Franco.

A grande interrogação, agora, é quais as emoções que virão pela frente, com o suspense sobre o destino de Lula e principalmente com a fragmentação do quadro eleitoral – e seus desdobramentos sobre a economia.

Quem escolher se guiar pelos mercados, pode ser levado a acreditar que não há nenhum perigo à vista: mesmo a guerra comercial entre Estados Unidos e China, por enquanto produziu pouquíssimos estilhaços por aqui. Os sinais são de que os mercados continuam indiferentes até aos riscos embutidos no quadro fiscal, que sempre foi apontado com foco de atenção.

É verdade que as contas públicas em 2018 não devem sair da linha e o bloqueio adicional de verbas, de R$ 2 bilhões, é lido mais como uma precaução política do que como necessidade crucial. Mas estamos falando estritamente de 2018 – o futuro próximo está cheio de armadilhas.

Quem olhar para a economia real, tem outras incertezas para levar em conta, ainda que no curto prazo o panorama seja de relativa estabilidade. A inflação não mostra fôlego para se reerguer tão cedo – está estacionada em 2,84%, no acumulado em 12 meses encerrados em fevereiro, frente a uma meta de 4,5%. Prova é que o Banco Central já indicou que vai levar em frente o processo de derrubada dos juros. Tudo em nome de ajudar a retomada a ganhar mais velocidade.

Embora a previsão oficial para o crescimento do PIB no ano ainda esteja em 3%, alguns analistas já admitem a hipótese de que a taxa não chegue lá. Nas apostas do mercado, segundo a pesquisa Focus, a projeção atual é de 2,83%. Um desempenho razoável, mas insuficiente para revigorar o emprego, cujo ritmo atual não dá conta de absorver os desocupados da recessão e os que tentam entrar no mercado.

Já há uma avaliação de que o estoque de estímulos ao consumo está praticamente esgotado e o maior deles, o juro, ainda se mantém elevado na ponta, sustentado pelo spread bancário. Mesmo algumas bondades a serem distribuídas pelo governo Temer, agora empenhado de vez em partir para a reeleição, talvez não tenham amplitude para fazer o serviço de acelerar a atividade econômica.

A grande esperança de um crescimento mais rápido e consistente seria a retomada dos investimentos. Apesar de um certo arranque observado no último trimestre de 2017, os investimentos ainda não engrenaram uma marcha firme. De acordo com o Ipea, o indicador de formação bruta de capital fixo, que espelha o comportamento dos investimentos, mostrou queda de 2,4% de dezembro para janeiro, anulando boa parte da alta do período imediatamente anterior (3,3%).

O mais preocupante é que o investimento é justamente o ponto de encontro da política com a economia. Quanto mais nebuloso o cenário político, mais arredio o empresário. Especialmente quando a demanda ainda não torna o investimento um gênero de primeira necessidade. E, ao que tudo indica, a nebulosidade não vai se desfazer tão cedo.

* É JORNALISTA

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